Cultura

Sobre mundos: Jesus, uma consciência universal

Por Padre Beto | Especial para o JC
| Tempo de leitura: 4 min

Uma vez a cada século, Jesus de Nazaré encontra-se, no Líbano, com Jesus dos Cristãos. Nestes encontros os dois trocam idéias e experiências por várias horas. No final de uma destas conversas, Jesus de Nazaré, ao se despedir, disse francamente a Jesus dos Cristãos: “Meu amigo, eu tenho a impressão que nós nunca iremos chegar a um acordo!”

Engana-se quem acredita que Jesus tinha a intenção de fundar uma nova religião. Na verdade, Jesus de Nazaré veio trazer, através de suas palavras e de suas atitudes, uma nova mentalidade. O Cristianismo foi surgindo por fatores históricos, pela necessidade de preservar, cultivar e difundir esta nova consciência. A nova mentalidade encarnada em Jesus Cristo se inicia, em primeiro lugar, quando percebemos que não há dicotomia entre felicidade e desígnios de Deus. A descoberta da ausência desta dicotomia é o núcleo de uma consciência que abrange todas as dimensões humanas.

Sem dúvida alguma, esta felicidade não é individualista e muito menos está restrita a determinado povo, uma raça especifica ou a uma única religião oficial. A consciência crística prega a felicidade de toda humanidade. O ser humano, sem exclusão, é filho de Deus e, portanto, deve viver e ser respeitado como tal. Em segundo lugar, a nova mentalidade vivida por Jesus não pode estar reduzida a uma religião, a ritos ou ao templo, mas ela foi revelada para se espalhar por todas as sociedades, de uma forma mais concreta: em todos os atos humanos.

A palavra de Jesus não se refere a realidades metafísicas que estão fora do nosso cotidiano, mas diretamente e explicitamente aos atos humanos. Jesus prega um comportamento que radicaliza os mandamentos judaicos e se torna universal. O teólogo alemão Rudolf Bultmann alerta que o novo da pregação de Jesus está, mais explicitamente, no Evangelho segundo Mateus, capítulo 5, versículos de 39 a 48:

“Ouvistes que foi dito: Olho por olho e dente por dente. Eu, porém, vos digo: não resistais ao homem mau, antes, àquele que te fere na face direita oferece-lhe também a esquerda, e aquele que quer pleitear contigo, para tomar-te a túnica, deixa-lhe também a veste; e se alguém te obriga a andar uma milha, caminha com ele duas. Dá ao que te pede e não voltes as costas ao que te pede emprestado. Ouvistes que foi dito: Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo. Eu, porém, vos digo: amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem; desse modo vos tornareis filhos do vosso pai que está nos céus, porque ele faz nascer o seu sol igualmente sobre maus e bons e cair a chuva sobre justos e injustos. Com efeito, se amais aos que vos amam, que recompensa tendes? Não fazem também os publicanos a mesma coisa? E se saudais apenas os vossos irmãos, que fazeis de mais? Não fazem também os gentios a mesma coisa? Portanto, deveis ser perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito”.

Jesus de Nazaré vai além dos mandamentos e toda a sua palavra se refere a uma salvação que acontece no aqui e agora. No ato de fazer o bem está a sintonia mais profunda com o Deus da Vida, com o Inefável. Seguir a Jesus significa, antes de mais nada, estar atento aos nossos atos, àquilo que fazemos de concreto. O ser humano acaba se perdendo em especulações metafísicas sobre Deus e a vida pós-morte, se dividindo e, até mesmo, se rivalizando por causa de crenças, das quais não temos certeza alguma.

Em outras palavras, o ser humano perde seu tempo tentando monopolizar a Deus. Algo totalmente impossível, pois Deus é o Inefável. Como afirmava Ignácio de Loyola, Deus sempre é maior. O Espírito de Deus não é monopólio de uma religião, mas Ele possui a liberdade de se manifestar onde quiser. Qualquer tentativa de determinar e delimitar a figura de Deus torna-se idolatria. O que resta ao ser humano é compreender o que a experiência e a revelação de Jesus nos trouxe: o Espírito de Deus se manifesta onde o homem faz o bem.

A partilha, a fraternidade, o respeito ao ser humano e a nosso universo são formas concretas de sintonia com o Espírito de Deus. Seguir o caminho de Jesus é atingir a verdade de que Deus deseja a vida. Esta, porém, pode se desenvolver dependendo de nossos atos e comportamentos. Cada ato humano possui o poder de criar a discórdia no sentido destrutivo da palavra ou a salvação, ou seja, a construção de um espaço de liberdade, no qual as diferenças sejam respeitadas. Cada vez mais aprendemos que Deus é verdadeiramente dialético. A partir do momento que somos livres e nos respeitamos em nossas diferenças criamos comunhão. O que nos permite ser diferentes é exatamente o que nos une: o respeito profundo ao ser humano.

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