Bairros

Trabalho precário chega a 64% em áreas carentes

Rodrigo Ferrari
| Tempo de leitura: 3 min

Dizer que a falta de empregos com carteira assinada afeta apenas as camadas carentes da população pode até ser exagero, mas não há como negar que a presença da informalidade é maior entre os pobres. Levantamento feito pelo Jornal da Cidade com os usuários dos Centros de Referência da Assistência Social (Cras) de Bauru comprova a afirmação.

Nas seis unidades pesquisadas (Tibiriçá, Ferradura Mirim, Jardim Ferraz, Parque Santa Cândida, além do Núcleo de Apoio à Família - NAF Jaraguá), foi encontrado índice de informalidade de aproximadamente 64% (2.243 famílias de um total de 3.484 cadastradas). O Ferradura Mirim é o bairro de Bauru que apresenta a maior taxa.

A proporção é de 82%, ou 509 famílias num universo de 615. Entre as regiões atendidas pelos Cras, o Distrito de Tibiriçá é, por outro lado, o que apresenta menor número de pessoas atuando no mercado informal, tanto em termos absolutos quanto relativos: apenas 44%, ou 90 famílias de um total de 201, o que, em todo caso, não deixa de ser uma quantia considerável.

A situação dos bairros carentes de Bauru é agravada pelo desemprego. São 915 pessoas vivendo sem quaisquer fontes de renda além de auxílios públicos, como Bolsa Família, Bolsa Escola (federais) ou Renda Cidadã (estadual).

Os índices de desemprego e de informalidade nas áreas pobres da cidade poderiam ser ainda maiores, caso a eles fossem acrescidos os números do Cras Nova Bauru, única unidade que não dispõe de levantamento sobre a situação ocupacional dos usuários atendidos. Dados de pesquisa realizada pela Sebes entre novembro de 2005 e maio deste ano ajudam a dar uma idéia de como o trabalho informal também é bastante difundido na região.

O trabalho, feito em parceria com a Faculdade de Serviço Social da Instituição Toledo de Ensino (ITE) e o Colégio Técnico Industrial (CTI) da Universidade Estadual Paulista (Unesp), pretendia traçar o perfil dos catadores de material reciclável do município. Foram encontradas 295 desenvolvendo a atividade pelas ruas da cidade, das quais aproximadamente 34% (101 pessoas) residem na região do Cras Nova Bauru.

Apesar de a quantia ser considerada baixa pelos próprios idealizadores da pesquisa, os dados ajudam a mostrar a realidade dos bauruenses que vivem da coleta de material reciclável. Entre os números, merecem destaque os referentes à escolaridade dos catadores de lixo.

A maioria (42,74%) possui de um a quatro anos de estudo apenas. O percentual de analfabetos e semi-analfabetos também é grande: 16,24% e 10,26%, respectivamente. Maria Aparecida Ângelo, que mal sabe ler ou escrever, enquadra-se no perfil educacional médio do coletores de material reciclável da cidade.

Ela costuma ganhar cerca de R$ 100,00, ao mês, pelo trabalho esforço diário de puxar um carrinho repleto de papéis usados, latas vazias e garrafas plásticas velhas (são 25 quilos, aproximadamente). O valor é semelhante ao recebido pela maioria dos entrevistados na pesquisa da Sebes: 69,63% dos catadores de lixo abordados ganham de R$ 101,00 a R$ 201,00.

Ângelo, que vive no Jardim Godoy, têm consciência de que o valor é baixo, principalmente porque, todo mês, ela tem de destinar R$ 80,00 para o aluguel da casa em que reside.

Aos 58 anos, ela se daria por satisfeita caso encontrasse um emprego com carteira com assinada, por menor que fosse o salário. “Arrumar um trabalho que pagasse R$ 350,00 reais já seria uma benção para mim”, diz, sem grande convicção de que algum dia isso venha a acontecer.

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