Desdobrar-se para cumprir os papéis de mãe, esposa, dona de casa e profissional se tornou “verbo” freqüente para grande parte do público feminino. Nesta última função, no entanto, um grupo chama a atenção e merece ser ressaltado. São as mulheres “casadas” com o trabalho. Solteiras e sem filhos, são bem-sucedidas e se focam intensamente na carreira. Isto não significa, porém, que elas precisem sacrificar horas de lazer, convívio com amigos e familiares ou projetos para o futuro.
A professora Sandra Mara Limoni, 37 anos, “casou-se” com o trabalho. Formada em letras com habilitação em português e espanhol, ela já atuou como docente em Araçatuba, lecionou em uma faculdade de São Manuel e também em escolas da rede pública e privada de Bauru. Atualmente, ministra quase 30 aulas por semana para alunos do ensino fundamental e está se preparando para o mestrado em educação.
“Almejo o mestrado e no momento estou estudando muito para isto. É meu objetivo”, conta ela, que recentemente foi aprovada na prova escrita da Universidade de São Paulo (USP). No restante do seu tempo livre, viaja para Pederneiras, onde mora sua mãe, se diverte com amigos ou aproveita para ler.
Apaixonada por sua carreira, Sandra conta que desde que completou 24 anos priorizou o setor profissional em sua vida. Ele já teve namorado, mas nunca se casou ou teve filhos. “Não apareceu a pessoa e oportunidade certas. O namoro exige tempo e dedicação e na época que cursei a faculdade, por exemplo, precisava estudar bastante”, diz.
De acordo com ela, estar “casada” com o trabalho tem pontos positivos e também negativos. Embora tenha sucesso na profissão, aponta, o fato de não ter constituído família pode trazer solidão. O sentimento costuma “atacá-la” principalmente aos domingos. “Moro sozinha e, às vezes, me questiono pelo fato de não ter filhos”, diz, ressaltando que apesar de estar focada no mestrado, não descarta a possibilidade de se casar e ser mãe.
A procuradora jurídica aposentada Aparecida Acituno Fernandes, 60 anos, fala com entusiasmo sobre seu “casamento” com o trabalho. “Esperei muito para poder fazer o curso de direito. E quando terminei pude exercer a profissão. Foi muito gratificante”, diz.
Ela aponta que o único ponto negativo pelo fato de não ter se casado foi o de não ter exercido a maternidade. “Me dediquei à profissão e não tive filhos. Poderia ter acontecido, mas não sou adepta da produção independente. Acredito que a criança tem que ter pai e mãe. Não quis fazer filhos apenas para uma realização pessoal e não pensar no futuro da criança”, diz.
Como adora crianças, conta Aparecida, sempre “curtiu” muito os filhos dos amigos, vizinhos e familiares. Aposentada há sete anos, atualmente ajuda a tomar conta do sobrinho. Além disto, revela ela, quase não sobra tempo livre em sua rotina, que inclui ginástica, hidroginástica, condicionamento físico, aulas de bordado e pedraria, pintura em tela, costura e artesanato, além das viagens com amigas. “Eu não páro”, brinca. “Preencho meu tempo com estas atividades e não tenho problemas de depressão ou tristeza. Gosto de estar ocupada e formar novos grupos de amigos”, diz.
Já a professora universitária aposentada Myriam Caldeira de Mello teve vida conjugal de cinco anos, mas também foi “casada” com o trabalho durante décadas. Formada em letras com habilitação e inglês, ela teve uma carreira profissional bastante diversificada. Ministrou aulas na embaixada americana, em Brasília, foi docente da Universidade Estadual Paulista (Unesp) para os cursos de jornalismo e relações públicas, trabalhou no gabinete da Secretaria de Educação em São Paulo e desenvolveu um projeto na área de comunicação social na Amazônia. Seu última função foi a de assessora internacional da Unesp na reitoria de Marília. “Minha carreira foi bastante movimentada”, define.
Myriam conta que sempre foi apaixonada pela profissão e se dedicou muito à carreira. Segundo ela, por conta disto, nunca se preocupou muito em obedecer alguns modelos sociais. “A mulher nasce, é educada para ser uma boa filha, ir à escola, arrumar um bom emprego, ficar noiva, casar, ter filhos e dar netos para os pais. Mas eu não sigo padrões. Não coloquei este roteiro na minha vida”, diz.
Para ela, uma das melhores coisas do “casamento profissional” é poder desfrutar da liberdade. “Às vezes encontro pessoas mais convencionais que acreditam que eu sofri porque sou solteira. Mas sou muito feliz. Acho que sofreria de tédio se tivesse que seguir um padrão imposto pela sociedade.” Aposentada há mais de cinco anos, Myriam dedica seu tempo à filantropia. Atualmente, desenvolve um trabalho para ajudar na área de comunicação e divulgação do Centro Espírita Amor e Caridade (CEAC).