Tribuna do Leitor

Ética? Isso existe?


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Nunca se falou tanto em ética. Jamais a ética ocupou tanto espaço na mente do povo e nos temores dos políticos. Os que sonham um Brasil paladino exemplar da ética, e por isso votaram bem, sentem o coração aos pulos dentro do peito, rezando para que os fatos desmintam discursos vulcânicos e esfriem as lavas incandescentes derramadas no chão do Congresso...

Na direção do sonho, temos uma Polícia Federal rompendo a histórica muralha da impunidade nacional. As operações sucessivas e fulminantes resultam, cada uma, em dezenas de prisões simultâneas em diversos estados, em madrugadas silenciosas. Culminam meses ou anos de investigações eficientes, em surpreendente sigilo... Toda semana, um ou mais episódios policiais que furam tumores mal cheirosos alegram e alimentam a esperança dos que votaram na ética pública. Já no mundo da política, no atual turbilhão de mentiras e verdades, meias ou inteiras, cresce o descrédito do povo na classe que deveria ser o que de melhor produziria a cidadania, pelo poder do seu voto.

A decepção popular na classe política é extremamente perigosa. Pior; tem fundamento. Ainda que se prove a inconsistência das acusações contundentes de práticas repugnantes... o mal está feito. O simples bate-boca na Comissão de Ética, ao vivo pela TV para milhões de espectadores, já define a baixa qualificação de políticos de alta posição na estrutura partidária do país.

A gagueira trêmula em depoimentos de acusados revela verdades mal ocultas nas negativas nervosas, nada convincentes. Manobras políticas estratégicas são percebidas pelo cidadão comum como tentativas indecentes para impedir a apuração de maus comportamentos. O povo já incorporou a convicção da veracidade do mensalão e do pagamento de luvas pelo passe de políticos dispostos a mudar de partido, talvez o aspecto mais grave, do tsunami que começou com modesta propina de 3 mil reais gravada em vídeo por interesse de um fornecedor de empresa pública, descontente com resultados de licitações.

Os cruzamentos de declaração desencontradas e testemunhas hesitantes vão delineando essa certeza, dispensando provas materiais impossíveis em negócios dessa natureza. O Legislativo está, assim, profundamente desqualificado por uma minoria atuante descomprometida com ser honesto e parecer honesto. Ser é mais importante que parecer. Mas a confiança popular sucumbe à aparência.

Que seja respeitoso o afastamento de parceiros possivelmente honestos mas fortemente suspeitos de deslizes maiores ou menores e que seja compreendido sem amarguras, pela importância da pureza ética da imagem prejudicada... Parece ser este o momento propício. Será entendido pelo povo como um choque ético purificador, capaz de reacender esperanças, confirmado pela continuidade da demolição do velho muro da impunidade...

João Álvares - delegado regional da Associação Paulista de Imprensa - Reg. 2069

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