A possibilidade de Bauru acolher os alunos da faculdade de medicina da Universidade de Marília (Unimar) suscita receio entre a classe médica da cidade. A crença de que universitários poderiam amenizar a crise da Saúde pública local é uma falácia, na opinião dos profissionais que se manifestaram no JC ontem e nos últimos dias.
“Se for esse o objetivo, é uma coisa totalmente obtusa, é ridículo. É o pior argumento que pode existir para colocar uma faculdade em Bauru. A faculdade de medicina tem por objetivo formar as pessoas, não suprir demanda de atendimento”, diz o conselheiro do Conselho Regional de Medicina (CRM), Carlos Alberto Monte Gobbo.
De acordo com ele, amanhã a transferência da faculdade privada para Bauru será colocada em discussão durante reunião realizada pela entidade. Ele já adianta a preocupação do CRM com a formação de qualidade dos universitários. “Ter um pólo de atendimento do Sistema Único de Saúde (SUS) não garante todos os requisitos para montar uma faculdade. Bauru tem hospitais atendendo o SUS, mas não foram preparados para atender os alunos”, explica.
Dificuldade
Para o médico Dirceu Alves da Silva Júnior, em artigo publicado no JC, a transferência é decorrente das grandes dificuldades demonstradas pela Universidade de Marília em dar condições de formação adequada aos seus alunos. Na opinião dele, a instituição está à procura de uma estrutura hospitalar que proporcione aos matriculados o mínimo de formação.
Segundo ele, em Marília não há volume de pacientes porque a Faculdade de Medicina de Marília (Famema), que é pública, absorve grande parte do atendimento. Conforme já publicado, ao direcionar recursos, o Ministério da Saúde prioriza hospitais públicos. Os filantrópicos vêm em segundo lugar, sendo os particulares, os últimos contemplados.
“O que eu vejo hoje, politicamente, é uma guerra de braço entre a Unimar e a Famema. Nós vamos receber alunos do internato (5.º e 6.º anos), mas as estruturas (da Associação Hospitalar de Bauru) atendem as necessidades de ensino? Não atendem”, garante Gobbo, que também ministra aulas na Faculdade de Medicina da Universidade Estadual Paulista (Unesp), câmpus de Botucatu.
Resolutividade
Um hospital-escola não tem a mesma resolutividade que um Hospital Geral Assistencial, como é o caso do Hospital de Base (HB), alerta o anestesiologista Lourenço Antonio Zequi, também em carta publicada no JC. No texto ele ressalta que nas faculdades de medicina também têm fila para atendimento e cirurgia e que pacientes esperam um ou dois anos para procedimentos eletivos (agendados).
“Os residentes escolhem quem desejam operar, de acordo com a sua necessidade de aprendizado e treinamento”, consta em trecho da carta. Gobbo reitera a dificuldade. “Se você for ver o tempo médio de permanência, é óbvio que ele (o paciente) roda mais rápido (no hospital assistencial, como o HB). O hospital-escola tem a peculiaridade de estar envolvido com o sistema de ensino”, esclarece.
No entanto, o conselheiro do CRM entende como legítimo o desejo da população em sediar uma faculdade de medicina em Bauru. “A cidade é um pólo universitário, tem várias faculdades. Umas das poucas que faltam talvez seja a faculdade de medicina. Mas precisamos ver que tipo de faculdade nós queremos, se é de boa qualidade e se está preocupada com o ensino médico”, conclui.
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Complicador
A vinda dos alunos de medicina para Bauru, além de não ajudar a melhorar o atendimento público municipal, ainda trará complicadores, diz o conselheiro do Conselho Regional de Medicina (CRM), Carlos Alberto Monte Gobbo. “Ela exige uma demanda de profissionais médicos que dê supervisão e orientação a esses alunos. Hoje, Bauru não tem esse corpo”, explica.
Na opinião dele, a melhoria da Saúde Pública local passa pela contratação de mais médicos para a rede básica de saúde e por mais verbas para otimizar as instalações, por exemplo.
“Pensar que irá contribuir para melhorar a assistência médica ao povo é um equívoco e muita ingenuidade. É um devaneio que pode custar caro para o poder municipal ou para a Associação Hospitalar de Bauru, cujas finanças não são nada sólidas. Pensar que vai atrair verbas para a saúde dos bauruenses é um ledo engano. Saúde e educação nunca foram prioridades de governos”, escreve o pediatra Renato Barban, em carta também publicada no JC.
Para o médico, Bauru precisa deixar de lado esse complexo de inferioridade por não ter uma faculdade de medicina.