É comum dizer que do cinema independente americano vêm as melhores produções, porém tem havido mais exceções do que respeito à regra nos últimos anos. “Pequena Miss Sunshine”, que tem estréia nacional hoje, inclusive no Cine’n’Fun, vem rebater qualquer idéia pré-estabelecida com um roteiro que, se não brilha em grande originalidade, pelo menos deixa diretores e elenco à vontade para uma das mais sensíveis e deliciosas comédias dos últimos anos.
Aplaudido de pé no Festival de Sundance – principal vitrine do cinema independente -, “Pequena Miss Sunshine” já ganhou críticas com referências óbvias a “Os Excêntricos Tenenbauns” ou a coisas como “uma família à beira de um ataque de nervos”. Bobagens.
A comédia segue a cartilha dos road movies e de John Hughes, diretor de “Curtindo a Vida Adoidado” e responsável pelo roteiro do clássico “Férias Frustradas” (“National Lampoom’s Vacation”). São apenas personagens desajustados que precisam buscar o equilíbrio para suportar uns aos outros em um momento de necessidade.
O filme é dirigido por Jonathan Dayton e Valerie Faris, estreantes em longas mas veteranos no comando de videoclipes - já trabalharam com REM, Red Hot Chili Peppers, Jane’s Addiction, Oasis e Weezer -, com roteiro do também estreante Michael Arndt.
No material de divulgação, os diretores afirmam que seu “elenco dos sonhos” foi formado com as primeiras escolhas para cada papel – com o auxílio dos produtores, já que “Miss Sunshine” é independente e foi rodado com US$ 5 milhões.
Greg Kinnear (“Melhor É Impossível”) interpreta Richard, o patriarca dos Hoover, palestrante motivacional fracassado que nunca passa uma chance de emitir citações de psicologia barata sobre vencedores e perdedores. Ele é casado com Sheryl (Toni Collete, de “O Sexto Sentido”, “Um Grande Garoto” e “Em Seu Lugar”), o ponto de apoio que tenta desesperadamente que sua família dê certo, após um divórcio aparentemente doloroso.
O casal tem dois filhos: o adolescente Dwayne (Paul Dano, de “Os Sopranos”), em voto de silêncio e dono de ódio pela família, e a pequena Olive (Abigail Breslin, de “Sinais”), que vem treinando para apresentar-se em um concurso de miss mirim. O elenco se completa com Frank (Steve Carell, de “O Virgem de 40 Anos”), estudioso gay irmão de Sheryl em recuperação após uma tentativa de suicídio, e o avô (Alan Arkin), expulso de uma casa de retiro por seu vício em heroína.
“Bem-vindo ao inferno”
Com ótimo ritmo, o filme parte do encontro da família ao descobrir que Olive foi selecionada para o concurso Little Miss Sunshine. Sem dinheiro suficiente para passagens de avião e sem poder deixar Frank, o vovô ou Dwayne sozinhos, a solução é colocar toda a família dentro da Kombi amarela, partir para a Califórnia e realizar o sonho da adorável menina.
Se há “gags” previsíveis para um road movie com uma família disfuncional dentro de uma Kombi, ganha destaque a naturalidade dos atores para incorporar seus papéis nada artificiais.
“Há uma onda de amor oculta entre os personagens, que acaba mantendo-os juntos e estabelecendo laços. Em qualquer família, há momentos em que você detesta alguém, mas nunca pode fugir do fato de que sempre estarão ligados pelo sangue e unidos quando houver uma crise de verdade, como essa em que os Hoover estão em seu caminho para a Califórnia”, diz Carell, em entrevista divulgada pela Fox.
O comediante é dono de uma das melhores interpretações, ao lado do jovem Paul Dano e do veterano Alan Arkin. No papel de um homossexual especialista em Proust, ele se coloca como um grande intelectual sem qualquer inteligência emocional para lidar com relacionamentos.
Arkin é quem solta as melhores frases, politicamente incorretas e sem vergonha de explodir as verdades. E Paul, como o alienado Dwayne, enfrenta o desafio de passar mais da metade do longa em silêncio e participar da maior parte dos diálogos munido de suas expressões de desdém ou de um bloquinho no qual sucintamente deixa claro o desprezo pela família. A pequena Abigail Breslin é outra jóia, em sua interpretação de criança que é criança.
Da trilha sonora e fotografia às interpretações complexas, “Pequena Miss Sunshine” capta as entrelinhas de qualquer crise familiar. Na riqueza de observações dos diretores e na sátira à sociedade americana, a família chega ao bizarro concurso de beleza infantil e o filme, à sua conclusão nada piegas, com uma história bem contada, de que às vezes é importante fazer as coisas somente por fazer – e ainda rir de si mesmo.