Bagdá - Numa demonstração de força da milícia Exército Mehdi, fiel ao clérigo radical xiita Muqtada al Sadr - e de fragilidade das forças de segurança iraquia nas-, centenas de militantes armados entraram em confronto com a polícia e com membros de uma milícia xiita rival ontem em Amarah, a sudeste de Bagdá.
O Exército Mehdi chegou a assumir o controle da cidade de mais de 250 mil habitantes antes que uma trégua fosse negociada. A ação em Amarah começou anteontem, mesmo dia em que o comando militar dos EUA reconheceu o fracasso da operação contra a violência sectária em Bagdá - após o presidente George W. Bush aceitar, pela primeira vez, um paralelo entre o Iraque e o Vietnã.
Numa nova admissão da gravidade da crise, o presidente afirmou ontem que a situação “no momento é dura”. Ele pretende se reunir nos próximos dias com os generais que comandam a ação no país para discutir uma nova estratégia contra a violência. “Estamos constantemente ajustando as táticas para atingir nosso objetivo e, no momento, está duro.”
Uma das táticas que podem ser revista é o ritmo da transferência da responsabilidade pela segurança para os iraquianos.
A Província de Maysan, da qual Amarah é Capital, é uma das que já estão sob responsabilidade iraquiana -a transferência do controle do Exército britânico para as forças locais ocorreu há apenas dois meses.
Mais de 300 homens, vestidos de preto e armados com fuzis e granadas, atacaram quartéis da polícia de Amarah - os três principais foram postos abaixo. Dez policiais e 15 insurgentes morreram nos combates.
Pela manhã, militantes patrulhavam a cidade em veículos policiais. No início da tarde, o xeque Abdul al Muhamadawi, principal líder político local, disse: “Não há Estado na cidade neste momento”.
O ataque foi uma retaliação à prisão do irmão de um dos chefes do Exército Mehdi, ocorrida depois do assassinato do chefe de investigação da polícia local, que era membro da milícia xiita rival Organização Badr. Líderes do Exército Mehdi, políticos locais e representantes do governo do premiê Nuri al Maliki - também xiita - negociaram por horas para que houvesse uma trégua. Alto-falantes divulgavam carta do clérigo Sadr pedindo calma. Setecentos soldados iraquianos foram enviados para tentar conter a ofensiva.
À tarde, os insurgentes recuaram. Não estava claro, porém, se o controle de toda a cidade foi devolvido.
Poder
A ação pôs mais uma vez em evidência o crescente poder do jovem Sadr - o clérigo, que liderou um levante contra os EUA em 2004, tem cerca de 30 anos.
O Exército Mehdi é um dos principais impulsores da violência e atua praticamente sem resistências. Sadr tem grande influência política e apóia o premiê - cada vez mais pressionado pelos EUA para conter os radicais xiitas. Mas a ofensiva ressaltou também as profundas divisões na facção.
A estabilidade do governo depende de um frágil acordo entre Sadr, que comanda uma das maiores bancadas do Parlamento, e Abdul Aziz al Hakim, líder da Organização Badr e do maior partido xiita.
O número de ataques no Iraque aumentou mais de 20% nas primeiras três semanas do Ramadã (mês sagrado dos muçulmanos, época em que comer, beber e manter relações sexuais são atividades proibidas entre a alvorada e anoitecer), se comparadas com as três semanas anteriores.