A canção “Eu Sou 300” não está no disco homônimo, mas o conceito do poema de Mário de Andrade sobrevive no novo vôo solo do titã Sérgio Britto, que chega às lojas pela Arsenal/Universal. Ele chegou a musicar o poema mas não ficou satisfeito com o arranjo. “Ele reflete bem minha idéia, um pouco da procura da unidade em meio à diversidade, é a minha procura estética. É um pop rock com o tempero da brasilidade que dá essa diversidade”, explica.
A diversidade está em faixas como “Na Linha do Horizonte”, com tom de bossa nova, e “Nós”, próxima de um samba cadenciado. Outras canções aproximam-se bastante do rock do Titãs, como “Anticorporativa”, em que Britto canta “Não é o paraíso esses portões automáticos/ (...) Não são poesia as curvas da Coca-Cola”, e “Agora Eu Quero A Verdade” – “Eu sei que governar faz mal pros seus princípios/ Dizem que a carne é fraca e que o poder corrompe/ (...) Conheça o novo presidente, igual ao velho presidente”, profetiza.
Músicas que poderiam muito bem estar em um disco do Titãs... Sinal de que a banda chegou ao fim? “Não, a agenda dos Titãs continua pesada, com muitos shows. No ano que vem, a gente dá uma parada para gravar e lançar disco novo, provavelmente no segundo semestre”, diz.
“Não premedito quando vou compor e qualquer coisa cabe no meu trabalho solo. Com o Titãs, depende da aprovação e do gosto de todos. É uma necessidade minha de fazer coisas que não cabem no Titãs. Tenho um lado ácido, atribuído à banda, mas que faz parte da minha individualidade e esse disco abre o leque dessa minha individualidade”, completa.
Em “Eu Sou 300”, 11 faixas são somente de Britto, “Na Linha do Horizonte” é uma parceria do titã com o ex-colega Arnaldo Antunes e “Chulapa Free” é regravação da banda Tiroteio – do compositor Sérgio Boneka, de quem o Titãs já gravou “Eu Não Agüento” – que homenageia o jogador Serginho Chulapa.
“‘Chulapa’ eu ouvi há alguns anos e sempre gostei, queria ter gravado com o Titãs e não rolou. Aproveitei e gosto desse quê meio rap meio samba. A música com o Arnaldo, eu fiz há um ano e meio, a letra é quase inteira dele”, conta.
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Saudade e novidade
Tema comum em composições recentes de músicos brasileiros como Herbert Vianna e Nando Reis, a saudade de casa também aborda Britto – ou vice-versa – na canção “Raquel (D.D.D.)”, escrita para a mulher. “Quem vive na estrada passa por isso, a não ser que não tenha de quem ter saudade... Não é de se estranhar (que músicos de sua geração venham falando do tema). Quem fica longe da família, da namorada, em um momento mais maduro da vida, vai falar disso”, analisa.
Outras homenagens são o belo tema instrumental “José”, composta para o filho, e “São Paulo (Cosmópolis)”. “Moro em São Paulo há muito tempo, desde que me entendo por gente, e a cidade é pouco cantada no meu entender. A música fala das coisas que penso e que vivo, como a expressão da minha individualidade mesmo, essa coisa urbana. Essa foi feita de ato pensado para a cidade”, revela.
Britto já vem ensaiando, nas poucas horas vagas, com um trio de baixo, bateria e guitarra (“eu faço teclado e violão”) para divulgar “Eu Sou 300”. “Quando a agenda do Titãs der uma folga, quero viajar e trabalhar o disco. Trabalhamos juntos (o Titãs) há 25 anos, é normal querer experimentar outras coisas e tocar com músicos diferentes. Não tem mágoa nenhuma, passamos a compreender bem essa necessidade de todos”, finaliza.