Assisti neste domingo às voltas finais do Grande Prêmio do Brasil de Fórmula 1. Menos por ser aficionado desse esporte, mais por inércia dominical. Vitória de Felipe Massa, um botucatuense de sucesso, parabéns. Entretanto, a cerimônia de entrega dos troféus mostrou um momento emblemático da vida de nosso país. Um momento tão rápido que talvez tenha passado despercebido à maioria dos espectadores felizes com a vitória brasileira. O troféu de primeiro lugar foi entregue a Felipe Massa pelo prefeito de São Paulo, o do segundo colocado por um outro político importante, mas, honestamente, não me lembro quem, o do terceiro colocado pelo ministro do esporte, cujo nome não registrei, e assim por diante.
Emblemática foi a atitude de cada piloto ao receber o seu troféu: cada um deles ignorou solenemente o figurão que o entregou, sequer apertou a mão do político, e levantando a taça, saiu para festejar a sua conquista. Os figurões da burocracia brasileira ficaram como figurinhas decorativas desprezadas e descartáveis, saindo de cena rapidinho.Esse é o Brasil de hoje. Milhares de brasileiros são bem sucedidos, por meios próprios, sem depender do governo ou do dinheiro público. Esses empreendedores lutam arduamente hora após hora, dia após dia, buscando maior eficiência em suas empresas, em seus negócios.
A espoliação dos impostos escorchantes, a barreira da burocracia escravisante, a decepção da corrupção absurda, são para os empresários bem sucedidos apenas fatores a serem considerados nas complexas equações que precisam resolver para terem empresas eficientes e produtivas. Dessa forma, podem obter lucros para si e para pagarem os salários de seus funcionários e os benefícios a que eles têm direito, ou seja para garantirem vida digna para si e para milhares de brasileiros.
Ao final desse verdadeiro campeonato, no qual precisam vencer seus saudáveis adversários que são os concorrentes em seu segmento de mercado, mas, sobretudo, precisam vencer as barreiras e os confiscos que lhe são impostos pelo poder público, quando sagram-se campeões, ou simplesmente finalistas bem sucedidos, têm, sim, o direito de agirem como o Felipe Massa: virar as costas solenemente aos governantes e festejar suas vitórias sozinhos.
O momento político que vivemos parece uma ópera bufa, escrita por algum autor deprimido. A sociedade brasileira reparte-se entre dois grupos básicos: o primeiro é composto pelos beneficiários do governo, figurantes que recebem um soldo ínfimo mas suficiente para apaniguá-los e atores que carregam malas de dinheiro. São cidadãos que cegam-se à realidade maior, que é o fato de que não existe dinheiro sem o correspondente trabalho para produzi-lo. Ou seja, contentam-se hoje com uma benesse que não poderá existir indefinidamente.
No segundo grupo estão aqueles que sabem que dinheiro é trabalho acumulado, e fazem do trabalho árduo sua fonte de sucesso, mas, nauseados, preferem resignar-se à condição de espectadores da ópera, pagando o ingresso. Acreditam em sua capacidade de sobreviver, afinal, já sobreviveram até à inflação de 80% ao mês. Esse é o grupo que, prazerosamente, vira suas costas para o governante, segura seu troféu e abre sua garrafa de champanhe para dar um banho de sucesso em quem estiver à sua volta. Talvez sintam se super-homens, prontos para sobreviver a um novo governo, seja mais do mesmo ou seja mais do anterior. Sabem que as duas opções são ruins. Talvez exista uma menos mal, mas a diferença é tão ínfima que não vale a pena gastar seus neurônios com isso.
Procurando um fecho para este artigo, fico pensando se devo repreender os apaniguados por sua falta de visão de futuro, ou os bem sucedidos por seu descaso com o futuro, e acabo concluindo que ambos têm suas razões, uns para aplaudir os governantes outros para lhes virar as costas.
Deixo, então, ao leitor a tarefa de pensar, e de se questionar. Afinal, em que grupo você está hoje? E onde pretende estar daqui a 10 anos?
O autor, Eric-Édir Fabris, é engenheiro civil