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Guerra civil muçulmana


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O conjunto das crenças e obrigações islâmicas encontra-se em dois livros: Corão e Suna. O Corão (faço, aqui, uma comparação simplificadora) é uma espécie de Bíblia dos muçulmanos. O arcanjo Gabriel teria inspirado Maomé em escrevê-lo. Compõe-se de 114 suratas e mais de 6.000 versículos, que tratam de questões religiosas, políticas e morais. Mais tarde, os sucessores de Maomé recolheram informações sobre a vida e os feitos do profeta. Reuniram os seus ensinamentos e os seus atos (chamados de hadits) em um novo livro: o Suna.

Segundo o Corão, só os descendentes de Maomé poderiam substitui-lo no cargo de governar os crentes. Mas o Suna não diz a mesma coisa. Com isso, surgiram duas seitas rivais. Os sunitas, que seguem o Suna e o Corão, e aceitam a idéia de um governo escolhido democraticamente pelo voto. Os sunitas tendem a ser mais abertos às mudanças comportamentais e culturais. A outra seita é a dos xiitas, que segue apenas o Corão, não admite um governante que esteja fora da cúpula hierárquica da religião muçulmana; além disso, os xiitas tendem a um comportamento ortodoxo, não aceitando padrões novos de comportamento moral.

É provável que por serem mais maleáveis em sua doutrina, os sunitas tenham se adaptado melhor às influências ocidentais e capitalistas. Nos últimos séculos, os sunitas chegaram ao poder político em quase todos os países muçulmanos. Além disso, foram também os sunitas que conseguiram enriquecer e se urbanizar.

Os procedimentos de controle do crescimento populacional, após a urbanização, contribuíram para uma redução expressiva do crescimento vegetativo entre os sunitas. O mesmo não aconteceu com os xiitas: as mulheres xiitas, já no início do século XXI, continuam a gerar, em média, cinco filhos, no decorrer de suas existências. No início do século XX, os xiitas eram 1/8 da população muçulmana; agora são 1/3 do total.

Há 140 milhões de xiitas no Oriente Médio. Eles são maioria no Irã, Iraque, Bahrein e Líbano. O Irã é governado pelos aiatolás e se consolida como liderança regional. Bahrein é extremamente rico em petróleo. O Iraque não é mais governado pelo sunita Saddan Hussein. O grupo xiita Hezbollah ganhou força política no Líbano, após as escaramuças com o exército de Israel. Estes fatos levam os xiitas a sentir que, além do peso demográfico, eles estão ganhando força política.

Os sunitas começaram a se sentir ameaçados e estão reagindo. O governo monárquico saudita, que não é especialmente dedicado ao respeito pelos direitos humanos, está realizando uma verdadeira caça aos xiitas; no Iraque, os confrontos entre xiitas e sunitas degeneraram em guerra civil e a tendência é que a violência entre muçulmanos se espalhe por todo o Oriente Médio. O que antes era dissidência religiosa e questão de identidade está virando uma luta pelo poder, riquezas e território.

A desastrada intervenção norte-americana, no Afeganistão e no Iraque, abriu a caixa de pandora do radicalismo religioso. E se o Oriente Médio depender da moderação de lideranças como Mahmud Ahmadinejah, Muqtada al-Sadr ou Osama Bin Laden, a tragédia está garantida.

O autor, Ney Vilela, é coordenador regional do Instituto Teotônio Vilela

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