Escrevo antes do último debate na TV Globo, com a consciência de que não haverá “bala de prata”, por mais certeira a pontaria, que consiga impedir a reeleição de Lula. O “jacaré” abriu a bocarra em 24 pontos, na expressão dos analistas dos gráficos de tendências: mandíbula para cima e a queixada para baixo. O que se pergunta agora é como será o day after. Está afastada a hipótese de se levar a disputa eleitoral para um terceiro turno, no tapetão. O próprio FHC admite que seria “golpismo” e é preciso aceitar, com serenidade, a vontade do povo.
Como simples observador inocente acho que os eleitores que votaram em Heloisa Helena, em Cristóvam Buarque e até mesmo no Geraaaldo, queriam o segundo turno, apenas por ser mais democrático. Besteira alegar que foi por causa da divulgação das fotos do dinheiro da frustrada compra do dossiêgate. Fora “azelite” branca, o resto está pouco se lixando para as discussões de ética na política. Os mais pobres querem “benefícios sociais”. Cansaram de esperar que lhes ensinem a pescar.
Um grupo dos meus alunos de Jornalismo, mediante pesquisa bem engendrada, concluiu em Seminário que a maior protagonista desta campanha eleitoral foi a mídia, em vez dos candidatos. E se os jornais, revistas e tevês ficaram no centro do debate político é porque faltou debate político. Alckmin resolveu abandonar a aura do bom-mocismo para perguntar “de onde veio o dinheiro?” Lula, contendo-se para não responder que veio da p.q.p. limitou-se a demonizar as idéias liberais do PSDB que ele mesmo aperfeiçoou. Ou a satanizar as privatizações, justamente o ponto alto da era tucana. A Vale do Rio Doce faturava US$ 400 milhões em 1997 e, neste 2006 já vendeu US$ 4,6 bilhões. Empregava 11 mil funcionários e hoje sustenta 44 mil. Transformou-se na segunda maior mineradora do mundo. A beneficiária foi a Nação com o recolhimento de impostos, de dividendos e o término dos desperdícios. As Teles investiram no Brasil 165 bilhões de reais. Telefone fixo chegou a custar 3 mil dólares, aqui mesmo em Bauru. As classe C, D e E hoje se comunicam, fazem negócios e vendem serviços mediante 60 milhões de celulares.
A imprensa factóide conseguiu transformar a campanha eleitoral num grande espetáculo.Ela mesma no centro do picadeiro. Cada órgão de comunicação quis suplantar a concorrência com choques de desinformações. Em vez de discutir políticas públicas a Istoé preferiu plantar um dossiê suspeito. Deu 100% de notícias favoráveis ao Lula, enquanto a Veja agiu exatamente de modo contrário. O resto da “grande imprensa” correu atrás, cada meio procurando esconder suas preferências. Ora... a imprensa também pode (e deve) ter lado. Isso não implica em falta de isenção. Basta colocar, como os jornais norte-americanos, seus pontos de vista a favor deste e contra aquele, claramente, nos editoriais, e continuar contemplando cada candidato com espaços equivalentes. Os correspondentes estrangeiros lamentaram a falta de discussão política. Lá fora o escândalo vale pouco. Eles querem saber o que pensam os candidatos sobre a economia (it`s de economy, stupidy!); se o Brasil vai continuar pagando o que deve; se vai precisar de mais algum a custa de juros polpudos, etc. A Carta Capital denunciou “A trama que levou ao segundo turno”. Que trama, Mino? O que o mundo quer saber é por que, depois de tantos escândalos, Lula vai ganhar!
Lendo o livro de Ricardo Kotscho sobre a sua vida de repórter desde o golpe de 64 até a curta atuação como assessor de comunicação de Lula, no Palácio do Planalto, acho que ele conseguiu sintetizar o drama dos escândalos que envolveram o PT, sem fazer julgamento de valor. “Olhando as coisas agora de trás para frente, fico com a impressão de que a raiz do problema não está nas pessoas ou nos partidos, mas num sistema político condenado a não dar certo. Para chegar ao governo, um candidato, qualquer candidato de qualquer partido, tem que fazer tantas concessões e alianças, mobilizar tantos recursos, que acaba amarrado a um conjunto de interesses – de tal forma que não consegue implantar as reformas reclamadas pelo país há décadas”. O diagnóstico da doença é correto. O drama agora é saber se Lula terá vontade política para curar essa bicheira.
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC