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Entrevista da semana: Dalva Correa: ‘O balé é um vírus’

Thatiza Curuci
| Tempo de leitura: 10 min

É no compasso da dança que a bailarina e professora fundadora do Ballet Vitória Régia, Dalva Maria Correa Silva, leva a vida. O balé está em sua história desde que era criança, quando tinha 7 anos. Foi o pai que a levou pelas mãos a uma escola de dança, quando ainda morava em São Paulo. Quando entrou, foi rapidamente contagiada pela música, pelos movimentos precisos do balé e pela beleza desse tipo de arte. Desde então, nunca mais se livrou deste “vício” – como ela própria diz.

Ela não esconde o fato de ter 63 anos. Por suas mãos, já passaram mais de 6.500 alunos. Em janeiro do ano que vem, a escola de dança completa 30 anos. Mas quem lê a história de Dalva não imagina que ela ficou longe do balé por 10 anos de sua vida. Por espontânea vontade, decidiu dedicar-se à família e a criar as duas filhas. Mas acabou não resistindo aos encantos do balé e voltou a dançar.

Um dos maiores orgulhos é ter recebido o título de cidadã botucatuense, em 1998. No currículo, também tem o mérito de ter sido bailarina do Teatro Municipal de São Paulo e ter viajado por dezenas de países.

Com carinho, lembra-se do marido, Joubert Campos Silva, que morreu há dois anos e meio. Amigo de todas as horas, ele gostava e conhecia muito sobre música. Na casa da bailarina, um acervo de dar inveja a uma rádio guarda vinis e fitas de diversos autores.

Dalva não abre mão da simplicidade e de procurar o “belo” nas coisas. As flores de seu jardim, por exemplo, a inspiram a dizer que prefere a beleza da vida ao conformismo. A bailarina conversou com a reportagem do JC em sua casa. Durante a entrevista, ensaiou passos de dança e mostrou a energia de vida daqueles que se dedicam à arte.

Jornal da Cidade - Como você começou no balé?

Dalva Maria Correa Silva - Sempre gostei muito de dançar e meu pai foi o que mais me incentivou. Ele dizia que eu ia ser bailarina porque tinha o corpo elástico. Mas sempre enfatizou que eu tinha de estudar muito. Então, comecei na Escola Municipal de Bailados, em São Paulo. Fui levada por ele.

JC - Alguém da sua família já fazia balé?

Dalva - Não, mas meu pai que era de Monte Azul Paulista, no Interior do Estado, era uma pessoa que gostava muito de artes. Então, ele influenciou todo mundo com a dança e música. Naquele tempo, não era comum uma bailarina na família. Mas meu pai sempre dizia que balé era arte e não tinha nada a ver com pessoa sem juízo. Minha mãe também gostava muito, mas foi ele que me levou pela mão para a escola de dança para fazer a matrícula.

JC - Foi a partir desse momento, quando entrou na escola de dança, que se apaixonou pelo balé?

Dalva - Eu já gostava. Naquela época não era como hoje, que você tem a mídia toda que fala sobre o assunto. Tínhamos que ir ao teatro para entrar em contato com as artes. Em todos os espetáculos de artes, eu ia. Vinha companhias européias se apresentarem na cidade e ele fazia questão de me levar.

JC - Teve algum momento da sua vida em que você deixou de praticar balé?

Dalva - Um pouco antes de me casar, parei de dançar. Naquele tempo as mulheres não trabalhavam. Sou de 1940 e não tenho receio de falar isso. Me casei e parei com minhas atividades por vontade própria.

JC - Quando você conheceu seu marido?

Dalva - Quando o conheci tinha 17 anos. Na época ele era jornalista de jornal impresso. Ele me pediu em casamento e levei um susto e tive receio por ser tão nova. Mas ele me convenceu de que seria a melhor coisa na minha vida, e foi. Quando me casei, eu mesma decidi que deveria parar. A profissão de bailarina exige muitas viagens, por exemplo, o que não dá para aliar com filhos. Eu queria ter a minha família.

JC - Quanto tempo você agüentou ficar longe do balé?

Dalva - Fiquei 10 anos parada. Nesse tempo, aprendi a cuidar da minha casa e da família. Aprendi a cozinhar e a costurar, por exemplo. O casamento foi um aprendizado porque não sabia nada. Fiz curso de culinária e costura (risos). E foi quando minhas duas filhas já tinham 8 e 6 anos que voltei.

JC - Como foi a volta?

Dalva - Fui levá-las para fazer canto coral. Encontrei com um ex-professor que trabalhava na Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Campinas e ele me incentivou. Eu comecei a pensar sobre o assunto, conversei com meu marido e ele me incentivou também. Aí, comecei a fazer aula. Até então, meu marido nunca tinha me visto dançar.

JC - E quando foi que seu marido te viu dançar pela primeira vez?

Dalva - Um bailarino famoso foi se apresentar em Campinas e o professor me encorajou a dançar com ele. Conversei com meu marido para ver o que ele pensava sobre o assunto e convidei-o para assistir um ensaio, pensando que não ia gostar. Mas, pelo contrário, ele ficou encantado. Daí para frente, passou a assistir os ensaios. Ele sempre gostou muito de música e antes de trabalhar com marketing, foi técnico de som em uma rádio de Barretos (Interior do Estado). Tanto é que temos um acervo com muitas fitas e discos de vinil em casa.

JC - Então, começou a dar aulas e retomou a dança em Campinas?

Dalva - Sim, no conservatório da Pontifícia Universidade Católica (PUC). Lá, fui a primeira bailarina por muitos anos e aproveitei muito. É muito gostoso lembrar. Depois, quando resolvemos mudar para Bauru, em 1977, pensei que fosse parar novamente. Mas isso não aconteceu. Fiquei dois meses sem trabalhar e não agüentei. Já tinha pegado o vírus do balé (risos). Uma grande amiga chamada Alcina Vitória dos Santos Silva era uma professora de balé e me convidou para dar aulas para os alunos dela. Foi quando, na época, estava inaugurando o Parque Vitória Régia. A nossa primeira apresentação foi lá.

JC - Assim surgiu o Balé Vitória Régia?

Dalva - Sim. Antes, fizemos uma votação na escola, com os pais ajudando. Isso foi entre 77 e 78. O nome ‘Vitória Régia’ ganhou. Foi a primeira escola de Bauru registrada na prefeitura, pagando Imposto Sobre Serviço (ISS). Duas pessoas me ajudaram muito em Bauru para que eu seguisse o caminho das artes. Uma delas é Angelina Messemberg, a primeira professora que teve escola de pintura na cidade. E a outra foi o professor Élcio Pupo Ribeiro, que tinha o clube Amigos da Boa Música.

JC - Você se sente uma pessoa completa?

Dalva - Sim, gosto muito da minha família e da dança. Meu marido dizia que não entendia como fiquei 10 anos longe do balé. Mas foi uma opção minha. Queria ser uma boa mãe de família. Acho que hoje as moças com toda a liberdade que têm para escolher uma profissão perderam a chance de curtir a família. Eu vejo na escola quando uma mãe tem um pouco de timidez ao dizer que são ‘só’ donas de casa. Digo para elas que são felizes e não sabem porque têm tempo para seus filhos.

JC - Na novela das oito, “Páginas da Vida”, uma personagem adolescente faz aulas de dança contrariada. Ela está, na verdade, realizando o sonho da mãe que gostaria de ser bailarina. O que é verdade e mentira na novela sobre o mundo do balé?

Dalva - Não dá muito tempo para ver a novela porque trabalho até 20h30 todos os dias. Mas, de vez em quando assisto. Primeiro, não existe aquela coisa da mãe entrar dentro da sala para assistir a aula. Isso atrapalharia a concentração. Na vida real, existe uma espécie de janelinha que a mãe pode olhar. Além disso, hoje em dia, acho muito difícil uma adolescente fazer o que a mãe quer. O que foca na novela é a neurose da mãe. Hoje, ao contrário, elas têm muita liberdade e autonomia para falar o que querem e o que não querem. Eu não conheço ninguém que faça uma coisa obrigada. Faz parte da vivência do adolescente a rebeldia.

JC - E as suas filhas? Também se interessaram pelas artes por vontade própria?

Dalva - Sim, espontaneamente. A mais nova, a Márcia (Nuriah), é bióloga, mas dá aulas de dança do ventre na mesma escola que eu. Aprendeu a dança do ventre em Israel, quando estudou lá. Quando foi para Alemanha, ganhou um concurso. Voltou ao Brasil e começou a dar aulas. A Marisa é professora doutora em literatura e leciona em Maringá, no Paraná. Na literatura que ela ensina não faltam interpretações de música.

JC - Quais as vantagens de fazer balé?

Dalva - Na parte física, a postura da bailarina é muito boa. Se praticar, a vitalidade física se mantém, é uma coisa construída. É um trabalho que a gente gosta porque a dança libera hormônios que nos fazem muito bem.

JC - Mas é necessário ter muita concentração e persistência para repetir os exercícios várias vezes, não é?

Dalva - Em primeiro lugar, para ter concentração, é preciso ficar quieto. Mas como é difícil não fazer um comentário! A língua é uma parte do corpo pequena, mas difícil de controlar (risos). Mas é preciso porque a respiração tem de ficar o tempo todo controlada para o esforço físico que vai praticar. Se não tiver disciplina, não consegue fazer o movimento. Tem que ter um corpo físico esteticamente proporcional, por exemplo, não ter pernas muito curtas ou compridas.

JC - Hoje você dança?

Dalva - Ah...hoje não mais. A minha figura já não é mais a mesma. Até uns 45 anos eu dancei. Mas, há três anos, mesmo longe dos palcos, tive uma experiência gratificante. Fui para a Argentina levar as meninas para apresentações e saímos com 17 prêmios. Na ocasião, um professor de lá me incentivou a dançar. Ele disse que eu ainda estava em forma e precisava de uma bailarina de mais de 60 anos para se apresentar na categoria Idade de Ouro. Eu topei e acabei ganhando um prêmio.

JC - O que pensa sobre o preconceito do homem dançando balé?

Dalva - Isso é geral no mundo inteiro, inclusive na Rússia. No meu ponto de vista, não é preconceito contra o bailarino, mas sim contra o homossexual. Tento me colocar no lugar de uma pessoa que tem sua preferência sexual e é condenada pelo restante da sociedade. Deve ser muito difícil. São pessoas tão boas que enfrentam uma dificuldade muito grande.

JC - Como bailarina e professora, você viajou por diversos países. Conte um pouco da sua experiência.

Dalva - Por algum tempo, dancei no balé da Escola Municipal de Bailados (em Campinas). Quando vim para Bauru, fiz questão que os meus alunos conhecessem esse lugar. Depois, fomos para o teatro de Santa Isabel, em Pernambuco. Também revolvemos dançar na Europa. Lá, eles puderam comprovar que se podia dançar também por profissão e não apenas por hobby. Lá, a profissão de bailarina existe e é bem remunerada. Fomos também para Alemanha e muitos outros países.

JC - O que o balé ensina aos praticantes e apaixonados por essa arte?

Dalva - Acho que o balé tem a parte física e artística que é muito importante. Se você aprender a dar valor para o belo, vai ser uma pessoa que não vai precisar ter muito dinheiro para ser feliz. As minhas flores do jardim, por exemplo, me deixam tão felizes. Fico tão contente quando vejo uma coisa bonita. E a arte é isso, o belo. Se você desenvolve o gosto pelo belo, tem mais chances de ser feliz com menos coisas. Você não precisa TER muito, você precisa SER muito.

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Perfil

Nome: Dalva Maria Correa Silva

Idade: 63 anos

Cidade de Nascimento: São Paulo

Marido: Joubert Campos Silva

Filhas: Marisa e Márcia

Cor preferida: Vermelho

Filme: “Aqueles que retratam uma época”

Livro: Poesia, prosa e romance

Nota 10: “Para os ensinamentos de Mahatma Gandhi”

Nota 0: Egoísmo

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