Cultura

Para bailarinos, programas de dança humanizam celebridades

Por Raquel Cozer e Laura Mattos | Folhapress
| Tempo de leitura: 2 min

André Gonçalves disfarça uma queda durante a “Dança no Gelo”, da Globo, com uma pirueta. No SBT, Sidney Magal tenta resgatar trejeitos de seus tempos de “Sandra Rosa Madalena” no “Bailando por um Sonho”. As duas cenas resultam da febre por programas de dança na TV iniciada em 2004 com o lançamento do “Strictly Come Dancing”, da inglesa BBC.

A convite da reportagem, J.C. Violla, um dos mais respeitados coreógrafos de dança de salão do país, e Inês Bogéa, bailarina e crítica de dança, avaliaram o novo programa do SBT, apresentado por Silvio Santos, e o quadro do “Domingão do Faustão”, da Globo. Ponto positivo: ao mostrar artistas consagrados dispostos a aprender - e a errar -, as atrações “humanizam” as celebridades, aproximando-as do telespectador.

Ponto negativo: seguem uma estética americanizada e desvirtuam a verdadeira dança de salão. “Os ganhadores do ‘Dança dos Famosos’ (Stepan Nercessian e o atleta Robson Caetano) não dançavam tão bem. O que motivou o público foi o visível empenho deles”, diz Violla, que chegou a ser jurado do quadro. Poucos, diz, realmente levavam jeito para a coisa. “A Babi mostrou técnica. Era graciosa.” Bogéa considera que a aproximação com o público também se dá pela compreensão de que é possível mexer o corpo sem recorrer à “malhação”. “Hoje, de forma genérica, há os corpos malhadérrimos ou a inércia total. Se aprende uma dança, você se movimenta sem exigir demais do corpo. O que se vê nesses programas é que todos podem dançar.”

Primeiro quadro do estilo no Brasil, o “Dança dos Famosos” chegou a assegurar ao Faustão mais de 40 pontos no Ibope antes de dar lugar à “Dança no Gelo”. Depois, a Record estreou seu “Dança sobre Patins”, e, na semana passada, o SBT lançou sua mistureba do original britânico com o mexicano “Bailando por un Sueño”.

Violla enxerga um “desvirtuamento” da dança de salão nesses programas. “A maioria faz quase todos os ritmos com os mesmos passos. No SBT, eles praticamente esqueceram o chachachá. Estão preocupados com uma dança-show que beira a acrobacia.” Bogéa questiona a ausência de ritmos brasileiros na estréia, na semana passada, que mostrou, além do chachachá, de origem cubana, a valsa vienense: “Se conseguissem passar pelos ritmos brasileiros, seria interessante. Poucos brasileiros têm a noção da diversidade da dança popular no país, uma das maiores do mundo”.

Outro fator a que Violla e Bogéa atentam em “Bailando por um Sonho” é que os “dançarinos” não estão lá pela dança em si. “A pessoa quer realizar um sonho, ganhar um prêmio em dinheiro. Talvez fosse interessante um programa nesse estilo com alguém cujo sonho fosse simplesmente virar um bailarino profissional”, diz Violla. A “Dança no Gelo” leva ao extremo, na opinião de ambos, a questão acrobática. “É uma coisa que nem faz sentido num país tropical. Gelo é distante. Não é algo que você veja e pense: ‘Nossa, eu poderia fazer isso’. Parece mais uma ‘Olimpíada do Faustão’”, resume Violla.

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