A maneira como o esporte é tratado (tanto pelo poder público quanto pela iniciativa privada) tem passado por mudanças consideráveis nos últimos tempos em Bauru. Se antes eram priorizadas as modalidades de alto rendimento, hoje as ações têm caráter mais social. Ao invés de formar atletas campeões, o que se busca hoje em dia é apenas oferecer oportunidades às pessoas (carentes, em especial) que desejam se dedicar a algum tipo de atividade física.
A Secretaria Municipal de Esportes e Lazer (Semel) oferece vagas em 14 diferentes modalidades, desde as mais populares, como futebol, até algumas mais difíceis de serem imaginadas, como ginástica artística ou kung fu. Os mais de 3.000 participantes dos projetos de iniciação esportiva da prefeitura têm à sua disposição uma ampla estrutura.
São nove estádios, quatro ginásios de esportes, uma academia de artes marciais, uma escola de atletismo. Tem até uma piscina pública. Os eventos também são diversos, incluindo campeonatos, caminhadas, corridas, entre outros. Um deles, o Bem Bolado, visa promover a integração entre alunos de diferentes escolinhas de futebol da cidade.
“Os projetos públicos em esporte não visam mais a competição. A intenção é formar seres humanos. Isso não exclui que a pessoa venha a se tornar atleta, caso tenha talento para isso”, diz o diretor de departamento de esportes da Semel, Marco Antônio Grassi.
A visão do diretor é apoiada por educadores de diversos projetos esportivos da Semel, só que com ressalvas. “Sei que os recursos são poucos, mas é complicado a gente não oferecer apoio para os alunos do começo ao fim”, reclama a professora Fernanda Assis, que ensina caratê na Academia de Artes Marciais do Núcleo Presidente Geisel.
Para ela, ao focar apenas a formação básica, os projetos perdem parte da capacidade de gerar interesse nas pessoas. “Fica uma coisa sem sentido. A pessoa se esforça, treina bastante, mas sabe que dificilmente se tornará profissional”, diz.
Por outro lado, ela reconhece os lados positivos das mudanças ocorridas na Semel. “O município tem outras prioridades. Não é certo que a prefeitura tenha de bancar sozinha os atletas de competição. O ideal seria que as empresas dessem esse apoio”, diz Assis.
O local onde ela trabalha é a único da cidade que oferece cursos de artes marciais. Alguns dos freqüentadores da academia vêm de regiões distantes da cidade. Giovanni Uema de Alcântara, 9 anos, mora no Gasparini e tem de atravessar a cidade todos os dias para poder participar do treinos de judô no Núcleo Geisel.
Apesar de grande, a distância entre a casa e a academia não é difícil de ser percorrida, já que Ana Lúcia, mãe de Giovanni, tem um carro, podendo fazer o percurso em cerca de 15 minutos. Os que não têm a mesma sorte precisam recorrer a Organizações Não-Governamentais (ONGs) ou outros tipos de auxílio para poder praticar algum tipo de esporte.
No Jardim Ferraz, por exemplo, 50 garotos têm aulas gratuitas de jiu-jtsu. A iniciativa não recebe apoio do poder público ou da iniciativa privada, por isso os alunos são obrigados a treinar no quintal da residência do instrutor, João Campos.
Mas há situações mais difíceis: no Parque Santa Edwirges, por exemplo, além de faltar projetos da prefeitura, não existem ações realizadas pela comunidade. A solução, então, é apelar para as ruas de terra e ‘agradecer’ pela presença dos inúmeros buracos que dificultam os carros de circularem.
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Bem Bolado
Integrar crianças de diferentes regiões da Bauru por meio do esporte. A idéia, ao mesmo tempo simples e ambiciosa, vem sendo desenvolvida pela Secretaria Municipal de Esportes e Lazer (Semel) com alunos de escolinhas de futebol da cidade.
Marco Antônio Grassi, diretor do departamento de esportes da secretaria, é um dos idealizadores do projeto. “Um ônibus passa de manhã em um determinado ponto da cidade e recolhe 22 alunos. Em seguida, vai para um segundo local e pega mais 22 garotos”, explica ele. No final todos são levados para uma terceiro lugar, onde as atividades de integração passam a ser desenvolvidas.
“Antes de os jogos começarem, os alunos têm de realizar trabalhos nos quais são obrigados a se conhecer”, diz Grassi. Os instrutores propõem jogos aos alunos, por exemplo, nos quais eles têm de formar grupos com oito ou nove integrantes. “Só que eles não podem se reunir apenas com meninos das comunidades em que vivem. Uma das exigências é que eles escolham pessoas de outros lugares”, diz ele.
Depois das preleções e do aquecimento, quando já estão bem entrosados, os garotos são divididos em times e disputam partidas com 30 minutos de duração. “Os times também são compostos por atletas de três escolinhas, e isso permite que eles façam amizade entre si. Essa cumplicidade vai impedir que eles venham a brigar quando estiverem mais velhos”, acredita Grassi.
Na última quarta-feira, garotos do Parque Bela Vista tiveram oportunidade de receber alunos das escolinhas de futebol do Jardim Redentor e do Núcleo Mary Dota. Apesar de evento exaltar a amizade, os jogos contaram com alguns momentos de exaltação. Em uma das partidas, era claro o aborrecimento de alguns garotos com o árbitro, que teria validado um gol irregular.
“Juiz ‘canetão’, não viu que o cara estava impedido?”, reclamava um deles, por sinal, o mais exaltado de todos. Como havia faltado a dois treinos, ele não pôde participar do evento. “Comigo é assim: quem não tem disciplina não pode participar de jogo. Essa é a única maneira deles aprenderem o certo e o errado”, disse Marcos de Queiroz, instrutor da escolinha de futebol da Bela Vista.
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Distância
Algumas atividades físicas são difíceis de ser praticadas, devido à técnica que exigem dos atletas. Em Bauru, quem deseja praticar esportes como ginástica artística, natação, basquete, atletismo ou artes marciais encontra nas distâncias dos locais de treinos uma complicação ainda maior.
A ginástica artística é um exemplo clássico. No passado a cidade chegou a contar com três locais de treinamento: um no Centro, na avenida Nuno de Assis; outro na Bela Vista e um terceiro, na Vila Industrial.
“Mas a prefeitura foi desativando um após outro e acabou sobrando apenas este aqui”, reclama João Paulo Martinelli, instrutor que trabalha no ginásio da Vila Industrial. Ele lembra que dos três locais de treinamento, o do Centro era o que recebia mais alunos. “É uma área mais acessível da cidade”.
Com a desativação, nem todos os alunos mostraram-se dispostos a se deslocar até a Vila Industrial para freqüentar as aulas de ginástica. “Muitos pais não tinham condições de trazer os filhos, e também não deixavam que eles viessem sozinhos. Por isso, grande parte desistiu”, diz.