Na alameda Tróia - rua sem asfalto situada no Parque Santa Edwirges (zona noroeste de Bauru) -, longe do agito dos automóveis que circulam pelo Centro da cidade, o futebol corre solto entre os garotos da vizinhança. Para que a pelada ocorra, basta que Renan Badini, 12 anos, e Mateus Henrique Fernandes, 7 anos, fiquem chutando uma bola de borracha durante algum tempo.
De repente surgem outros três garotos, em seguida mais dois, e pronto, os “atletas” já têm condições de se separar em dois times e usar o pequeno campo de terra batida localizado logo em frente. Todos atuam na linha, já que seria até injusto colocar um goleiro sob as duas pequenas traves de 40 centímetros de altura por 50 de largura.
O campo tem pouco mais de 20 metros de comprimento por 15 de largura, medidas bastante inferiores às oficiais. Se bem que as regras do futebol convencional também não prevêem a realização de partidas com equipes formadas por apenas quatro jogadores.
Liberal nos regulamentos, o futebol da rua Tróia também mostra seu lado democrático na composição das equipes, reunindo tanto atletas experientes quanto novatos. Se Mateus é tão jovem que mal sabe informar com precisão a própria idade, Adenilson Clementino, em contrapartida, já atua em campeonatos de futebol amador da cidade há vários anos.
Ele freqüenta o campinho desde que se mudou para a rua Tróia. “Já faz 13 anos que venho aqui.” Tantos anos de atividade conferem a Clementino, 23 anos, certas artimanhas que os mais jovens desconhecem. Menos maliciosos, garotos como Renan ou Mateus têm dificuldade em roubar-lhe a bola.
Tamanha disparidade pode até parecer covardia para alguns, mas para os jogadores da rua Tróia é algo extremamente comum. “A gente não pode dar moleza para a molecada, senão eles não aprendem a jogar”, diz Clementino ao final da partida. Os garotos parecem concordar com ele, do contrário não fariam tanta questão de que os mais velhos tomassem parte em suas peladas.
Por simples que possa parecer, o futebol da rua Tróia tem seus momentos de rara beleza. Em um lance da partida, Clementino conseguiu se livrar de três marcadores e chegar até a cara do gol. Para sua infelicidade, a pelota resolveu ser caprichosa e passar rente à trave, só que pelo lado de fora.
Para piorar, o time adversário conseguiu armar rápido contra-ataque na seqüência. Sem marcação, Roberto Laurentino, 19 anos, recebeu lançamento longo da defesa e teve apenas o trabalho de empurrar a bola para o fundo do gol.
O time de Clementino ainda conseguiu empatar, mas a alegria durou pouco, já que minutos depois a equipe de Laurentino voltou a ficar em vantagem. O placar acabou permanecendo assim até o final, apesar de todo empenho demonstrado pelos dois lados durante a disputa.
Em geral, as partidas no campinho ocorrem à noite (das 17h às 20h) e têm duração de dez minutos. “Tem dias que a gente joga no escuro”, diz Laurentino. As dimensões reduzidas não impedem que o futebol da rua Tróia tenha datas de maior efervescência. Pelo menos uma vez por ano, moradores do bairro costumam realizar campeonatos que reúnem equipes de diferentes regiões da cidade.
“Vêm times até da Bela Vista e do Jaraguá. A gente cobra R$ 1,00 de cada jogador para poder comprar o prêmio: caixa de guaraná, troféu, medalha, e assim por diante”, diz Laurentino. Segundo ele, a última edição, ocorrida ano passado, reuniu dez equipes. “Durou dois dias. Começou às 6h do sábado e foi decidido apenas no domingo à tarde.”
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Fanatismo
Os campeonatos amadores de Bauru são prova de que a paixão no futebol não é movida apenas por grandes estrelas. Em geral, os atletas que participam dos torneios são desconhecidos do público e nem de longe possuem fama comparável à dos “Ronaldinhos”, por exemplo.
A ausência de craques não diminui o ímpeto da torcida. Por participarem do dia-a-dia dos clubes, fãs dos times amadores são capazes de mostrar mais dedicação a suas equipes do que torcedores de grandes clubes.
Daniel Jerônimo Conversani, 23 anos, acompanha o Cometa Azul (time do Parque Bela Vista, que disputa a Liga Regional de Futebol de Bauru - LRFB) desde que a agremiação foi fundada, em 1994. Ele atualmente é diretor do clube, onde atua como uma espécie de “faz-tudo”: “contrata” jogadores, organiza churrascos, ajuda a comprar cerveja para depois dos jogos.
“Essas coisas são importantes por que servem de motivação para os atletas”, diz Conversani. Ele também vende rifas, cujas rendas são revertidas em benefício do time. “Este ano sorteamos dois DVDs.”
Torcedor fanático, Conversani sente-se privilegiado por poder participar ativamente da realidade do Cometa Azul. Orgulho semelhante é cultivado por Sidney Queiroz de Andrade, 49 anos, vice-presidente do clube. “Parece que a gente ganha mais status por estar na diretoria do time. Onde a gente vai as pessoas reconhecem nosso trabalho”, diz.
Tanto carinho tem preço, que costuma ser cobrado nas ocasiões em que o time perde. “Quando isso acontece, fica um gosto de cerveja amarga na boca da gente”, diz Conversani. Ele também torce pelo Corinthians, que atualmente luta para não cair para a Série B do Campeonato Brasileiro.
“Se o Cometa estivesse numa situação semelhante, seria infinitamente mais constrangedor para mim, pois é uma realidade que acompanho diariamente”, afirma.
José Teixeira da Luz, outro corinthiano, sofre mais pelo Parquinho (clube do Parque Vista Alegre, que também atual na LRFB) do que pelo time do Parque São Jorge. “Se o Corinthians perder, desligo a TV e vou dormir. Com o Parquinho é diferente: sou amigo de presidente, diretores, jogadores, esposas e até mães de atletas”, diz.