Encontrar jovens e crianças usando a rua como lugar de diversão ou de prática esportiva é algo comum tanto nas periferias de Bauru quanto em áreas pobres de grande metrópoles, como São Paulo. O professor de educação física Jorge Hideo Tokuyochi pesquisou 19 garotos de Campo Limpo, zona sul da Capital, em pesquisa para dissertação de mestrado apresentada na Escola de Educação Física e Esporte (EEFE) da Universidade de São Paulo (USP).
Ele acompanhou o dia-a-dia de um beco sem saída do bairro, onde costumam ser realizadas partidas de futebol todas as noites, há pelo menos 20 anos. “Lembrei de minha própria infância, quando costumávamos usar a rua como local de lazer”, diz.
Marcos de Queiroz, 46 anos, ex-jogador do Noroeste, sabe bem do que Tokuyochi está falando. Ele morava na Vila Prudente, bairro pobre situado na zona leste de São Paulo. “No meu tempo a molecada não tinha escolinha de futebol para treinar. A gente aprendia a jogar no ‘terrão’, com bola de meia”, recorda.
Segundo Tokuyochi, as mudanças no espaço urbano fizeram com que as ruas deixassem de ser vistas como lugares de lazer. “As regiões centrais das cidades tornaram-se locais de carros, não de diversão.” De acordo com a pesquisa realizada por ele, nas periferias as ruas ainda possuem um forte papel de integração social.
“As relações de vizinhança constróem-se em grande parte nas ruas, através de atividades como o futebol, por exemplo”, explica ele. O professor diz ter ficado surpreso pelo fato de a maior parte das partidas serem realizadas à noite. “Como aquela é uma região da cidade se São Paulo considerada violenta, pensei que as pessoas não tivessem costume de sair de casa no período noturno”, lembra.
De acordo com Tokuyochi, a mobilização em torno das partidas de futebol cria uma espécie de rede de proteção em torno da vizinhança. “Como as ruas estão sempre cheias de pessoas, a sensação de segurança para os moradores acaba sendo maior”, afirma.
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Comunitário
Entre os esportes praticados em Bauru, a malha é, na opinião dos praticantes, um dos que mais tem cara de “povão”. “Os jogadores são pessoas comuns, gente como a gente”, diz Delfino Del Rey Júnior, presidente da Liga Bauruense de Malha (LBM), fundada em março de 2001.
Ele próprio, que já conquistou sete Jogos Regionais na categoria, ganha a vida como eletricista. O vice-presidente da LBM, Ivanildo Cardoso da Silva, também tem uma profissão das mais comuns. Ele é mecânico de tecelagem e joga malha há dez anos. Segundo estimativas dos dois dirigentes, Bauru tem hoje 890 atletas que se dedicam ao esporte.
“É gente de todo tipo, profissão e idade. Tem desde garotos até senhores de 80 anos”, diz Delfino. Seis clubes bauruenses dedicam-se atualmente à malha. Delfino e Ivanildo, por exemplo, defendem o Clube de Malha do Gasparini.
Eles e outros membros da equipe estão reformando a pista onde são realizados os jogos de malha. “Cada um ajuda como pode. O pessoal se reúne todas as noites e trabalha um pouquinho para adiantar a obra”, diz Ivanildo, evidenciando o caráter comunitário do esporte.