A lei número 9.608, de 18 de fevereiro de 1998, classifica como trabalho voluntário a atividade não remunerada prestada por pessoa física a entidades públicas ou instituições privadas que tenham objetivos cívicos, culturais, educacionais, científicos, recreativos ou de assistência social, inclusive a mutualidade. Na prática, o voluntário doa parte do seu tempo e talento para trabalhar em benefício ao próximo, buscando a inclusão social e melhores condições de vida da comunidade.
Mas, para ser eficaz, a ação voluntária exige compromisso e assiduidade das pessoas que se propõem a participar de causas em benefício aos necessitados, afirma o agente fiscal de renda Uriel de Almeida, 53 anos, sendo 34 deles dedicados ao voluntariado.
“Quando se começa a trabalhar em um projeto, o voluntário desperta o interesse nos assistidos, os quais em grande parte das vezes encontram-se em uma situação de baixa auto-estima e exclusão. Se o voluntário não perseverar no projeto, transmite a mensagem de que os atendidos não são muito importantes. Por uma questão de respeito com a comunidade, o voluntário precisa ter envolvimento com o trabalho”, avalia.
Vice-presidente da Associação das Entidades de Assistência e Promoção Social em Bauru, órgão que reúne 80 entidades, Uriel é fundador do Irmã Sheila, grupo vinculado ao Centro Espírita Amor e Caridade, contando com 400 voluntários atuando na assistência a pacientes e acompanhantes dos hospitais públicos da cidade. Para ele, os pilares para estimular o comprometimento do voluntário se baseiam no treinamento e motivação constantes da equipe, o que deve ser feito pelas entidades por meio de programas de reciclagem, conscientização sobre a realidade da comunidade atendida e orientação sobre os objetivos do projeto.
O exercício do voluntariado e o papel do voluntário na sociedade, entre outros assuntos, pautaram a entrevista a seguir. Confira os melhores trechos.
Jornal da Cidade - O que é voluntário? Uriel de Almeida – É a pessoa que tem uma predisposição natural para trabalhar em benefício do próximo, independentemente da religião. É uma qualidade pessoal. Basta despertar esta tendência no indivíduo e encaminhá-lo, que ele fará um bom trabalho.
JC - Quem pode ser voluntário? Uriel – Não existe idade para ser voluntário. Hoje, no Brasil, esta questão está muito avançada. A partir dos 16 anos o adolescente já tem responsabilidade, pode votar e desempenhar trabalhos voluntários. O voluntariado também pode ser realizado pelo idoso, que passou por diversas situações e tem muita experiência.
JC - Qual é o perfil do voluntário no Brasil? Uriel – O voluntário no Brasil se concentra mais na fase adulta, quando a pessoa tem mais tempo para se dedicar ao voluntariado. O poder aquisitivo, a renda per capita e a própria questão de sobrevivência dos brasileiros são diferentes de cidadãos de outros países, como os americanos, que doam mais nas campanhas e investem nos trabalhos das Organizações Não-Governamentais (ONGs). No Brasil isto ainda ocorre de forma tímida. Além disto, nos Estados Unidos, o número de voluntários na faixa etária jovem é maior do que no Brasil. Neste contexto, porém, é importante destacar a importância de Betinho, que foi um marco na questão do voluntariado, popularizando e desmitificando o trabalho do voluntário.
JC – E como o senhor avalia a questão do voluntariado em Bauru? Uriel - Em Bauru, todas as entidades filantrópicas ligadas às mais diversas religiões convivem muito bem e trabalham em rede. É uma evolução. É importante destacar os investimentos significativos do poder público às ONGs. Isto representa o reconhecimento do poder público municipal e estadual na capacidade do trabalho das entidades. Atualmente existem em Bauru 80 ONGs. Tirando a Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) e o Centro Espírita Amor e Caridade, que têm uma quantidade grande de voluntários, as demais entidades têm em média 100 voluntários cada uma. No total, são cerca de 10 mil voluntários em Bauru.
JC – Este número é significativo? Uriel – É pouco se pensarmos na quantidade de habitantes de Bauru, mas é significativo em relação a outras cidades. Se por um lado podemos comemorar a existência de 80 entidades, por outro deveríamos lamentar que haja esta necessidade. O ideal é que não houvesse nenhuma entidade filantrópica e nenhum serviço voluntário em benefício do próximo, mas sim que o poder publico criasse políticas para que ninguém dependesse do trabalho do outro.
JC - Por que as pessoas se tornam voluntárias? Uriel – Os jovens se tornam voluntários devido ao estímulo das escolas, que desde a infância incentivam a cidadania. Por isto, muitas vezes, eles são levados ao trabalho voluntário porque têm consciência de que são agentes motivadores das transformações sociais. Já para grande parte dos idosos, a procura pelo voluntariado se deve à concepção religiosa. Há pessoas que chegam ao trabalho voluntário pelo amor, conscientização e característica pessoal. Outras, pela dor.
JC - De que forma? Uriel – A proposta das entidades filantrópicas ligadas a segmentos religiosos é a que está no Evangelho, ou seja, a de que trabalhar em benefício do próximo levará a pessoa a uma situação espiritual melhor. Por isto, muitos indivíduos que não estão bem ou vivenciam uma situação difícil, como a perda de um filho, doença ou depressão, procuram pelo trabalho voluntário. Estas pessoas, porém, precisam ser encaminhadas e motivadas de maneira certa porque estão frágeis e a entidade precisa ter a sensibilidade para lidar com elas.
JC – Como manter o voluntário motivado? Uriel - Não basta recrutar e treinar pessoas, mas mantê-las preparadas. É necessário manter programas regulares de reciclagem e prestar contas ao voluntário, mostrando para ele os objetivos alcançados com seu trabalho e, desta forma, reforçar que sua participação é importante. É a mesma coisa que ocorre com um time de futebol . Não adianta ter bons jogadores se eles não formarem uma boa equipe. No voluntariado, de nada vale ter bons voluntários individualmente se eles não conseguem trabalhar em equipe. Por isto, as diretorias das entidades devem ter esta percepção e estarem preparadas para treinar e manter seus voluntários motivados, mostrando qual é o problema e os objetivos do projeto, explicando que a transformação não acontece da noite para o dia. Na maior parte das vezes, o voluntário trabalha em um meio onde os costumes, hábitos e a realidade social são diferentes da sua e não tem o direito de exigir dos assistidos o que eles não podem dar. Se a entidade não mostrar isto para o voluntário, ele pode se desmotivar e abandonar o projeto.
JC - Um grande número de pessoas querem ser voluntárias, mas não sabe como. Por onde começar? Uriel – Em primeiro lugar, elas devem identificar em qual segmento gostariam de trabalhar. Se não obterem esta resposta, podem procurar uma entidade mais próxima ou que tenham mais afinidade. O importante é que o voluntário seja assíduo e esteja envolvido com o projeto. O grupo Irmã Sheila, por exemplo, trabalha em hospitais, onde pessoas nascem e também morrem todos os dias. E isto requer um treinamento específico e uma avaliação para verificar se o candidato a voluntário tem condições psicológicas para trabalhar naquele serviço. Em caso negativo, a entidade irá aconselhá-lo a trabalhar em outra área, como creches, albergues ou núcleos de assistência na periferia. Mas sempre há uma chance para o voluntário trabalhar em benefício do próximo.
JC – O voluntariado pode ser estimulado desde a infância? De que forma? Uriel – Sim. Hoje, em Bauru, existem trabalhos importantes desenvolvidos por ONGs, entidades, escolas e projetos. Neles, as crianças e adolescentes são orientados sobre seus direitos e obrigações, sobre o papel que eles desempenham na sociedade e como podem transformar. Mas ainda é preciso incentivar o voluntariado no meio universitário, que tem uma capacidade de trabalho grande e, se houvesse maior atuação neste setor, seria possível alcançar resultados mais significativos.
JC – O altruísmo faz bem à saúde? Uriel - Sim. Ficou provado pela Organização das Nações Unidas (ONU) no Ano Internacional do Voluntariado que o trabalho em benefício do próximo ativa o sistema imunológico das pessoas e regula o metabolismo. Além disto, foi feito um estudo comparando o exame de sangue de um grupo de voluntários e de não voluntários. No primeiro caso, foi detectada uma substância que provoca prazer e relaxamento. Isto sem contar que a partir do momento que o indivíduo faz algo em benefício ao próximo, este, inconscientemente, responde vibrando boas energias. Desta forma, o voluntário também recebe ajuda. É um mecanismo de troca.
JC – Como as empresas podem colaborar nas ações voluntárias? Uriel – Hoje a responsabilidade social está crescendo porque os empresários perceberam, por meio de estudos técnicos, que o funcionário envolvido no trabalho voluntário ou em alguma atividade comunitária é diferente dos outros e, naturalmente, consegue trabalhar em equipe dentro da empresa. Ao participarem de algum projeto, os funcionários têm maior sensação de bem-estar e podem produzir mais. Além disto, o trabalho voluntário também conta pontos no currículo do candidato.
JC – De que maneira a tecnologia, como a Internet e os recursos de comunicação, pode contribuir para o exercício do voluntariado? Uriel – Não consigo imaginar as pessoas vivendo sem computador e Internet. Profissionalmente não é possível, e no trabalho em benefício ao próximo também não. Está muito simples conseguir informações hoje e tudo o que se precisa pode ser encontrado na Internet. Se a pessoa quer saber a situação social em Bauru, basta pesquisar o último censo e localizar os bolsões de pobreza da cidade, por exemplo. Além disto, muitas atividades em benefício ao próximo desenvolvidos pelas entidades envolvem o ensino da informática e Internet porque é preciso acompanhar a evolução dos tempos. E promover o acesso à Internet ao adolescente ajuda a tirá-lo da exclusão.