Articulistas

Elipse do verbo, vírgula no poder


| Tempo de leitura: 4 min

Lição de língua portuguesa: quando se omite no texto um verbo que foi utilizado anteriormente (elipse do verbo), deve-se colocar, na posição onde o verbo estaria, uma vírgula, como que para obrigar o leitor a fazer uma pausa para lembrar que ali existe uma ação que está sendo omitida. Verbo em latim significa palavra; ação, portanto. Encerrada a apuração das eleições presidenciais, e re-eleito o sr.Luiz Ignácio Lula da Silva, fica a sensação de que a ação vai se repetir. Necessário, portanto, colocar uma vírgula para que possamos parar e avaliar que verbo-ação é esse que vai se repetir.

A estratigrafia do eleitorado não deixa dúvidas: o voto da população mais humilde deu a vitória ao presidente. Um quadro diferente daquele que o elegeu em 2.002, quando uma parcela significativa da população financeira e intelectualmente mais privilegiada também contribuiu para sua eleição, enquanto boa parte da população menos abastada ainda temia as conseqüências de ver um dos seus no posto máximo do poder. Há quem diga, e eu também, que o povo brasileiro nunca se preocupou em eleger um administrador honesto, experiente e competente, mas sim um “pai” que fosse um provedor, que o sustentasse e amparasse em suas necessidades e seus problemas. Exemplo disso, aqui mesmo em Bauru, foi o “asfalto de graça” que ganhou eleição. Por buscar um “pai”, acabava por eleger sempre um cidadão bem sucedido, rico, poderoso, sempre da classe social bem superior. Afinal, já que pode escolher, quem vai querer para pai um sujeito humilde, de pouco sucesso na vida? Poderia, então, parecer estranho que Lula tenha sido re-eleito com ampla margem, justamente por essa população humilde. Acontece que o raciocínio que fiz acima não é segredo nenhum, o re-eleito o conhecia há muito tempo e tratou de transformar-se no novo “pai dos pobres”, através dos programas sociais como o Bolsa Família. Programas de distribuição de renda são intrinsecamente bons, se executados com sensatez, controle e bom planejamento. Afinal, já faz décadas que um ministro disse que seria necessário esperar o bolo crescer para depois reparti-lo, e o Brasil continuou sendo um país de miseráveis. Seu uso eleitoreiro é abominável. Pois bem, vamos colocar uma vírgula nessa oração, para lembrar que, passada a eleição, a ação continua, e o verbo é o mesmo: governar. Após quatro anos colocando a parcela mais significativa da verba de investimentos do governo nos programas sociais, parece que a conseqüência maior, alem da re-eleição, foi a criação de um contingente de desempregados ou sub-empregados conformados em sobreviver com esse pouco que recebe do governo. Não trabalham, portanto, não produzem. Fechando o círculo, não sobrou dinheiro para o governo investir na infra-estrutura do país, de modo a fomentar o desenvolvimento econômico. Conseqüência: crescimento do PIB superior apenas ao do Haiti, no continente americano.

Fosse o Brasil um país europeu como a Suécia, onde a população não cresce há muito tempo, poder-se-ia dizer que atingimos um ponto de equilíbrio: o povo humilde está satisfeito com a nova “distribuição de renda” e as classes abastadas estão conformadas com a alta carga tributária que paga essa distribuição. E estão todos felizes. Mas não é assim. A população brasileira cresce bastante todo ano, e, pior, cresce nas classes desprivilegiadas em ritmo muito maior que o pouco mais de três por cento que o PIB crescerá este ano.

O governo Lula, criou, portanto, mais uma bomba-relógio (já havia a da Previdência) para explodir em seu colo, no segundo mandato: a classe produtiva não vai mais aceitar aumento de tributação e milhares de novas bocas vão nascer a cada dia para serem alimentadas pelos programas sociais. Eis, portanto, o dilema, senhor presidente re-eleito: é necessário investir para aumentar a atividade produtiva e gerar empregos para os pais dessas novas bocas. É necessário qualificar a população de desempregados hoje amparados pelo governo, e convencê-la a trabalhar. Ao mesmo tempo, não vai dar para parar os programas sociais, que vão se tornar direito adquirido e demandar cada vez mais verba. Equação difícil, não é? Quem mandou querer ser reeleito? Para aqueles que não votaram no Lula, um consolo. O Lula pelo menos tem sido moderado em muitos aspectos, e, quer coagido quer espontaneamente, tem respeitado a existência da democracia e do estado de direito. Poderia ser pior, em vez de Lula, o nome poderia ser Chaves, Fidel ou Evo.

O autor, Eric-Édir Fabris, é engenheiro civil

Comentários

Comentários