Ciências

Brasileiros ajudam no genoma da abelha

Por Eduardo Geraque | Folhapress
| Tempo de leitura: 4 min

O estudo do comportamento social de insetos ainda vai dar muito trabalho e gerar muita pesquisa científica. O seqüenciamento do genoma da abelha (Apis mellifera), publicado na revista “Nature”, de um lado revela a complexidade peculiar da espécie. De outro, fornece evidências contrárias ao determinismo biológico.

“A idéia inicial do grupo até era saber se havia um gene ligado à organização social das abelhas. O resultado, entretanto, mostra que não existe um gene altruísta”, diz Klaus Hartfelder, professor da Faculdade de Medicina da (USP) de Ribeirão Preto. O cientista e cinco outros brasileiros participaram do consórcio internacional que seqüenciou (“soletrou”) nos EUA os 236 milhões de pares de bases (“letras” químicas do DNA) da abelha, distribuídos em 11,5 mil genes.

Essa é a terceira vez que os cientistas publicam a lista dos genes de um inseto (os outros dois foram a mosca drosófila e o mosquito da malária Anopheles gambiae) e a primeira de um inseto com laços sociais. As abelhas se dividem em castas -operárias e rainhas - e possuem uma complexa divisão de tarefas na colônia.

A observação dessa estrutura social e seu comportamento foi crucial para o surgimento da sociobiologia, disciplina que tenta explicar o comportamento humano por meio da genética. Um dos fundadores da sociobiologia, Edward Wilson, da Universidade Harvard, comenta a nova pesquisa na mesma edição da “Nature”.

Para Wilson, o trabalho abre “muitas perspectivas para o estudo do desenvolvimento evolutivo e para a sociobiologia”. Afinal de contas, toda a complexidade já conhecida das abelhas está presente no genoma, como mostram estudos complementares publicados na semana passada na revista “Science” e na “Genome Research”.

As abelhas, por exemplo, apresentam muitos genes envolvidos com a produção da geléia real, usada na alimentação das larvas. Como também existem muitos genes relacionados com o funcionamento dos receptores para odores - relacionados à comunicação e à famosa “dança” das abelhas.

Também se descobriu que o relógio biológico das abelhas é mais parecido com o dos mamíferos que com o de outros insetos. “O caminho de pensamento que deve ser seguido a partir de agora é o das redes gênicas”, explica Hartfelder. Para ele, o que explica o surgimento das castas entre as abelhas é a interação que existe entre os genes.

“A questão é gradativa. Em uma das castas, determinados grupos de genes são mais expressos que em outros. A divergência de fenótipos (variedade de tipos físicos) decorrente desse processo é muito importante para entender o desenvolvimento social em geral”, diz o pesquisador da USP, que em seu laboratório no interior paulista trabalhou com um grupo de 51 genes da abelha.

Os trabalhos sobre os genes da Apis mellifera mostram uma outra tendência da era pós-genômica. Em grande parte dos casos, o seqüenciamento de genes por si só não acrescenta mais nada para a ciência. Ele sempre vem atrelado a outras informações, bem mais essenciais. “Hoje o que se faz é o genoma funcional. Mas é claro que a lista de genes é uma ferramenta bastante valiosa e fundamental para poder dar os próximos passos.”

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Ancestral africano

O ano é 1956. Após ganhar um prêmio em dinheiro, o geneticista brasileiro Warwick Kerr resolveu que viajaria à África para estudar abelhas. Por um pedido do governo de Juscelino Kubitschek de Oliveira, ele deveria trazer um carregamento de insetos na sua viagem de volta. “Os fazendeiros de Goiás estavam interessados na abelha africana por causa da produção de mel, então eles me pediram para trazê-las”, lembra-se Kerr, hoje professor da Universidade Federal de Uberlândia.

A viagem marcaria a introdução de uma nova subespécie no país. Na volta, por problemas logísticos, os insetos trazidos da África -na viagem o geneticista passou por Angola, Moçambique e África do Sul principalmente -, não puderam ficar na Universidade Federal do Rio de Janeiro. “Eles foram colocados em uma mata, a 20 quilômetros de Rio Claro (SP). E, por um descuido meu, 19 abelhas, das 44 que estavam lá, enxamearam (procriaram)”, diz Kerr. Em um único vôo nupcial, uma fêmea é fecundada por 18 machos. E foi o que ocorreu.

“A espécie trazida da África cruzou com machos da mesma espécie, mas que haviam sido trazidos da Europa”, explica Kerr. A prole oriunda desse vôo mostrou um comportamento bem mais agressivo. Por causa disso, ela recebeu o apelido de assassina. Alguns anos depois, essa variedade se espalhou pelo resto das Américas -eliminando daqui a A. mellifera pura.

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