Nacional

Governo limita vôos e chama aposentados

Por Iuri Dantas | Folhapress
| Tempo de leitura: 3 min

Brasília - A operação padrão deflagrada pelos controladores de tráfego aéreo em Brasília - que provoca atrasos e suspensão de vôos no País - forçou o governo a tomar duas medidas ontem: a Aeronáutica suspendeu o vôo de aviões não-regulares, como jatinhos e particulares, nos horários de pico em parte do País e o ministro da Defesa, Waldir Pires, decidiu “convidar” controladores aposentados a auxiliar nos radares.

O movimento, iniciado na semana passada, continuou ontem: no final da tarde, oito aeroportos do País tiveram atrasos de mais de duas horas nos pousos e decolagens.

O caos nos aeroportos promete ser maior amanhã, véspera de feriado e alvo de protesto generalizado dos controladores de tráfego aéreo por mais segurança. Para tentar minimizar a crise, a Aeronáutica elaborou uma Notam (Notice to Airmen, algo como aviso aos pilotos). Distribuída ontem às empresas de táxi-aéreo, o documento proíbe o vôo de aeronaves não-regulares das 7h30 às 12h e das 17h às 20h. Vôos charter (fretados) serão analisados caso a caso. A medida até 28 de novembro.

A interdição se refere ao espaço aéreo compreendido por parte de São Paulo, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Rio e Espírito Santo. Durante o dia, porém, os atrasos em Brasília indicavam que a medida não surtiu efeito.

A Aeronáutica tampouco sabia informar quantos vôos deixaram de ser feitos depois da proibição dada pela Notam. No final da tarde, os aeroportos de São Paulo, Rio de Janeiro, Vitória, Belo Horizonte entraram em “rodízio” nas decolagens, causando novos atrasos. E provocando nova reação do governo.

Pires e o comandante da Aeronáutica, Luiz Carlos Bueno, discutiram novas medidas com a Infraero e Anac. Decidiram convidar controladores da reserva. Eles ajudariam na operação do radar em Brasília, uma vez que o processo de formação de um controlador é longo, cerca de quatro anos.

Em entrevista, Pires disse que os aposentados seriam remunerados pelo serviço, mas não deu detalhes. A Associação Brasileira de Aviação Geral (Abag) considerou a Notam um golpe na indústria. “Seria melhor informarem logo que decidiram politicamente acabar com a aviação executiva”, disse Adalberto Febeliano, vice-presidente executivo da entidade.

Só a TAM Marília Táxi Aéreo estimou prejuízo mensal de R$ 1,5 milhão com a medida. O Brasil tem a segunda maior frota de jatos executivos do mundo.

A crise no setor de aviação ocorre um mês após a maior tragédia da aviação brasileira, quando 154 pessoas morreram na queda de um Boeing-737/800 da Gol. A aeronave colidiu com um jato executivo da Embraer, antes de cair. Uma das hipóteses investigadas é de falha dos controladores de vôo.

A delicada situação do controle de tráfego aéreo adquiriu contornos mais fortes na semana passada, quando os operadores de radar resolveram elevar a distância entre os aviões e reduziram o número de aeronaves vigiadas por controladores, para evitar acidentes.

Por conta disso, os ministros Dilma Rousseff (Casa Civil) e Pires reuniram-se com a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), Infraero (estatal que administra os aeroportos) e com o Comando da Aeronáutica para traçar soluções. No encontro, o diagnóstico do governo indicava excessiva presença de pequenos aviões pousando e decolando de Brasília, o que exigia atrasos de outros vôos para não prejudicar a monitoração por radar.

Pelas normas internacionais, cada controlador deve vigiar 14 vôos nos centros de controle (que vigiam o vôo no meio das rotas) e cinco no controle terminal (quando o avião está a cerca de 100 quilômetros do aeroporto). Além do protesto dos operadores, o governo avalia que o problema nos aeroportos se deve a uma conjunção de fatores.

O afastamento dos operadores que estavam trabalhando em Brasília no dia do acidente da Gol, o excesso de pequenos aviões e problemas pontuais nos equipamentos. Ontem, seis outros controladores iniciaram em Brasília o período de adaptação ao radar e devem assumir as funções nos próximos dias.

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