Diversidade. Do rock-mangue-pop do Monbojó ao suingue do combo Thievery Corporation, o Tom Brasil Nações Unidas, em São Paulo, recebeu a noite de atrações mais heterogêneas do TIM Festival, anteontem. Cerca de 4 mil pessoas lotaram a casa e provavelmente assistiram ao espetáculo musical do ano.
Catarse. Não há outra palavra para definir o ponto alto e unanimidade da noite pop do TIM Festival de São Paulo. Os “robôs” franceses do Daft Punk trouxeram toneladas de equipamentos - provavelmente vindas do futuro ou de onde quer que eles sejam - em sua primeira turnê em quase dez anos. A cada intervalo dos shows, quando a cortina preta no palco subia e deixava aparecer parte da pirâmide de onde a dupla eletrônica comanda seu espetáculo, o público já demonstrava: a expectativa era alta.
Coube à banda Monbojó abrir o domingo, já com quase meia casa de público. Em pouco mais de 40 minutos, os pernambucanos com jeito de meninos indie apresentaram músicas de seus dois discos, “Nadadenovo” e “Homem-Espuma”. Com som perfeito - o que se seguiu pela noite toda, grande avanço ao TIM Festival do ano passado, no Anhembi -, o grupo parecia em casa, acompanhado em todas as músicas pelos fãs que se aglomeravam em frente ao palco. Entre outras, eles tocaram “Convincente”, “Swinga” e “Deixe-se Acreditar”, que encerrou o show.
Em seguida, os novaiorquinos do TV On the Radio tentaram provar porque vêm sendo apontados como novo expoente do chamado art-rock. O vocalista David Sitek conseguiu mostrar carisma e levantou o público em alguns momentos, mas a banda sofre de um mal que se evidencia no palco: a falta, justamente, de diversidade entre as canções. Praticamente todas as músicas da banda e do show começam como promessa e passam a algo nada muito diferente do que já foi mostrado anteriormente.
Houve destaque para as faixas do novo disco, “Return to Cookie Mountain”, lançado há alguns meses. Foi curioso ainda o guitarrista e produtor David Sitek tentando tocar guitarra - sem muita variação de riffs - com uma espécie de mensageiro do vento pendurado e que era levado ao microfone para mais um efeito repetitivo.
Por mais de uma hora, quem conseguiu colocar o público para dançar foi o Thievery Corporation. Comandados pela dupla Rob Garza e Eric Hilton, cerca de 11 músicos passaram pelo palco, com destaque para a meia dúzia de vocalistas - incluindo uma brasileira. Eles foram a surpresa da noite, já que conseguiram fugir da reprodução de músicas mais downtempo dos discos e transformaram tudo em festa.
O show começou com clima indiano e acid-jazz, incluindo citar e tabla, mas os produtores americanos mostraram que sua praia é o dub e o hip hop. O público animou especialmente com a dupla de MCs jamaicanos Zee e Roots, que se apresentaram em músicas como “38.45” e da ótima “Marching the Hate Machines”, que fechou a apresentação.
Presença
Karen O, vocalista do Yeah Yeah Yeahs, é o show da banda, que se apresentou na seqüência. Se fosse mais uma menina na pista, passaria despercebida com sua pele branquinha e cabelos pretos chanel. No palco, vestida com collant amarelo e azul, brincando com lenços coloridos e com um capuz vermelho, ela é um espírito do rock. Afinal, desde o rebolado de Elvis Presley, a música não é nada sem uma forte presença.
Entre sucessos como “Gold Lion”, “Y Control”, “Maps”, “Cheated Hearts” e “Pin”, a cantora-diva se jogava ao chão, soprava fumaça e cuspia água para cima, colocava uma perna sobre as caixas de retorno para fazer tipo ao público do gargarejo e provocava o baterista Brian Chase e o guitarrista Nick Zinner, acompanhados ainda por um segundo guitarrista. Porém, o que sobra de rock em Karen O, falta em amplitude em seus companheiros de YYY: com Chase e Zinner, ela é uma garota que mantém o espírito anárquico do rock vivo com um punhado de boas canções; à frente de uma banda mais poderosa, ela seria fenômeno.
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Contato imediato
A expectativa alcançou níveis superiores quando uma cortina vermelha, inexistente até então, cobriu o palco após o show do Yeah Yeah Yeahs. Podia-se ver a tal pirâmide de onde os franceses Thomas Bangalter e Guy-Manuel de Homem-Christo comandam sua viagem, e também a estrutura em forma de grade que completa o palco. Mas ninguém esperava o que viria de tudo aquilo.
Com o tema do filme “Contatos Imediatos do Terceiro Grau”, na introdução do show, o duo de produtores provou que música e luzes podem, sim, abrir caminho à comunicação entre humanos e vidas extraterrestres.
O mar de telefones celulares com câmera apontados para o palco mostrou que o público sabia que a estrutura negra da pirâmide era um truque. Abrindo com “Robot Rock”, Bangalter e Homem-Christo fizeram uma colagem musical de “Aerodynamic”, “Television Rules the Nation” até chegar em “Technologic”, quando o grande telão de leds coloridos, atrás da pirâmide, se acendeu com as palavras da música: “Name it, read it, tune it, print it/ Scan it, send it, fax - rename it/ Touch it, bring it, pay it, watch it/ Turn it, leave it, start - format it”. Foi o primeiro êxtase.
O crescente continuou conforme o público identificava as faixas do Daft Punk. “Around the World” e o megahit “One More Time” ganharam novas versões, uma mais para o techno e a segunda, para um electro-break. E em “One More Time”, acendeu-se a grade que emoldurava a pirâmide. Segundo êxtase - as pessoas se olhavam sorrindo, compartilhando a experiência de assistir a um espetáculo mais que musical.
No mix que uniu “Human After All” a “Harder, Better, Faster, Stronger”, a nave espacial do Daft Punk finalmente mostrou sua missão: quando a pirâmide se acendeu - na verdade, quatro telões de alta definição - o público teve certeza que os franceses trouxeram ao Brasil um dos shows do ano. A catarse prosseguiu até o fim. Não importa muito se os dois homens com capacetes prateados estão mesmo tocando suas músicas de dentro da pirâmide espacial ou se são dublês conversando com a família no Maranhão pelo MSN Messenger: escutar música eletrônica e assistir a qualquer DJ não vai ser suficiente a partir de agora.