Apesar da certeza da morte, via de regra, o ser humano não gosta de falar sobre ela. Aproveitando o Finados, o Dia dos Mortos, o filósofo - também formado em direito e pedagogia - Ivan José Abel, que é professor da Universidade do Sagrado Coração (USC) de Bauru, aborda o tema. Ele ressalta que a morte faz parte do ciclo de vida de todo ser vivo e, por isso, não deve ser ignorada. Ao contrário. Abel orienta a refletir sobre a morte, sobre a possibilidade de transcendentalidade. A seguir, a entrevista com o professor.
Pergunta - Por que o homem reluta tanto em falar sobre a morte?
Ivan José Abel - É de conhecimento de todos a finitude humana no seu aspecto físico-corporal. Isto faz parte de ciclo de vida de todo ser vivo e de maneira especial de todo ser humano. De um lado temos a grandiosidade da vida, e de outro a angústia da morte. Sem dúvida o homem prefere falar da vida, ao invés de cogitar sobre a morte, que é um tema que amedronta a todos, por ser obscuro e desconhecido. A morte passa a ser um assunto apavorante e desconfortável para o ser humano, principalmente quando ela de alguma forma se coloca próxima de nós. Suas feições são mostradas quando “perdemos” um ente querido, quando a vislumbramos de perto através de alguma experiência pessoal de doença incurável, ou com sua antecipação imaginativa em nossa mente. Contudo, a morte é uma realidade, e como tal não deve ser reprimida, mas sim refletida como mais uma das condições humanas.
Pergunta - Como entender a morte através da filosofia?
Abel - Muitos filósofos desde a antiguidade até os dias de hoje se preocuparam com o problema da morte. Platão, filósofo grego que viveu no século V a.C., por exemplo, entendia que a morte era apenas a separação entre o corpo e a alma, e que, portanto, a morte não seria o fim de tudo, mas sim o retorno à sua condição de perfeição. Aristóteles, outro filósofo grego do século IV a.C. compreendia, também, que o homem é um ser metafísico, ou seja, que além de sua condição física existiria uma outra com uma alma que é imaterial. De certa forma os filósofos da idade média, todos eles, sem exceção, como Agostinho e Tomás de Aquino, mantiveram o mesmo entendimento de Platão e Aristóteles, dando a tais entendimentos uma roupagem mais religiosa que filosófica sobre o assunto. Outros, como por exemplo, o alemão Max Scheler, que viveu entre 1875 a 1928, escreveu que a vida não passa de um estreitamento do futuro do ser humano que é a morte, e que em todas as nossas vivências nos acercamos da morte. Independente do lugar onde o ser humano se encontre, em qualquer ritmo vital, estando enfermo ou são, em qualquer fase de sua existência, como a infância, juventude, idade adulta ou velhice, ela é uma experiência individual que um dia será alcançada por todos. Também Heidegger, filósofo alemão que viveu entre 1889 e 1976 entendia que a morte é uma possibilidade humana concreta que todos devem assumir para si.
Pergunta - Mas como assumir e encarar essa possibilidade humana?
Abel - A morte é, pois, um acontecimento futuro de realização certa. Para então falarmos da morte precisamos indagar a respeito da condição humana, para sabermos se devemos ou não ser tolerantes diante da morte. Assim, surge uma indagação importante: o homem é ou não um ser transcendente, ou seja, além da sua condição material existe uma outra condição mais elevada, a espiritual? Não é possível apresentar provas a respeito da transcendentalidade humana, contudo, o homem inteligente, ou seja, racional, deve buscar explicações a respeito da existência da alma nas manifestações de fé do ser humano ou nos seus anseios. Acreditar que o homem é apenas matéria, é fracassar diante de qualquer esperança, de qualquer sonho, de qualquer anseio humano. O homem busca a imortalidade, e é sem dúvida através da religião que o homem pode se libertar da angústia da morte, e de alguma forma transcender da sua condição material para sua condição espiritual. Devemos encarar, então, a morte como uma intensificação da vida, que nos obriga a fazer o melhor sempre, porque cada instante dessa nossa vida terrena é insubstituível e irrepetível.
Pergunta - Será que dá para acreditar que depois desta vida há outra vida?
Abel - Essa pergunta me faz lembrar de um sermão do padre Rubens Zani, ocorrido anos atrás, num dia de Finados, em que ele, ao explicar sobre o sentimento de dúvida sobre a vida pós-morte, fazia menção de um comercial da televisão italiana, onde havia a simulação de duas crianças gêmeas durante o período de gestação, dentro do ventre de sua mãe, e ao dialogarem, uma teria perguntado à outra se depois daquela vida haveria ou não uma outra. Esse exemplo mostra claramente que a própria vida está ligada à morte, e que o homem anseia sempre pela vida, e que a fé passa a ser a única resposta concreta para o problema da morte, já que a filosofia apenas pode ajudar nesse processo de entendimento sem dar respostas concretas e finais sobre ela. Mais facilmente, porém, para aqueles que têm fé, a morte torna-se apenas um momento de passagem de uma vida para outra vida.
Pergunta - A filosofia, então, auxilia nesse processo de que forma?
Abel - Apesar de até agora abordarmos a morte no seu aspecto positivo, filosoficamente não podemos e não devemos aceitá-la, quando esta não é entendida no seu aspecto natural. Não podemos concordar com a morte quando ela está dissociada da vida. A violência que gera a morte, a fome que gera a morte, o autoritarismo que gera a morte, a discriminação que gera a morte, sem dúvida não é natural. Esse tipo de morte é fruto da irracionalidade humana, e como tal é por ele provocada e nesses casos deve ser combatida e evitada. Abreviar a vida de alguém é fazer com que a morte tome o lugar da vida. A morte só tem sentido quando estiver aliada à vida, e não em lados opostos. A morte deve sim ser decorrência da vida. Como já dissemos, viver é morrer um pouco a cada dia, mas na morte deve ter, também, o seu aspecto ético, e isso pressupõe conectá-la ao bem. Por isso a morte não-natural não pode ser considerada nem ética e nem boa.