Por volta de 1914, ainda petiz, meu pai vivia na barra São Luiz do Guaricanga junto de seus pais e seu avô paterno em vasto sítio naquela região, até então habitada por índios que procuravam resistir os avanços da Estrada de Ferro Noroeste por aqueles ermos de sertão.
Contava meu avô um fato ocorrido naquelas bandas, em um sítio vizinho cujo morador tinha como residência apenas um rancho de pau-a-pique de apenas dois cômodos. Um que servia de cozinha, tendo como porta apenas uma esteira de taquara, a mobília era um girau de varas onde ficavam uma lata de gordura de porco, um saco de sal e um cântaro de barro com água para beber; no canto do cômodo, um pilão de peroba feito a enxó que servia para limpar café em coco e limpar arroz em casca, e uma peneira feita de taboca distalada. Como defumador, uma vara de bambu cruzava a cozinha de canto a canto, passando por sobre o fogão, onde eram dependurados peixes salgados e carne de caça charqueada.
O segundo cômodo que servia de quarto tinha as paredes barreadas, cuja porta em prancha de cabreúva desdobrada a trançador, com 50 centímetros de largura e dois de espessura, garantia a privacidade e a segurança do casal e uma filha de 4 anos.
O quarto de mobília, muito pobre como toda casa de um caboclo, dispunha apenas de um catre forrado com um colchão de palha de milho e um cobertor de lã, tosquiada, lavada, cardada, fiada e tecida ali mesmo por sua companheira.
Num dos cantos do quarto, um cepo de madeira amparava uma imagem de santo, presente de sua finada mãe, que mesmo sem saber que santo era dedicava-lhe profunda devoção. Acima da imagem do seu padroeiro, uma carabina de cano curto, suspensa por um tento de couro cru que pendia de um barrote que servia de caibro, era usada para dar “boas vindas” a andantes e desocupados. Uma candeia de óleo de mamona pendurada no batente da janela emitia sua luz mortiça para combater a escuridão e velar o sono do humilde casal.
Certa noite de verão, após uma chuva, a madrugada estava fresca e o casal resolveu protelar o seu despertar. Acostumado a levantar muito cedo, seu Argeu acordou no horário habitual, 4h30, mas sabendo que lá fora estava tudo muito molhado resolveu dormir um pouco mais e após constatar que tudo estava bem com a filha e a esposa, aquietou-se na enxerga e virou pro canto para dormir.
Antes de conciliar o sono, ouviu na cozinha alguém mexer nas panelas. Certo de que não era sua esposa, levantou-se lentamente e olhou pela fresta da porta do quarto e, apesar da escuridão, viu um estranho, que segurando uma lamparina acesa tentava reanimar o fogo do fogão à lenha. Por se tratar de um andarilho em busca de comida, o dono da casa deixou que a busca continuasse, mas ficou atento pensando com seus botões: se ele comer e for embora tudo bem, mas se eu perceber outras intenções terei que agir.
Passado alguns minutos, seu Argeu continuou firme na vigília pela fresta da porta observando os movimentos do intruso matinal, que após empanturrar-se de feijão farinha de milho e carne de anta sapecada no borralho saiu lentamente em direção ao quarto do casal, quando seu Argeu confirmou o que já suspeitava. Pois já não se tratava apenas de um andarilho faminto, mas passou a ver maldades no gesto daquele indesejável visitante.
Seu Argeu não teve duvidas. Foi até o canto do quarto onde o trabuco estava pendurado engatilhando-o enquanto aproximava-se da porta e aguardou o último gesto daquele que já era visto como um bandido, ladrão e ate desonrador das famílias alheia.
Pronto para agir, seu Argeu permanece em pé a uns dois metros da porta do quarto com o dedo indicador no gatilho do cravinote apontado em direção à porta na altura do peito do visitante, que agia imaginando que todos estavam dormindo. Seu Argeu pôde perceber que uma lâmina de punhal corria entre a porta e o batente tentando virar a taramela. Como o batente era lavrado a machado, dificultou um pouco a operação. No auge da tensão o morador respirou fundo, puxou o gatilho, fazendo eco nos baixios da região.
O rombo aberto na porta do quarto teve seqüência no peito do visitante, que caiu por cima de uns badulaques, batendo a cabeça num trançador que estava encostado na parede do rancho, que despencou por sobre o já quase cadáver, rasgando o couro cabeludo e descendo pela face, tornando ainda mais horrível aquela cena, cujo sangue se misturava com azeite que alimentava a lamparina que, já apagada, entornara entre os dedos do morto.
A esposa e a filha tiveram seus despertar abreviado por tanto rebuliço e foram pra cozinha um pouco mais cedo que de costume para começar o dia. Fico devendo aos leitores quem cuidou do cadáver: se foi o inspetor de quarteirão ou o abundante cardume do rio Batalha daqueles tempos ...
Lázaro Carneiro é pescador e contador de histórias.