São Paulo - Embora tenha declarado desejar ter uma relação “privilegiada” com os Estados Unidos e a União Européia, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva reafirmou, em entrevista a três jornais europeus, que a prioridade da política externa no seu segundo mandato continuará sendo a América do Sul.
Lula ressaltou, porém, que o Brasil “não quer liderar nada”, mas sim ser parceiro dos demais países do bloco. “Se para nós é importante uma aliança preferencial com a América do Sul, é porque somos um país rico, mas não podemos crescer com países pobres ao redor”, disse o presidente ao espanhol “El País”, ao francês “Le Figaro” e ao italiano “La Repubblica”.
Em uma semana em que ministros como Tarso Genro (Relações Institucionais) e Dilma Rousseff (Casa Civil) fizeram pressões para uma guinada desenvolvimentista na política econômica, Lula reafirmou, na entrevista aos jornais europeus, que o combate à inflação continua sendo sua prioridade. O presidente também falou na necessidade “urgente” de uma reforma política e disse que o Brasil precisa de uma Operação Mãos Limpas, como a que houve na Itália no início dos anos 1990. A entrevista foi feita antes da viagem de Lula à Bahia para descansar no feriado de Finados.
Os três jornais a publicaram ontem, com direito a chamadas na primeira página. Leia a seguir os principais trechos. América do Sul Temos de pensar em quem está mais próximo de nós, quais são as semelhanças dos países da América do Sul e do Brasil, e o que podemos fazer para nos ajudar mutuamente. Se para nós é importante uma aliança preferencial com a América do Sul, é porque somos um país rico, mas não podemos crescer com países pobres ao redor. Sabemos como ajudar esses países porque somos a maior economia da América Latina e temos obrigações perante nossos vizinhos. Eliminamos do nosso dicionário qualquer pretensão de hegemonia.
O Brasil não quer liderar nada, e sim ser parceiro de todos os países e trabalhar em harmonia para que possamos ver o continente crescer. Hugo Chávez A relação da Venezuela com os Estados Unidos não é a mesma relação do Brasil com os Estados Unidos. As necessidades da Venezuela não são as mesmas do Brasil. Por que fazer comparações entre países distintos? Creio que Chávez seja bom para a Venezuela. É o presidente que mais se preocupou com os pobres nos últimos 30 anos.
O mesmo ocorre com o Evo Morales, que defende as necessidades da Bolívia. Chávez trabalha em função da realidade política da Venezuela e eu, da do Brasil. Quando se trata de política externa na América do Sul, nós pensamos da mesma forma. Mas quando se trata de relações estratégicas, ele pode pensar uma coisa, e eu, outra. EUA e União Européia Queremos uma relação privilegiada com a Europa, e também quero manter uma relação privilegiada com os EUA. É uma relação estratégica, porque se trata do nosso maior parceiro comercial. Mas precisamos nos abrir a novos espaços no mundo globalizado e não podemos depender de apenas uma economia ou duas.
O Brasil quer ter um papel muito forte no plano internacional e quer que se firme um acordo entre o Mercosul e a União Européia. Embora essas coisas sejam sempre muito difíceis, acabam tendo uma solução razoável, porque o Brasil e a Europa compartilham interesses estratégicos comuns. Estou convencido de que o Brasil está no caminho correto em sua política externa.
Juros
A taxa-base do Banco Central (BC) está em baixa há vários meses e vai continuar a diminuir. Mas o controle da inflação permanece sendo a prioridade, por causa de seu impacto considerável na vida dos mais pobres. Nós não podemos nos permitir um passo em falso neste terreno. Reforma política A reforma política será obra dos partidos políticos e do Congresso. Quando o sistema político fica empobrecido, os partidos se acomodam. Queremos é uma legislação que permita a renovação dos partidos políticos, em que haja fidelidade partidária, estabilidade interna mediante uma lista de candidatos e que o financiamento dos partidos seja público e não privado. Quero levar a reforma adiante de maneira urgente. Mas não acredito que a reforma política vá resolver tudo. Precisamos do trabalho da Justiça para acabar com a impunidade. O Brasil precisa de uma Operação Mãos Limpas.
Corrupção
Uma das coisas de que me orgulho é que o meu primeiro mandato tenha se caracterizado por uma política de luta contra a corrupção. À medida que se descobrem grupos de corruptos, as pessoas podem confundir o combate da corrupção com o surgimento de corrupção. As quadrilhas que nós descobrimos operavam há anos no país e ninguém dizia nada. Preferiram varrer a corrupção para debaixo do tapete. Nós lançamos luz sobre ela.
Entre 2003 e 2006, a Polícia Federal fez mais de 300 operações contra a corrupção organizada. Nos oito anos anteriores, foram só 48. FHC Quero ter um segundo mandato melhor do que o primeiro. Agora já não tenho que me comparar com o fracasso da política de Fernando Henrique Cardoso, mas com o que eu fiz. Mostrei que posso governar melhor que FHC, mas agora tenho que competir comigo mesmo, o que é mais difícil.