Nós, brasileiros, cultivamos o sentimento atávico da esperança em dias melhores. O povo sempre espera a chegada de um ser encantado que nos fará feliz. Quando crê que esse dia chegou, logo vem a decepção e o sonho se desvanece. Mas a esperança continua. Essa nunca morre.
Herdamos esse auto-enganar dos portugueses que em 1578 perderam o rei Dom Sebastião, na batalha de Alcácer-Quibir, contra os mouros. E um rei, cujo único ato digno de nota foi morrer, passou à história; não mais como um monarca, mas como símbolo de esperança. Esse desaparecimento foi um prato cheio para aumentar a melancolia do povo que inventou a saudade.
Primeiro, porque com ele desapareceu a dinastia fundadora do reino português, tendo a sua morte sem herdeiros determinado o fim da Casa de Avis. Depois, porque essa mesma falta de herdeiros levou o trono lusitano, por ordem de parentesco, às mãos de Felipe II, também rei da Espanha. Um espanhol turrão, com manias de conquistas até se estrepar com a Inglaterra, passou a mandar também na Casa Portuguesa, com certeza.
A volta do rei desaparecido para redimir o povo continua até hoje sendo esperada em Portugal. Pensaram que ele tivesse chegado com a Restauração, em 1640. Portugal tornou-se, novamente, um reino independente. Mas, o povo continuou na miséria. Mais modernamente, pensou-se que D. Sebastião tivesse reencarnado em Salazar. Ledo e ivo engano. Para quem prefere a espera à ação, sempre há misérias a aguardar um salvador mítico.
Aqui no Brasil cultivamos o sebastianismo, ora latente e ora mais manifesto. Como tantas outras tradições e lendas ibéricas, essa também atravessou o Atlântico. E os brasileiros passaram a também aguardar pela mítica e redentora visita de Sebastião. Literalmente.
Quando D. Pedro I passou a coroa para o seu herdeiro ainda criança e voltou a Portugal, a Colônia inteira passou a aguardar, anos e anos, o seu triunfal regresso que jamais aconteceu. Mais de um século depois surgiu Getúlio Vargas, o pai dos pobres. Depois, Juscelino Kubitscheck, risonho e cheio de promessas desenvolvimentistas. Chegamos a Collor, cujo aceno à modernidade não passou de um adeus. Agora temos o mito Lula, que o povo adora. Ele se compara ora a Getúlio, ora a JK e mais Tiradentes, Abraham Lincoln, Gandhi e não sei mais a quem. Trocou educação, saúde, emprego, teto, segurança e transporte por cestas básicas. Foram 35 milhões de bolsas-família injetadas na veia dos pobres e que lhe renderam 15 milhões de votos. Talvez o coroem como Luiz I e Único, para satisfação de 7.640 assentados pelo Incra, a um custo de 50 mil reais cada, o que daria para sustentar cada assentado com um salário mínimo por mês, durante 12 anos. Viveriam muito melhor do que nas favelas rurais de hoje.
Por essas e por outras a discussão ética não passa de perfumaria. Lula Sebastião da Silva continua nos prometendo o “espetáculo do desenvolvimento” apesar do “país quebrado” que herdou em 2002. O plano econômico é do Lula, não é de Palocci, Meirelles ou Mântega. “E meu. Todo meu”. É mero detalhe o PIB ter aumentado míseros 2,3% em 2005, superior apenas ao Haiti na América Latina e Caribe. Este ano o PIB fechará com menos de 3%, por si já esquálidos. Mas, “passaremos ao Primeiro Mundo” – promete o rei-eleito do alto do Aerolula a subir aos céus sob olhares invejosos dos passageiros que amargaram 20 horas de espera nos Aeroportos. Afinal, o que é um apagão aéreo para um povo que só vê avião quando olha para cima?
O que vale é a volta corpórea de um Sebastião que se tornou símbolo do ingresso à fartura e às benesses. Ao pé do seu túmulo na Capela de Santa Maria, junto ao Mosteiro dos Jerônimos, em Lisboa, os portugueses festejam sempre o seu breve regresso. O túmulo está vazio de corpo, mas repleto de expectativas da alma portuguesa. “O povo por ti espera”.
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC