São Paulo - Na primeira cerimônia desse tipo no Estado de São Paulo, a Igreja Católica promove hoje a beatificação do padre Mariano de La Mata Aparício (1905-1983), na Catedral da Sé, na Capital paulista, após o Vaticano ter reconhecido um milagre atribuído ao religioso em São José do Rio Preto (SP). O ato milagroso aconteceu no acidente de João Paulo Lopes da Silva Polotto, 16 anos, que quase morreu atropelado em Barra Bonita, em 1996. O acidente praticamente abriu a cabeça do então menino João Paulo, na época com apenas 5 anos.
Com a beatificação, abre-se a possibilidade de o padre virar santo. Segundo o teólogo Fernando Altmeyer, ouvidor da PUC-SP, é a primeira beatificação de um padre realizada no Estado. O papa João Paulo II (1920-2005) havia assinado, em 20 de dezembro de 2004, um decreto no qual reconhecia “as virtudes heróicas” do pároco espanhol, que viveu 53 anos no Brasil. De 1933 a 1961, ele morou na região de São José do Rio Preto.
Em 28 de abril deste ano, o papa Bento XVI assinou o decreto no qual oficializou o milagre. Em 1997, a Ordem de Santo Agostinho do Brasil enviou um relatório ao Vaticano afirmando que o estudante João Paulo Lopes da Silva Polotto (hoje com 16 anos), atropelado por um caminhão em 1996, em Barra Bonita, foi curado de uma paralisia no lado esquerdo do corpo e de um traumatismo cranio-encefálico sem intervenção cirúrgica após preces ao religioso.
Segundo médicos e teólogos do Vaticano, a cura do garoto não teve explicação científica. Segundo o presidente da comissão episcopal para a cultura, comunicação e educação da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), dom Orani João Tempesta, a Santa Sé mandou uma equipe a São José do Rio Preto para investigar o milagre. “Fizemos um tribunal social na cúria, conversamos com médicos, enfermeiros, os pais da criança. Toda a documentação foi encaminhada à Santa Sé”, disse dom Orani.
A mãe do garoto, a médica Eliana Lopes da Silva Polotto, 48 anos, foi quem socorreu o filho quando ele foi atropelado. Ele ficou em coma por quatro dias.
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Poucos beatos e santos
São Paulo - “Durante muito tempo pensamos que Deus era brasileiro e esquecemos de que precisávamos de beatos e santos”, diz o teólogo e ouvidor da PUC-SP Fernando Altmeyer. Para ele, o maior país católico do mundo “tem poucos beatos e santos”. Altmeyer aponta as exigências do processo de beatificação como uma das razões para a falta de beatos e santos no Brasil. “É necessário fazer pesquisas históricas, tradução para o latim, entre outros, e isso é muito caro para um país pobre.”
Segundo o teólogo, com a beatificação do padre Mariano de La Mata Aparício, o Brasil já teve aceitos pelo Vaticanos oito processos de beatificação e dois processos de canonização - nenhum dos canonizados, no entanto, nasceu no Brasil. Altmeyer acha o número baixo. “Só os padres que foram assassinados na luta pela terra são cerca de 70. Hoje, deveríamos estar com cerca de 2 mil a 3 mil beatos. A França e a Itália têm centenas de beatos e santos.” Cerca de 50 processos de beatificação de brasileiros estão em andamento, diz ele.
O presidente da comissão episcopal para cultura, comunicação e educação da CNBB, dom Orani João Tempesta, disse que o Brasil não tem “preocupação em ter santos ou beatos”, mas afirmou que a beatificação do padre Mariano “pode despertar o interesse”.
“Para alguém se tornar beato, primeiro é preciso concluir que ela teve vida digna. Depois pedem que haja um sinal, que é o milagre. Algo que ocorreu sem explicações médicas plausíveis é caracterizado como milagre e deve ser investigado.”
Para ser canonizado e se tornar santo, é necessária a comprovação de mais um milagre após a beatificação. Hoje, só o papa realiza a canonização, que permite o “culto universal”.
A beatificação permite o culto onde o beato nasceu e nos países onde realizou seu trabalho. Com a beatificação do padre Mariano, o Brasil ganha chances de realizar a terceira canonização. No primeiro, em 1988, São Roque Gonzales, Santo Afonso Rodrigues e São João de Castilho - o primeiro do Paraguai, os outros, da Espanha - foram canonizados. Em 2002, madre Paulina, da Itália, se tornou santa.