A vida começa aos 40, diz o ditado popular. Pelo menos é o que prova a comédia “O Gatão de Meia-Idade”, dirigida por Antônio Carlos de Fontoura e com Alexandre Borges no papel do designer Cláudio. Divorciado e com uma filha de 12 anos, ele está em crise de meia-idade e, além de administrar a relação com a ex-mulher, tem de lidar com seus casos e aventuras amorosas.
Assim como o personagem do filme, qualquer homem quarentão – e também cinqüentão - pode passar por situação semelhante na vida real, aponta o psicólogo Ailton Amélio, professor doutor na área de relacionamento amoroso da Universidade de São Paulo (USP) e autor do livro “Para Viver um Grande Amor”.
De acordo com o especialista, todas as pessoas estão sujeitas a enfrentar conflitos individuais, mas este cenário tem características diferentes para homens e mulheres. Enquanto elas vivenciam crises ligadas a fatores biológicos, como a menopausa, eles podem passar por uma fase de questionamentos e mudanças comportamentais.
Isto porque a partir dos 40 anos os homens estão mais maduros, já se firmaram profissionalmente, não são tão impulsivos como antes e, embora tenham esperança, não têm mais as ilusões típicas da juventude. “Existe um momento em que o homem atinge um ponto de sua vida que sabe que não poderá realizar os sonhos de quando era mais novo. Ele já colocou o ‘pé no chão’. É mais realista e sabe que não será um jogador de futebol famoso ou um artista de cinema, por exemplo”, detalha.
E na área afetiva, em muitos casos, à medida que o quarentão solteiro ou divorciado fica mais velho, explica Ailton, aumenta a distância da mulher desejável. “Fisicamente, a mulher atinge seu ápice por volta dos 25 anos. Todos os cremes e plásticas funcionam no intuito de manter a pessoa nessa faixa etária.”
Por isto, em muitos casos, eles desejam uma parceira dez anos mais nova. Um dos motivos para este comportamento, aponta o psicólogo, é que os homens – e também algumas mulheres – se sentem bem com parceiras mais novas. “As parceiras mais jovens estão em outro momento da vida, têm mais energia, esperança, são bonitas e isto é lisonjeiro. É um atestado de que eles ainda estão ‘no jogo’”, diz.
Existe uma “linha” que separa o quarentão maduro e charmoso daquele com fama de “tiozinho” ou que vivenciam a chamada “idade do lobo”, em que os homens com mais de 40 anos buscam diversas aventuras amorosas ou querem “revisitar” o passado, vivenciando experiências que não tiveram.
“Nessa fase, eles tentam obter mulheres que não conquistaram quando eram mais novos. Na cabeça deles, naquela época, não estavam preparados e agora estão mais aptos, seguros ou tentam passar a limpo coisas que não fizeram bem feito.”, afirma o psicólogo.
Isto, porém, não se estende a todos os quarentões e cinqüentões. Apesar de reconhecerem mudanças em relação à época que tinham 20 ou 30 anos, uma grande parcela deles condena ou não segue este comportamento. É o caso do músico Isaac Ferraz de Camargo Filho, 43 anos. Divorciado desde 1997 e pai de uma menina de 12 anos, ele está bem mais maduro e seletivo em relação às mulheres. “Estou em uma fase em que sei o que eu quero. Estou maduro e busco qualidade nos relacionamentos.”
Famoso na cidade e na Capital por conta de sua profissão, Isaac costuma ser assediado por mulheres de diversas idades, mas revela que, diferentemente do personagem do filme “Gatão de Meia-Idade”, não se entrega às aventuras amorosas inconseqüentes. “Penso ao contrário. Se tivesse na idade do lobo estaria com muitas mulheres. Não é isto que eu quero para minha vida, busco uma pessoa ideal”, diz ele, que, embora esteja solteiro, não descarta a possibilidade de se casar novamente.
Divorciado e pai de dois jovens de 23 e 25 anos, o professor Mário Balistieri Sobrinho, 50 anos, também não entrou na “fase do lobo”. Pelo contrário, ele conta que a única mudança que teve ao longo do tempo foi relacionado à maturidade. “Sempre encarei a vida muito de frente, sem grandes problemas. Mas talvez quando era mais novo não tivesse tanta responsabilidade como agora. Antes eu fazia as coisas por ímpeto, sem pensar muito nas conseqüências. Hoje sou mais realista e tenho atitudes mais sensatas”, aponta.
O engenheiro químico e professor universitário Antônio Celso de Mattos, 45 anos, tem comportamento semelhante ao de Mário. Divorciado há nove anos e com filhos de 10 e 11 anos, ele conta que não passou pela crise dos 40 anos. “Se tive, administrei bem.”
Para ele, ser quarentão é sinônimo de maturidade. “Com a experiência que obtive, encaro a vida de outra forma e as coisas se tornam mais fáceis”, diz ele, que atualmente namora uma mulher com idade próxima à sua.
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Similaridade
Segundo o psicólogo Ailton Amélio, professor doutor na área de relacionamento amoroso da Universidade de São Paulo (USP) e autor do livro “Para Viver um Grande Amor”, um dos fatores que caracterizam o sucesso nas relações amorosas é a similaridade.
Neste sentido, parceiros com idades parecidas são mais favorecidos. Ele aponta que relacionamentos com parceiros mais novos pode ser uma faca de dois gumes porque as pessoas podem não estar no mesmo ritmo.
“No começo é lisonjeiro, mas depois pode haver incompatibilidade. A mulher nova ainda quer casar e ter filhos, enquanto seu parceiro não quer. Ou enquanto ela quer ir para a balada, o homem mais velho prefere fazer outro tipo de programa. Aí fica difícil”, observa.
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam que no Brasil, em geral, os homens casam com parceiras três anos mais novas. A idade média de divórcios, no entanto, é por volta dos 40 anos para o público masculino e 35 anos para a parcela feminina da população.
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Quem é o gatão
A comédia “Gatão da Meia-Idade” baseia-se no quarentão mulherengo criado pelo cartunista Miguel Paiva, o pai da Radical Chique, na década de 90, e que foi tema das tiras publicadas no jornal O Estado de São Paulo.
O Gatão ganhou fama e as telas de cinema. Dirigido por Antônio Carlos de Fontoura, o filme conta a história do designer Cláudio (Alexandre Borges), um homem quarentão, pai de uma adolescente de 12 anos. Divorciado charmoso e sedutor, ele deseja experimentar o maior número de aventuras amorosas possível, sem nenhum envolvimento emocional.
Além da telona, as histórias do personagem também são contadas no livro “Cama de Gato - Histórias do Gatão de Meia-idade” (Editora Globo).