Bairros

Proximidade cria formas inusitadas de amizade

Rodrigo Ferrari
| Tempo de leitura: 3 min

Quem habita condomínios verticais está constantemente cercado de vizinhos por todos os lados. Vivendo tão perto umas da outras, as pessoas acabam penetrando na intimidade alheia, ainda que de maneira involuntária. Tal proximidade pode fazer com que formas inusitadas de amizade se manifestem entre os moradores desses locais.

A dona de casa Joseneide Dias, 34 anos, mora há nove anos no Residencial Flamboyants (zona sudeste de Bauru). Desde que se mudou para o lugar, ela tem colecionado diversas amizades, algumas bem próximas, como, por exemplo,com a oficial de Justiça Fernanda Silva de Freitas.

As duas costumam bater papo no corredor do prédio em que vivem. “Meu apartamento fica em frente ao dela e, como nosso tempo é corrido, aproveitamos para conversar ali mesmo”, explica Dias. Paradas à porta, as duas conversam sobre temas do dia-a-dia: filhos, trabalho, doenças... Às vezes os assuntos são tão interessantes que elas acabam perdendo a noção do tempo. “Tem dias que a gente chega a ficar mais de uma hora falando no corredor”, admite Freitas.

Mesmo sendo bastante amigas, dificilmente uma entra no apartamento da outra. “De vez em quando, fico pensando nisso e acho meio engraçado. Quase nunca vou à casa dela, e ela também não vêm à minha, com exceção de datas especiais, como aniversários, por exemplo”, comenta Dias.

Por outro lado, ela reconhece que os limites na relação com a amiga são importantes. “Isso acaba sendo bom, pois assim cada uma preserva a própria privacidade”, acredita. Mesmo restrita aos corredores, a amizade de Dias e Freitas é capaz de mexer com a vida dos demais moradores do lugar.

“Quando o bloco precisa de alguma reforma, eu e a Fernanda saímos pela vizinhança tentando arrecadar dinheiro para que as obras sejam realizadas”, afirma Dias. A última mobilização feita pelas amigas ocorreu no começo do ano, quando as duas promoveram a retirada do piso do corredor de entrada do prédio.

“Estava danificado, por isso foi preciso arrancar. Agora estamos tentando convencer o pessoal a colaborar para que o novo piso seja colocado”, comenta Dias. Apesar dos benefícios trazidos ao bloco, nem todos os moradores mostram-se satisfeitos com as obras promovidas pelas amigas.

“Nem todos entendem que isso é feito para o bem comum. Outro dia, por exemplo, coloquei um cartaz na portaria pedindo colaborações para a reforma. Bastou isso para que alguns vizinhos começassem a olhar feio para mim”, reclama a dona de casa.

Dias já foi aconselhada pelo marido a não se envolver nos problemas do condomínio. “Ele falou que isso não vale a pena, só que não consigo ficar parada. Esta é minha casa, quero que aqui seja um bom lugar para se viver.”

Apesar de toda disposição que ainda demonstra, Dias afirma estar um tanto cansada da vida no condomínio. “As coisas mudaram muito aqui nos Flamboyants, e isso me deixa meio insatisfeita.” As causas para o desânimo são vários. Um deles está relacionado ao barulho feito por alguns vizinhos.

“Tem gente que liga o aparelho de som no volume máximo, sem se preocupar com quem mora ao lado”, queixa-se. O descuido de alguns moradores com o lixo também tem incomodado Dias. “Às vezes reclamo, mas é complicado ficar arrumando encrenca com os vizinhos todos os dias.”

Para ela, os problemas seriam menores se todos tivessem mais respeito pelas regras do condomínio. “Quem mora em prédio ouve tudo o que o vizinho faz, fala e ouve. Se não houver um mínimo de cuidados, a convivência acaba ficando insuportável”, diz.

Comentários

Comentários