Bairros

Casas vazias viram ‘albergue noturno’

Luiz Galano
| Tempo de leitura: 4 min

Casas desocupadas do Centro da cidade, à venda ou para locação, estão virando espécies de albergues noturnos onde moradores de rua passam as noites. A Polícia Militar (PM) iniciou, ontem, uma ofensiva contra esses pontos. Os problemas vão desde o acúmulo excessivo de lixo inorgânico e orgânico em decomposição - focos de proliferação de vetores para diversos tipos de doenças - até aglomeração de marginais que se reúnem nos locais para consumir e comercializar drogas e praticar pequenos furtos. O Conselho Comunitário de Segurança (Conseg) Centro Sul estima que mais de dez casas da região estejam na mesma condição.

Por volta das 15h30 de ontem, a PM, em conjunto com três fiscais da Secretaria de Planejamento (Seplan) e dois agentes sanitários do Centro de Controle de Zoonoses (CCZ), vistoriou um desses pontos, localizado na confluência das ruas Araújo Leite e Conselheiro Antônio Prado, no Centro. Nenhum “morador” estava no local. No entanto, dentro de um recipiente de achocolatado, em meio a grande quantidade de lixo amontoado na garagem, a polícia encontrou 45 papelotes de crack, oito invólucros de maconha, uma chave mixa – utilizada para abrir carros -, duas facas enferrujadas, uma chave de fenda e, no forro da varanda, uma mala de viagem.

Dentro dela existiam algumas peças de roupa, álbuns fotográficos, uma Bíblia, uma camisinha, um celular, dois pares de tênis, um isqueiro, uma carteira de trabalho e uma intimação da Justiça da cidade de São Manuel, em nome de Edson de Camargo, de 38 anos. Segundo a PM, o homem não é procurado, mas teve diversas passagens por furto e porte de entorpecentes.

O interior da casa de mais de 11 cômodos encontra-se bastante destruído. Um forte odor de urina e fezes humanas pode ser percebido logo na varanda. Nas paredes depredadas, símbolos e nomes pichados. No chão, restos de comida, roupas e revistas pornô. Nos banheiros, acúmulo de lixo e fezes. Nos fundos da casa, um quartinho localizado acima da garagem se transformou em banheiro comunitário. Abaixo, na garagem, um grande acúmulo de entulho. Em diversos locais há vestígios de pequenas fogueiras.

Segundo o comandante da 1.ª Companhia da PM, capitão Jorge Duarte Miguel, a operação marca o início de uma ofensiva contra esses pontos, que geram problemas para a vizinhança. “Recebemos diversas reclamações durante a semana. Dois marginais que faziam uso da casa foram presos nesta semana. Hoje (ontem) começamos uma ação que visa inibir essas pessoas que incomodam pedestres e moradores do Centro da cidade”, afirma.

De acordo com um morador próximo, que preferiu não se identificar, a comunidade convive com essa situação há cerca de um ano. “Primeiro era só um casal. Hoje calculo que vivem cerca de 18 pessoas ali, incluindo três ou quatro mulheres”, revela. Outro morador conta que, no período noturno, mulheres que estudam num instituto próximo da casa abandonada são vítimas de assédio por parte dos “habitantes” do local.

O secretário do Conseg Centro Sul, Pellegrino Bacci Neto, acredita que, no mínimo, mais de dez casas abandonadas da região central estejam servindo para os mesmos fins.

“Temos mais focos como este espalhados pelo Centro. O proprietário precisa tomar consciência de que o seu descaso causa problemas à sociedade. O dono desta casa prometeu demolir o local em janeiro. Mas até ele precisa tomar providências para que o local não incorra em risco para a vizinhança”, afirma.

Focos para proliferação de insetos transmissores de doenças não faltam dentro da casa abandonada. Como medida de emergência, foram retirados cinco sacos de lixo de 100 litros contendo apenas recipientes que acumulavam água da chuva no quintal da casa – que funcionariam como criadouros do mosquito da dengue.

Segundo a agente de saneamento do CCZ, Terezinha Juliatto existem outros riscos. “Primeiro: têm muito material que acumula água, foco de dengue. Segundo: têm muito material orgânico em decomposição, aí incluímos fezes, urina e restos de comida, que formam o ambiente propício para o surgimento do mosquito transmissor da leishmaniose. Além disso, o local fica propício ao acúmulo de baratas, pulgas, ratos, escorpiões e outros insetos”, explica.

De acordo com ela, o dono da casa será procurado na manhã de hoje para que tome providências a respeito da sujeira. “Será feito um auto de infração, e ele será notificado de que necessita fazer a limpeza do local. Mas como a situação é crítica, vamos tentar somar esforços para que a situação seja resolvida o quanto antes”, revela.

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