Enquanto você lê este jornal parte das nossas florestas está sendo destruída, pessoas sofrem em condições similares à escravidão e, muito provavelmente, uma boa fatia do dinheiro público está sendo surrupiada em alguma esfera municipal, estadual ou nacional. Cada ato destes e tantos outros que não caberiam neste texto, alteram nossas vidas. Os prejuízos à sociedade são enormes e imediatos. O que talvez demore um pouco é a nossa percepção de que tudo isso nos diz respeito. Mais cedo ou mais tarde, direta ou indiretamente, cada ato contra a coletividade, mesmo sem rosto definido ou ainda que a face atingida não nos seja familiar, nos faz perdedores. Como, então, poderemos nos defender? Primeiro precisamos saber o que está acontecendo. É um bom começo. Depois, ter uma noção de como os fatos ocorrem, desde quando, quem os praticou, onde foi... por quê? Estamos indo bem. Mas não basta estar informado ou mesmo “bem” informado. Empanturrar nosso cérebro de informações não é sinônimo de conhecimento. É preciso contextualizar, trazer o fato à nossa realidade, ao nosso mundo, ao dia-a-dia que vivemos; só assim daremos a relevância que o tema merece. Quanto mais importância dedicarmos, maior será o nosso interesse e atenção sobre o fato. Que bom, já demos outro grande passo. Porém, ainda não é o suficiente.
É certo que precisamos saber das coisas, perceber que elas nos afetam, de um jeito ou de outro, e que somos seres globalizados, mas e daí? Ou, melhor, e a partir daí? Esta é a diferença, ou a distância, que nos separa de uma sociedade verdadeiramente civilizada, democraticamente cidadã e, enfim, justa. O nosso compromisso vai muito além do saber e do perceber; passa pelo agir. Somos seres ativos mesmo na aparentemente tranqüila e perigosamente neutra omissão. Interagir com o mundo que nos cerca de forma responsável é o mínimo que podemos oferecer como seres dotados de consciência e inteligência. Com informação - checada, comparada, contextualizada- temos instrumentos para decidir sobre ações que dizem respeito à nossa própria existência, ao grau de qualidade deste viver e até mesmo ao prazo de validade que temos pela frente. Como podemos deduzir, a comunicação é mesmo uma necessidade humana, não apenas para o constante aperfeiçoamento civilizatório, como também pela simples e trivial permanência no planeta. Ao voltarmos ao texto veremos, acima, que em muitos momentos deste processo a imprensa é uma importante aliada; em alguns ela passa a ser a principal parceira e, com um olhar mais atento, longe de qualquer idolatria, notaremos que em certos casos se apresenta como única. Com tanta força transformadora é natural que se traduza em poder e, como tal, não fica imune aos males de uma sociedade em formação. Como, então, deveremos lidar com a imprensa? Se você neste jornal leu as manchetes do dia, passou pelas páginas de esporte e cultura e deu aquela olhadinha básica nas fofocas ou horóscopo, por exemplo, relaxe! Você encontra-se na média dos leitores brasileiros, mas não se orgulhe de ser uma elite que consome informação impressa neste país. Agora, se ainda assim você conseguiu chegar a este texto e, o mais interessante, até este ponto da leitura, talvez valha, sem exagerada pretenciosidade, propor algumas reflexões sobre esta instituição que tanto representa para as liberdades. Para quem busca informação é fundamental desenvolver um consumo crítico e, sempre que possível, ter mais de uma fonte para um mesmo fato. É prudente compreender que a verdade contada por alguém será, no máximo, a melhor versão dela e, enfim, observar melhor o mundo com a ajuda das manchetes e não apesar delas. Para quem transforma fatos em notícia é preciso, além da competência, apenas mais três coisas, pela ordem: ética, ética e ética. (O autor, Luís Victorelli, é jornalista da USP e USC. Membro diretor da Comissão Estadual de Qualidade de Ensino em Jornalismo do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo. lvict@terra.com.br)