Desde os 15 anos, o jornalista Zarcillo Rodrigues Barbosa dedica a vida à imprensa. Começou como revisor do Correio de Marília e, com título de doutor em comunicação, dá aulas na Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru, colabora escrevendo artigos aos domingos para o Jornal da Cidade e como comentarista da 96 FM, entre outras atividades.
Já passou por momentos difíceis na época da ditadura militar, em que sofreu ameaças verbais e viu a destruição de uma redação de jornal por um grupo contrário à liberdade de expressão.
Com as experiências adquiridas em todos esses anos dedicados ao jornalismo, tem uma maneira bastante peculiar de definir a profissão: “Todo jornalista tem um pouco da síndrome de Clark Kent (como o Super-Homem se apresenta, disfarçado)”. E explica: “O jornalista acha que é só entrar em uma cabine telefônica e sair fantasiado de Super-Homem que pode acabar com a criminalidade do mundo”, brinca.
Defende que o jornalista seja preocupado principalmente com o povo. “O jornalista tem que ser, em primeiro lugar, solidário com o povo no sentido de preocupar-se com o que é mais importante para as pessoas”, explica.
Zarcillo é jornalista praticamente 24 horas por dia, mas em certos momentos gosta da introspeção e de estar em contato com a natureza. Quando quer meditar e relaxar, dedica-se a um jardim que possui em terreno ao lado de sua casa. Lá, ele esquece do ‘mundo real’ e cuida dos pés de goiaba, jabuticaba, figo e laranja, entre outros.
Em sua sala na Unesp, o professor jornalista conversou com a reportagem do Jornal da Cidade sobre (lógico) jornalismo, ditadura militar (1964) e outros assuntos polêmicos, como a obrigatoriedade do diploma para a profissão.
Jornal da Cidade - Como o jornalismo entrou em sua vida?
Zarcillo Rodrigues Barbosa - Eu tinha 15 anos de idade e morava na minha cidade de nascimento, em Marília, quando um colega de classe me convidou para ser revisor de um jornal onde o irmão dele ocupava anteriormente esse cargo. Então, comecei na profissão no Correio de Marília. Foi uma época em que aprendi muito porque trabalhava com o dicionário do lado e toda dúvida que tinha ou palavras que não sabia o significado, usava-o. Não tinha vergonha ou constrangimento de procurar palavras no dicionário, sem preguiça. Fui registrado em carteira como jornalista revisor, em uma época que não havia ainda uma legislação que regulamentasse a profissão de jornalista. Isso só aconteceu em 1969. Quando veio a lei, então, eu já era jornalista e tinha direitos adquiridos.
JC - Qual foi sua graduação?
ZB - Fiz direito. Na minha época, não havia muitas escolas de comunicação como existem hoje, apenas a Cásper Líbero, em São Paulo. Como era advogado, sempre exerci no Sindicato dos Jornalistas posições como a de presidente na Seccional de Bauru e diretor do Sindicato dos Jornalistas do Estado de São Paulo.
JC - Como foi a experiência de viver na época da ditadura militar? O senhor sofreu alguma ameaça?
ZB - Sim, sofri ameaças. Todos os jornalistas da época sofreram censura também. A gente era chamado constantemente ao Departamento de Ordem Política e Social. Haviam serviços de segurança da Polícia Militar, da Polícia Civil, do Exército. Você tinha que, volta e meia, prestar conta para esses órgãos porque qualquer coisa que escrevesse contra a ditadura militar era sujeito a punição arbitrária e era até torturado.
JC - Durante a ditadura, o senhor passou por alguma situação de risco? Teve matérias censuradas?
ZB - Sim, várias matérias minhas foram censuradas. Uma vez, fiz uma entrevista com o Plínio Salgado, um político muito em evidência naquela época, adepto de um fascismo disfarçado. Isso me causou sérios dissabores e ameaças de prisão por causa dessa matéria.
JC - Houve agressão física?
ZB - Não, nunca sofri agressão física. Mas, nessa época eu estudava direito na faculdade e a gente tinha um jornalzinho interno. Fazíamos muitas gozações sobre os professores e escrevíamos sobre a situação política também. Então, quando houve a implantação da ditadura militar, um dos professores se tornou chefe representante desse novo poder da nação. Ele, muito conservador, tinha uma frente anticomunista em Bauru. Ele começou a mandar prender todos os alunos que tinham posições ‘esquerdistas’. Nessa época, muita gente foi presa e ficou vários meses de cadeia.
JC – Faça uma comparação do jornalismo da época da ditadura, em que o jornalista era ameaçado, com o de hoje.
ZB – Esse é um ponto fundamental. Na época da ditadura, tínhamos uma censura oficial. Então, eram os órgãos encarregados da disciplina político e social que deixavam ou não um material ser divulgado. Antes, os jornalistas eram obrigados a colocar as coisas nas entrelinhas para provocar alguma reação no sistema. Não se fazia nada explicitamente porque sabia-se que isso levava à prisão.
JC - E agora, como é a censura?
ZB - Agora, a censura acabou, a Constituição Federal proíbe qualquer tipo de impedimento à liberdade de expressão, mas temos um fator ainda muito mais perigoso que é a autocensura. O jornalista está dento de um establishment e tem medo de feri-lo. Ele trabalha em uma grande organização e se autocensura para não ferir os interesses econômicos daquela empresa. Isso é muito pior ainda porque é um agravante à própria censura.
JC - Como o senhor veio para Bauru?
ZB - Em Marília, era correspondente do jornal Última Hora, dirigido por Samuel Weiner, um dos maiores editores do Brasil. Naquela, época, ele já tinha um jornal que era nacional, coisa que ainda hoje não existe. Aqui em Bauru, tinha uma grande sucursal que cobria todo o Interior do Estado. Fui convidado para ser o chefe da redação da sucursal do jornal Última Hora em Bauru. Isso foi em 1964. Aproveitei que aqui tinha uma boa faculdade de direito e resolvi estudar. Esse jornal, como era pró Jango Goulart, quando houve a revolução militar, foi depredado aqui em Bauru. Um professor da faculdade, que era da frente anticomunista, tinha um grupo de extrema direita que ele reunia. Encapuzados, eles invadiram a Redação e quebraram tudo.
JC - O senhor estava dentro da Redação quando isso aconteceu?
ZB - Não porque era a noite. Estava na faculdade. Mas, sempre que saía da faculdade, passava por lá para checar os últimos acontecimentos. Naquela noite, encontrei a Redação toda depredada. O jornal acabou fechando em Bauru.
JC - Mesmo com esse fato triste, o senhor acabou gostando de Bauru e resolveu ficar?
ZB - Sim, gostei muito da cidade. Depois que o jornal fechou, fui convidado para ser o redator-chefe do jornal da época, Diário de Bauru. A cidade é muito agradável, aberta. É uma cidade que não tem dono. Não tem aquelas famílias tradicionais predominantes. Você não precisa pedir licença para fazer alguma coisa. Depois, acabei por acaso na Unesp. Na época, a universidade não estava encampada ainda. Um professor de comunicação e ética me convidou para dar aula. Como fiz direito e era um assunto que conhecia, resolvi aceitar.
JC - Na sua opinião, aprende-se o jornalismo na faculdade ou na prática, na Redação?
ZB - Eu procuro conciliar as duas coisas. Como ministro disciplinas técnicas (na Unesp), preciso estar atualizado. Vou sempre às Redações de jornal e de rádio para me manter atualizado quanto aos avanços tecnológicos. Estamos em uma fase, agora, de grande transformação, a digitalização. Também dou uma disciplina de edição. No meu tempo, se editava com fitas magnéticas. Hoje, a edição se faz computadorizadamente, tudo é digital. Quando comecei a trabalhar em rádio, por exemplo, o gravador era do tamanho de uma mala de viagem, era pesadíssimo. E hoje, coloca-se o gravador no bolso. Não concebo um professor em uma área técnica que não tenha vivência no mercado de trabalho.
JC - Na sua opinião, qual o papel do jornalista?
ZB - O jornalista tem como principal papel ser solidário com a sociedade. Ele precisa solidarizar-se com o povo, que é a maioria. Ele deve defendê-lo também. Em segundo lugar, tem o dever de ser pluralista. A sociedade democrática sobrevive graças ao entrechoque de opiniões, que devem ser contempladas. Todos os envolvidos no caso devem ser ouvidos, coisa que o jornalista às vezes esquece de fazer. Em terceiro lugar, o jornalista deve estar compromissado com a modernidade.
JC - Como assim estar compromissado com a modernidade?
ZB - A modernidade significa contemplar os temas de vanguarda. Porque, caso contrário, a sociedade não avança e corre o risco de ficar estagnada. Para contemplar os temas da vanguarda, o jornalista precisa ser corajoso. Imagina você fazer, há 20 anos, uma matéria sobre o sexo na terceira idade. Seria um escândalo!. Hoje é uma coisa comum porque alguns tiveram coragem de atacar esse tabu.
JC - O senhor defende que jornalista deve ‘respirar’ jornalismo 24 horas por dia ou essa idéia é muito idealista, e na verdade, sobrecarrega ainda mais o profissional?
ZB - Exatamente. O jornalista sofre o complexo de Clark Kent. É o Super-Homem que é jornalista e tinha o ideal de acabar com a bandidagem na sua cidade. Então, o jornalista pensa que quando ele sai da escola e arruma seu primeiro emprego, a qualquer momento vai entrar em uma cabine telefônica, trocar de roupa, sair voando e acabar com a criminalidade. Ele vê, então, criminosos por todos os lugares e por todos os setores, inclusive debaixo da sua cama. Por isso, ele começa a se estressar porque quer ser jornalista 24 horas, mas sempre procurando combater o mal. Na realidade, não é bem isso. Nós temos, de um lado a imprensa e de outro a empresa. Eu pergunto, seria isso um dilema ou interesses conciliares? Por mais paradoxal que seja, o jornalista não pode ir contra a sociedade. Temos que conciliar as coisas, sem esquecer das responsabilidades sociais.
JC - O senhor é contra ou a favor a obrigatoriedade do diploma de jornalismo?
ZB - Sou contra. Sempre fui. Mesmo no tempo em que era dirigente sindical, sempre fui contra ressalvando logicamente que não estava falando em nome da instituição. Acho isso um obscurantismo. O jornalismo precisa de todas as formas de pensamento e de especialistas em todas as áreas. Comunicação não é uma ciência, é uma disciplina imatura que depende de outras áreas do conhecimento para se tornar eficaz em benefício da sociedade.
JC - Sobre sua família, o senhor tem quantos filhos? Eles não quiseram seguir o jornalismo?
ZB - Tenho duas filhas. A Paloma escreve maravilhosamente bem, mas está estudando para fazer concurso. Ela quer ser juíza ou promotora. A Paula faz biomedicina, em Londrina (PR).
JC - E como conheceu sua esposa?
ZB - Minha esposa é jornalista. A Eliane (Barbosa) começou a trabalhar muito jovem, no Diário de Bauru. Ela entrou lá como estagiária, embora tenha feito direito também porque naquela época não existia escolas de comunicação. Então, fiquei conhecendo-a na Redação. Na época, eu era casado em primeira núpcias como uma pedagoga que não aceitava de forma nenhuma a minha jornada de trabalho que nunca foi menor do que 12 horas por dia. Eu era diretor de Redação e me senti no dever de ir lá cedo, à tarde e à noite, acompanhar todo o fechamento da edição. Ela não aceitava e acabou havendo a separação. Foi aí então que eu me casei com a Eliane que, como é jornalista, pode compreender melhor o meu trabalho.
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Perfil
Nome: Zarcillo Rodrigues Barbosa
Idade: 67 anos
Cidade de Nascimento: Marília
Família: Eliane Barbosa (esposa), Paloma (filha) e Paula (filha)
Cor: Todas
Filme: do Almodóvar
Livro: Guerra e Paz (Leon Tolstoi)
Nota 10: Ética
Nota 0: Falta de ética