Todo mundo sabe que o Orkut é útil tanto para quem deseja rever velhos amigos, quanto para os interessados em conhecer novas pessoas. Polivalente, os sites de relacionamentos também são bastante usados por aqueles que estão descontentes com os problemas da Bauru.
Nos espaços destinados aos bairros, os fóruns de discussão tornaram-se uma espécie de canal onde cidadãos costumam expressar sua insatisfação em relação à falta de infra-estrutura existente nos lugares onde vivem.
Robson Braguetto, 25 anos, é dono de uma comunidade dedicada ao Núcleo Presidente Geisel. No começo, o técnico em farmácia (ele trabalha no Hospital Estadual) pretendia apenas reunir os “orkuteiros” residentes no bairro. “Só que com o passar do tempo as pessoas começaram a usar os fóruns de discussão para reclamar de dificuldades existentes na vizinhança, como buracos no asfalto, sujeira nas ruas ou terrenos baldios”, conta.
Uma das carências mais lembradas pelas pessoas, segundo ele, é a falta de supermercados na região. Além da dedicada ao Núcleo Presidente Geisel, Braguetto é dono de outra comunidade, a Praça Paz - Bauru SP.
“Fiz porque aquele era um lugar no qual eu me sentia bem. Ia até lá todo final de semana e achava muito gostoso. Mas isso foi antes da ‘molecada’ chegar”, diz ele, em referência aos problemas envolvendo adolescentes registrados há alguns meses na região onde a praça está localizada.
No começo deste ano, o local vinha sendo alvo freqüente da ação vândalos e usuários de drogas. A Polícia Militar (PM) foi obrigada a realizar diversas blitz para conter os abusos dos menores. Só na noite de 15 de maio, por exemplo, os agentes tiveram de revistar aproximadamente 70 jovens suspeitos que estavam no lugar.
Mesmo com trégua dos garotos, Braguetto garante que a comunidade continua recebendo diversas reclamações, sobretudo da parte das pessoas que moram na vizinhança da praça. “É uma pena que tenham deixado a situação chegar a este ponto”, lamenta.
Mas as críticas às mazelas da cidade não aparecem apenas nos sites dedicados aos bairros. O Orkut conta atualmente com diversas espaços voltados para problemas específicos existentes em Bauru.
A comunidade “Eu já caí num buraco em Bauru”, por exemplo, existe desde junho o ano passado e já possui quase 400 membros.
“Foi um protesto que resolvi fazer”, conta Diego Martins Moço, 26 anos, dono da página. “Sempre ouvia reclamações a respeito de asfalto ruim existente em Bauru, e achei que seria importante criar uma comunidade onde as pessoas pudessem reclamar.”
Ele próprio foi vítima má pavimentação das ruas da cidade. Ele trafegava pela avenida Nossa Senhora de Fátima (antes das obras de recapeamento, realizadas em julho deste ano) e acabou caindo em um buraco de um metro de diâmetro existente no local. “Era noite e chovia muito, não consegui enxergar”, diz ele.
Os prejuízos sofridos por Moço foram superiores a R$ 300,00. “Tive que trocar dois pneus, arrumar a suspensão. Fiquei tão revoltado que resolvi montar a comunidade na Internet”, explica ele.
Apesar de o Orkut estar bastante difundido entre as pessoas, Moço duvida que sua comunidade consiga fazer com que o problema dos buracos nas ruas da cidade ao menos diminuam. “Se o prefeito possuir acesso ao Orkut, quem sabe...”, pondera.
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Premonição
Na opinião dos próprios membros do Orkut, as críticas feitas no site de relacionamento têm poucas chances de levar à solução de problemas reais. “Reclamar na Internet é mais uma forma de desabafo que as pessoas encontraram”, acredita Robson Braguetto, responsável por duas comunidades relacionadas à Bauru.
O fisioterapeuta Thiago Breve Dias, 23 anos, conhece bem essa realidade. Há alguns meses, ele caiu com seu carro em buraco existente na avenida Nossa Senhora de Fátima (Jardim América). “Era noite, e não consegui enxergar que ele estava lá”, conta.
A queda custou cerca de R$ 250,00 a Dias. “Tive de mandar arrumar as rodas dianteiras do carro. O pior é que eu havia trocado as duas, uma semana antes”, lamenta. Revoltado, ele resolveu registrar Boletim de Ocorrência numa delegacia próxima. Sua intenção era mover uma ação judicial contra a prefeitura. “Mas conversei com um advogado, que me desaconselhou a levar isso em frente. Só daria dor de cabeça para mim”, diz.
Para diminuir a raiva, Dias decidiu enviar uma reclamação à comunidade Eu já caí num buraco em Bauru, da qual faz parte (ele é cunhado do criador do site, Diego Martins Moço). “Sei que os responsáveis por arrumar o asfalto da cidade não ligam para isso”, reconhece. O buraco onde Dias caiu ainda não foi tapado pela prefeitura.
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Praticantes de Le Parkour marcam treinos via Internet
Espaço de contatos virtuais, o Orkut também permite que diversas atividades reais sejam desenvolvidas por meio dele. Para os praticantes do Le Parkour (“O Percurso”, em francês) o site de relacionamentos têm papel fundamental. “Nossos treinos costumam ser marcados pela Internet”, explica o estudante Bruno Aguilera, um dos responsáveis pela comunidade Le Parkour - Bauru, que reúne 243 participantes atualmente.
Além permitir que os praticantes da modalidade mantenham contato com freqüência, o site de relacionamentos tornou-se importante ferramenta para divulgação da disciplina física surgida na França. Lucas Fernando Oliveira Mello, 15 anos, tornou-se praticante do Le Parkour (atividade na qual os praticantes tentam superar obstáculos urbanos com saltos e escaladas), depois de conhecer a comunidade existente no Orkut.
“Assisti uma reportagem sobre o assunto na TV e resolvi procurar na Internet um lugar para praticar aqui em Bauru”, conta. Atualmente, ele e outros 15 jovens costumam se reunir com regularidade para treinar em locais como o parque Vitória Régia.
Depois dos treinos, os garotos costumam usar o fórum de discussões da comunidade para fazer avaliações sobre as atividades. “É mais uma forma da gente melhorar a nossa técnica”, acredita Aguilera.
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Aikido
Artes marciais pouco divulgadas no Brasil também têm espaço garantido no Orkut. A comunidade Aikido Bauru, por exemplo, tem 87 participantes. O site surgiu após uma viagem a Assis feita pelo professor Antônio Rafael Moron (foto). “Foram dias muito especiais para mim. Como nem todos que treinavam comigo puderam ir, resolvi criar a comunidade para transmitir essa experiência aos alunos”, conta. Moron refere-se à visita que fez a um professor de aikido residente em Assis.
Ele conta que várias pessoas passaram a enviar relatos, vídeos e fotos do encontro à comunidade do Orkut. “Foi uma espécie de resgate da memória”, diz Moron. De acordo com ele, o site serviu para aproximar praticantes os de Bauru aos de outras cidades. “Hoje em dia o aikido de Bauru mantém bastante contato com o de lugares como Assis, Avaré, entre outros”, afirma.
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Ajuda para quem procura emprego
Apesar de muitos utilizarem o Orkut como espaço para diversão, diversas comunidades existentes no site de relacionamento são voltadas a assuntos sérios. Em Bauru, pelo menos três delas tentam ajudar profissionais em busca de oportunidade no mercado de trabalho.
O técnico em informática Fernando Henrique Amado, 21 anos, é responsável por uma comunidade do gênero, que conta com 77 membros. “Quando montei o site, no começo do ano, eu estava atrás de emprego. Resolvi procurar no Orkut algum espaço onde pudesse arrumar trabalho, mas não encontrei nenhum voltado especificamente para Bauru”, conta.
Para Amado - que atualmente está empregado -, a comunidade poderia ser maior, caso fosse mais divulgada. “As pessoas ainda não perceberam esse potencial da Internet”, pensa.
Hoje em dia, além da comunidade de Amado, a cidade conta outros dois espaços do gênero no Orkut. Um deles tem, inclusive, fins lucrativos. Gregório Capoanni Lorenzetti é dono de uma agência de empregos, e resolveu utilizar o Orkut como ferramenta de negócios. Ele capta currículos pelo site - já recebeu mais de 500, desde que a comunidade foi criada.
“Quando alguém é contratado, cobro um taxa pelos serviços prestados, equivalente a uma parte do primeiro salário recebido pela pessoa”, explica Lorenzetti. Até o momento, ele garante ter encaminhado cerca de 50 pessoas para o mercado de trabalho.