Ser

Supermercado de estilos

Cristiane Goto
| Tempo de leitura: 12 min

Moda. A palavra é simples, mas tem significado amplo, que ultrapassa as passarelas e interfere no comportamento do ser humano. Isto porque desde a Idade Média, onde a indumentária ganha novas formas e estilos, ela vem acumulando funções. Além de ser objeto de desejo e de consumo, é o recurso mais democrático para que as pessoas se integrem e se sintam aceitas na sociedade. A opinião é de Luciana Parisi, consultora de moda e professora do Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac) em São Paulo.

Com mais de 20 anos de experiência na área, Parisi divide seu tempo entre as aulas, a administração de uma empresa de consultoria de moda - da qual é proprietária - viagens para pesquisar tendências no Exterior e a realização de palestras em diversas cidades do País. Na última terça-feira, ela esteve em Bauru participando do 4.º Senac Fashion Day, evento que durante três dias antecipou as últimas tendências em roupas e acessórios para o inverno 2007 e promoveu uma discussão sobre marketing e profissionalização da moda.

De acordo com Parisi, os últimos dez anos no Brasil foram marcados por um processo de amadurecimento da moda como negócio. “Moda é business. Quando se consegue organizar isto de alguma forma, é possível evoluir”, aponta, em entrevista ao Jornal da Cidade. Ela explica que apesar de ser uma aquisição recente hoje há uma massa crítica de profissionais com formação acadêmica especializada no mercado de moda no País e, de modo geral, as indústrias têxteis e de confecção, o jornalismo de moda, as escolas e agências de modelo estão amadurecendo e oferecendo mais informação para o mercado consumidor. No bate-papo a seguir, Parisi traça um panorama de evolução moda, com destaque para o processo de fragmentação da sociedade e suas conseqüências, o consumo pela emoção, luxo e diversidade de estilos.

Jornal da Cidade - O que é moda?

Luciana Parisi – Moda é imitação. Ela surge no final da Idade Média, onde as pessoas se vestiam basicamente da mesma forma: as mulheres com grandes e longas túnicas, e os homens com colants ajustados. Um filme que representa bem a indumentária desta época é “Romeu e Julieta”. Com a chegada de estrangeiros e o maior trânsito de pessoas pelo mundo, aparecerem novidades e novas maneiras de se vestir e, desde então, diluiu-se a idéia do ser humano como coletivo. A moda não tinha apenas a função de ser objeto de desejo e de consumo, mas também de organizar a sociedade dentro de suas castas. E isto se dá por meio da imitação. A pessoa imita e se identifica com determinada pessoa ou estilo, enxerga nisto uma forma de distinção e passa a adotar os códigos que estão vigendo naquele momento. É uma definição simples, mas, basicamente, a moda é o veículo mais democrático que existe para que as pessoas se integrem e se sintam pertencentes a um grupo porque isto é atávico ao ser humano.

JC - Por que a moda é importante?

Parisi – A moda é fundamental como integradora na sociedade. Todo ser humano busca esta sensação aconchegante e acolhedora de pertencer a algo ou algum grupo. E a moda é a maneira mais democrática que existe de fazer com que as pessoas se integrem e se sintam aceitas; por isto existem tantas tribos. Uma forma interessante de distinção é quando alguém se dispõe a inovar para que sinta única e diferente, dependendo de sua atitude e do seu grau de influência que ela tem no seu meio, passa a ser rapidamente imitada e aí deixa de ser única e diferente. E o processo continua, como num círculo.

JC – E as pessoas estão buscando, cada vez mais, se tornarem únicas?

Parisi – Sim. Na verdade o que se observa hoje é um fenômeno relacionado ao marketing. Hoje se fala de marketing pessoal porque a sociedade atingiu um nível de fragmentação onde é quase impossível falar de marketing plural e massificado. Esta fragmentação se dá de forma mais acelerada a partir do início da globalização. Quando se observa este fenômeno de grande mobilização dos povos e da interação entre as culturas, o processo de individualização ganha mais força. E a sociedade está vivendo um dos momentos mais exacerbados neste sentido.

JC – E quais são os reflexos deste processo de individualização?

Parisi – Quando uma sociedade é muito fragmentada, isto se reflete nos processos de trabalho. Antigamente haviam grandes empresas onde as pessoas tinham empregos. Depois elas passaram a trabalhar como autônomas e, mais tarde, as próprias empresas passaram a terceirizar os serviços. Nesta fragmentação do modelo de trabalho, as pessoas já não se sentem mais fazendo parte desta empresa como uma grande família. E as famílias também se pulverizaram. Há pessoas que acumulam no currículo mais de três casamentos e filhos de outras uniões. Então este sentimento de estabilidade e de pertencer a um grande núcleo está muito ameaçado.

JC – E como o processo de fragmentação da sociedade interfere na moda?

Parisi - A moda vai buscar respostas para tudo o que acontece com o ser humano e oferecer formas de realizar as fantasias porque ela trabalha com sonhos desejos. O marketing vai identificar quais são estas mudanças de comportamento e suas conseqüências, sejam elas materiais ou não, e apontar caminhos para que todos os segmentos de consumo - como as indústrias têxtil, de moda, automobilística e design - possam desenvolver produtos de acordo com as necessidades do ser humano. Muitas vezes estas necessidades nem foram identificadas pelo próprio consumidor, em diversas situações ele nem sabe que precisa daquilo. Um exemplo clássico deste marketing é o celular. Nunca se imaginou que o indivíduo precisasse de um telefone móvel, mas o próprio aumento dos deslocamentos das pessoas fez com que surgisse um aparelho para acompanhá-las.

JC – Como os recursos tecnológicos interferem na evolução da moda?

Parisi - A tecnologia influencia muito as mudanças de comportamento. Por meio do celular e computador, a sociedade mudou muito a maneira de se comunicar, de se relacionar e até de se movimentar porque quando se tem a facilidade de estar em contato com pessoas do mundo inteiro sem precisar sair de casa, tudo muda completamente. Isto afeta o comportamento das pessoas e, consequentemente, o que elas buscam em termos de consumo. Vivemos hoje a era do consumo pela emoção. Isto se tornou uma frase-chavão no marketing porque não há mais como “pegar” este consumidor. Tudo está disponível.

JC – Isto pode ser um reflexo do supermercado de estilos, conceito discutido pela mídia e teóricos da moda, que diz respeito à variedade de produtos originados das subculturas urbanas?

Parisi - Hoje se tem acesso a praticamente tudo. O consumidor tem a liberdade de fazer suas próprias escolhas. Na busca por ser diferente, por exemplo, as pessoas já chegaram a interferir no próprio corpo por meio do uso de tatuagens. Há ainda aqueles que buscam a diferenciação através de cicatrizes, alguns se cortam para criar relevos e mudar a pele, outros usam alargadores de orelha ou piercings. Tudo isto é uma forma extrema de buscar o embelezamento do corpo, mas é preciso ressaltar que a questão da beleza é muito relativa. Na África, as mulheres-girafa, com vários anéis no pescoço, são consideradas bonitas. Na Jamaica, as mulheres bonitas são as gordas. Então os padrões estéticos mudam muito de uma cultura para outra.

JC – Neste contexto, as cirurgias plásticas também influenciam a moda?

Parisi – A moda já tem um papel cirúrgico e cosmético, porque uma vez que as pessoas têm feito tantas transformações no corpo através das cirurgias plásticas e da medicina cosmética, a moda também se inspira nisto e busca soluções menos agressivas, como a utilização de tecidos com alta performance e modernos na confecção de roupas, por exemplo.

JC – Na Semana da Moda de Milão, modelos extremamente magras não ganharam destaque nas passarelas. Qual sua avaliação sobre o assunto?

Parisi - Na verdade, é uma forma de crítica porque no início era bonito falar de cuidados do corpo e sobre os últimos recursos tecnológicos para a estética, mas quando se rompe o limite do que é sensato, normalmente os criativos – onde se incluem os designer e criadores de moda – têm condições de captar estas transformações e fazer críticas. Há uma crítica feita à robotização do comportamento do ser humano e isto se reflete nos desfiles, onde as modelos surgiram como andróides nas passarelas, usando leggings com articulações, como se fossem de robôs. Isto é um posicionamento fantasioso porque ninguém vai usar legging com articulação de metal, mas não deixa de ser uma crítica, uma sinalização e até mesmo uma busca de como atingir o ideal de bem-estar dentro de uma sociedade tão automatizada e mecanizada. E tudo isto interfere bastante na moda.

JC – Mas no dia-a-dia, não dá para usar tudo o que é apresentado na passarela.

Parisi – É mais do que sabido que a moda vive da venda de acessórios e não dos modelitos apresentados nas passarelas. Está ocorrendo um movimento engraçado: antes havia o acessório de moda, agora moda é o acessório do acessório porque o que movimenta as grandes cifras é a venda de óculos, bolsas, perfumes e cosméticos. A maioria da população mundial não tem condições de comprar um vestido extremamente caro, mas se a pessoa admira muito o trabalho da Prada, por exemplo, pode comprar um óculos da marca em cinco parcelas que estará ostentando o logo da marca com a qual ela se identifica.

JC - O que leva as pessoas a consumirem marcas de moda?

Parisi – Todo ser humano sonha com o luxo. Sempre. Qualquer pessoa, de qualquer camada social, sonha com o luxo, que é inspirador. Há muitos livros falando sobre a necessidade do luxo na vida das pessoas. O filósofo Joãozinho Trinta diz que quem gosta de miséria é intelectual e é por isto que ele levava para a Sapucaí o máximo do luxo possível nos desfiles da Beija-Flor. Há pessoas, por exemplo, que moram de forma miserável mas economizam todo o dinheiro que podem para, uma vez por ano, ir para a avenida vestidas de dourado, com o intuito de realizar o sonho de rainha e nobreza. Desde a pessoa mais humilde até o milionário, todos têm o desejo e a fantasia de viver o luxo. Isto está na moda e se comprova na quantidade de dourado e brilhos que se observa na moda atualmente. Como nem todo mundo pode se cobrir de ouro, usa-se o dourado.

JC - Muitos confundem a moda com futilidade. Por quê?

Parisi – Porque até muito pouco tempo, logo após a 2.ª Guerra Mundial, não havia o conceito do acesso à moda e do luxo contemporâneo como existe hoje. O luxo era restrito a uma elite. A partir do momento em que a economia mundial se reabilita e se reorganiza, as pessoas passam a ter acesso à momentos de mais glamour e elegância, mas de novo isto ficava mais restrito a uma camada mais elitizada da população. Hoje em dia não é mais assim. A Daslu, por exemplo, oferece condições de pagamento em 10 vezes. É o luxo acessível a mais pessoas. A idéia de que a moda é futilidade está ligada à idéia de luxo e elite, mas todos têm acesso à moda. Qualquer um pode criar moda e influenciar pessoas ao seu redor, sem que isto esteja ligado ao fútil. Muitas pessoas fazem moda panfletária usando a indumentária como veículo de expressão, protesto, engajamento político ou defesa de causas sociais, entre eles a campanha de prevenção do câncer de mama. E isto não pode ser chamado de futilidade. Apesar disto, para algumas pessoas, a idéia de moda como futilidade ainda é um tabu que existe por conta da passagem de uma época de restrição onde poucas pessoas tinham acesso ao luxo, mas hoje a sociedade evoluiu para uma democratização da moda.

JC – A democracia continuará ditando os passos da moda?

Parisi – Sim, principalmente com a entrada da China e Índia, que são dois gigantes da economia, abastecendo o mundo com produtos acessíveis e em grande volume de forma veloz. Não existem mais barreiras. Um anel de cristal usado pela personagem da novela, por exemplo, pode ser encontrado no camelô por R$ 10,00. Não importa o preço que se pagou quando se trata de uma fantasia e objeto de desejo.

JC - Programas com dicas de elegância e estilo, como “Hoje em Dia”, “Tudo a Ver” e “GNT Fashion” viraram febre na TV. Além disso, o luxo é tema muito abordado na novela “Cobras e Lagartos”. A que a senhora credita esse cenário? O Brasil amadureceu no universo da moda?

Parisi – Há dois grandes nomes que projetaram o nome do Brasil no cenário internacional de moda. Um é o Paulo Borges, idealizador e produtor do São Paulo Fashion Week e do Rio Fashion Week, e Gisele Bündchen. Com a explosão do fenômeno Bündchen, muito das atenções dos outros países se voltaram para o Brasil e o Paulo Borges soube aproveitar muito bem este momento. Então os últimos dez anos no Brasil foram marcados por um processo sério de amadurecimento da moda como negócio. Moda é business. Quando se consegue organizar isto de alguma forma, é possível evoluir e o Brasil está atingindo um grau importante em termos de moda. O País ainda não pode se orgulhar de sua capacidade de criação e inovação em termos de design de moda, mas, sem sombra de dúvida, seu sistema de moda está mais consolidado e estruturado. A formação acadêmica em moda é uma aquisição recente no Brasil, mas hoje há uma massa crítica de profissionais com formação acadêmica especializada no mercado de moda e, de modo geral, as indústrias têxteis, de confecção, o jornalismo de moda, as escolas e agências de modelo estão amadurecendo e oferecendo mais informação para o mercado consumidor. E quanto mais informado este público está, mas ele valoriza e reconhece a importância das coleções que estão sendo disponibilizadas no mercado.

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