Buenos Aires - O presidente Néstor Kirchner não teve alternativa ontem a não ser demitir o mais polêmico - mas também o mais útil - dos membros de seu governo, o líder piqueteiro Luis D’Elía, que era o subsecretário de Terras, e que, anteontem, saiu em defesa do Irã, dizendo que os EUA e Israel manipulam a Justiça argentina para levar ao rompimento das relações entre os dois países.
O episódio, comemorado pela oposição, que enxerga um enfraquecimento do poder “bélico” de Kirchner sem D’Elía, ocorre após a Justiça argentina determinar a captura internacional de nove iranianos - entre eles o ex-presidente Ali Akbar Rafsanjani (1989-1997).
A ordem, que deu início a uma troca de farpas da Argentina com o Irã, está baseada no suposto envolvimento dos então governantes daquele país e de membros do Hizbollah, grupo xiita do Líbano, no atentado a bomba na sede da Associação Mutual Israelense Argentina (Amia), que matou 85 pessoas em Buenos Aires, em 1994.
As declarações do piqueteiro, que ontem se reuniu com o principal diplomata iraniano na Argentina, criaram enorme mal-estar para Kirchner com a Justiça e com a comunidade judaica argentina, que defende o rompimento do país com o Irã. O funcionário apresentou uma carta de renúncia, que foi aceita pela Casa Rosada - mas D’Elía não teve escolha. Disse que mantém “excelente relação” com Kirchner e que se orgulha de ter estado no governo.
“Há vários meses os EUA pressionam pela minha renúncia. É um lobby que eles têm feito e que está baseado na prática do terror sobre a qual podem testemunhar o povo do Afeganistão e os palestinos”, disse. “Os EUA e Israel pretendem usar um tema doloroso para a Argentina em função de uma política que ameaça a república islâmica e põe em perigo a humanidade.”
A Argentina segue pressionando Teerã por uma manifestação oficial sobre as declarações de um promotor iraniano de que seria pedida, como reação à ordem argentina, a captura internacional do promotor argentino do caso Amia, Alberto Nisman, e do ex-juiz do caso, Juan José Galeano.