Tribuna do Leitor

Faça o que eu digo, não faça o que eu faço: a falsa consciência ecológica de uma rede de fast food


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Não sou uma grande apreciadora de fast food, mas estive na última semana em uma lanchonete de uma famosa rede de serviço rápido com filiais espalhadas por todo o mundo. A cada mês, salvo engano, a matriz elege um assunto para divertir, distrair, informar ou - por que não? - “educar” os consumidores por meio do impresso que vem forrando a bandeja. Pois bem, o tema do mês é “Como salvar o mundo fazendo coisas simples!”. São apresentadas aos clientes diversas dicas sobre economia de água e energia elétrica, respeito ao meio ambiente, combate e diminuição da poluição do ar. Além disso, o impresso contém orientações e dicas sobre reciclagem de lixo: “separe, recicle e reutilize seu lixo”; “prefira produtos que venham em embalagens recicláveis”; “uma latinha de alumínio pode ser reciclada inúmeras vezes”. Por fim, a dica derradeira: “estimule as pessoas à sua volta a terem mais consciência ecológica, repassando todas essas dicas”.

Nobre iniciativa da rede de restaurantes! (Considero incompreensível e lamentável que nos dias de hoje grande parte das pessoas ainda não separe o lixo reciclável). Infelizmente, contudo, uma iniciativa calcada na velha máxima: “faça o que eu digo, não faça o que eu faço”. Terminada a refeição, qual não foi a minha surpresa ao constatar que não havia na lanchonete uma lixeira destinada às embalagens recicláveis. Procurei o gerente da loja na esperança de que se tratasse de um equívoco de minha parte, acreditando que, talvez, a separação do lixo fosse feita posteriormente, enfim, na expectativa de que a respeitada lanchonete mantivesse alguma coerência entre o discurso e a prática.

Expectativa frustrada. Saí de lá com a promessa do gerente de que “levaria a idéia adiante” e com as embalagens recicláveis para depositar em uma lixeira apropriada em algum outro local. Fiquei me perguntando, no entanto, se essa situação é restrita à unidade de Bauru ou comum a todas as franquiadas. Se essa prática for comum a todas as lojas do país (ou do mundo?), calculemos a quantidade de lixo que poderia estar sendo reciclada e acaba poluindo o planeta.

Afinal, como o próprio impresso da bandeja faz questão de alertar, copos plásticos levam de 200 a 450 anos para se decompor na natureza. Saí da lá também com a certeza de que o discurso ecológico é meramente um misto de marketing e hipocrisia. Uma espécie de tentativa de convencer o consumidor de que a empresa “faz a sua parte”, para que ele possa consumir mais e mais big-sanduíches e dormir em paz, afinal, a responsabilidade pelo lixo que produziu não é mais dele. Nem de ninguém.

Juliana Campregher Pasqualini - Psicóloga

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