Várias tradições se combinam em “Sonhadora”, que também estréia hoje nos cinemas, a começar pela que o caracteriza na linhagem dos gêneros e subgêneros da indústria: é um filme de família, a exemplo dos que levam a chancela da Disney, mas realizado pela DreamWorks - estúdio hoje pertencente à Universal e que, muitas vezes, se propõe a ser uma “Disney do S” (de Spielberg).
O cenário, propício no imaginário norte-americano a uma história sobre integridade e honestidade, é o interior do Kentucky, onde vivem três gerações da família Crane. O patriarca, Pop (Kris Kristofferson), mora sozinho em uma das casas de uma pequena fazenda que, tempos atrás, foi um amplo e movimentado haras administrado por ele.
Pop não conversa com o filho, Ben (Kurt Russell), que foi loteando e vendendo a propriedade para manter a mulher, Lily (Elisabeth Shue), e a filha, Cale (Dakota Fanning). Como se procurasse manter o padrão familiar de distanciamento, Ben anda relapso com Cale (e um tanto frio com Lily).
As relações entre todos eles serão transformadas, no entanto, a partir de um acidente com uma égua de nome espanhol, Soñador. A partir daí, outra tradição entra em cena: a dos filmes sobre cavalos - como “O Corcel Negro” (1979), produzido por Francis Coppola - nos quais se depositam esperanças de redenção (do animal e de seres humanos).
“Sonhadora” também se filia à escola consagrada por Shirley Temple, a do “star system” infantil. Dakota Fanning (“O Gato”, “O Amigo Oculto”, “Guerra dos Mundos”) não é apenas a estrela que viabilizou o projeto, mas a atriz em torno de quem o filme se organiza. É uma menina precoce, com tudo o que isso carrega de positivo e de negativo, emprestando ao filme seu carisma.
O diretor estreante John Gatins (roteirista de “Coach Carter - Treino para a Vida” e “Hard Ball - O Jogo da Vida”) monta o circo para que ela domine o picadeiro.
Em companhia, claro, da bela Soñador: haveria algo mais “família” no cinema do que celebrar a comunhão entre uma criança e um animal?