Brasília - Um dia depois que a existência de regiões invisíveis aos radares de controle de tráfego na área da floresta amazônica foi cogitada pela comissão que investiga o acidente do vôo 1907, a maior tragédia da aviação civil brasileira com 154 vítimas, o ministro da Defesa, Waldir Pires, voltou a negar problemas. “Não há buraco negro. As informações que tenho é que os espaços de radar de Brasília e Manaus até se superpõem.”
A existência de buracos ou áreas onde é falha a comunicação entre os radares em terra e as aeronaves sempre foi relatada por pilotos experientes, mas ganhou novos contornos depois que um Boeing-737/800 da Gol se chocou no ar com um jato executivo Legacy, da Embraer no dia 29 de setembro. Anteontem, o coronel Rufino Ferreira, que comanda as investigações, sugeriu a comprovação de que tais áreas existam, fato negado reiteradas vezes pelo Comando da Aeronáutica, responsável pelo controle do tráfego aéreo no país e superior hierárquico de Ferreira. Quando Waldir Pires se refere às informações de que dispõe está falando justamente do Comando da Aeronáutica.
O ministro concedeu entrevista minutos após a instalação de um grupo de trabalho que irá discutir mudanças no sistema de controle do espaço aéreo brasileiro. Pontuou, como opinião própria, a sugestão de se criar no país um novo órgão ou departamento civil para cuidar do tráfego aéreo, hoje subordinado ao Comando da Aeronáutica, militar portanto. Ainda não é possível avaliar as chances de prosperar a proposta de Pires. A seu favor, pesam como argumentos o fato de o controle de tráfego aéreo estar em mãos civis em boa parte do mundo e de ser ele mesmo o coordenador do grupo.
“Provavelmente deverá ser (civil). É assim em qualquer lugar do mundo, um serviço público, uma instituição pública.” Eventuais mudanças na legislação ou na forma de trabalho dos controladores serão divulgadas em até 60 dias.
Categórico ao tratar dos “buracos negros” nos radares do país, o ministro da Defesa foi menos enfático ao ser questionado sobre a possibilidade da volta de longos atrasos nas viagens de final de ano. “Todas as medidas possíveis estamos realizando. Não há outras”, disse. Tais ações se referem à convocação de 60 controladores aposentados ou afastados e a realização de concursos para 64 novas vagas no controle. Por fim, a Aeronáutica transferiu 18 controladores para Brasília e promoveu em duas ocasiões o confinamento de militares.
O Comando da Aeronáutica suspendeu ontem as buscas ao corpo do bancário Marcelo Paixão, única vítima do acidente do Boeing 737-800, da Gol Linhas Aéreas, que não foi encontrada e, portanto, não-identificada. Após 49 dias de busca, os militares concluíram que tudo o que era possível já havia sido feito.