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Cotidiano do cárcere no palco

Cristiane Goto
| Tempo de leitura: 8 min

“Enquanto Ela Não Vem” é o nome de um grupo teatral formado por 15 detentos do Instituto Penal Agrícola (IPA) de Bauru e também expressa um dos sentimentos comuns vividos no cárcere: a ansiedade da espera pela liberdade. Para muitos deles, o cárcere é um parênteses que divide o dia em que foram presos e o momento no qual serão libertos. Poucos têm consciência das dificuldades econômicas, sociais e culturais que encontrarão para sobreviver fora da prisão.

É justamente neste cenário que se desenvolvem os roteiros das peças criadas por Vânia Maria Fonseca da Costa, diretora teatral do “Enquanto Ela Não Vem” desde o início de sua fundação, em 2001. Com dez espetáculos no currículo, além de diversos espetáculos de dança-teatro, o grupo apresentou-se em diversos espaços de Bauru e região. No mês passado, foi homenageado pela Academia Bauruense de Letras (ABLetras), com o troféu “Pelas letras até a eternidade”.

A última peça, “Grades”, retrata o dia-a-dia no cárcere por meio do olhar dos reeducandos do IPA. O texto, escrito coletivamente, conta a história de Zé, um homem simples que é preso por criar uma jaguatirica, espécie em risco de extinção. Julgado e condenado, Zé precisa lidar com situações difíceis, como a linguagem judiciária e a dos próprios detentos.

De acordo com Vânia, as experiências, sentimentos e depoimentos – todos verídicos – servem de matéria-prima para a produção dos espetáculos. Nascida em Itapetininga, Interior de São Paulo, Vânia se formou em direito. Fez teatro na adolescência e, nesta época, tentou montar um grupo teatral. Mas conseguiu realizar o sonho depois de anos trabalhando como funcionária da Secretaria do Estado da Segurança Pública. A seguir, conheça mais sobre o grupo e uma compartilhe a avaliação de Vânia sobre as dificuldades vividas pelos detentos e de como a arte pode auxiliar no processo de ressocialização.

Jornal da Cidade - Como o teatro ajuda no trabalho de integração social dos detentos?

Vânia Fonseca – A arte, em especial o teatro – área em que trabalho - possibilita o autoconhecimento. E à medida que eles se conhecem, se sentem capazes de fazer coisas interessantes para si mesmos e para as pessoas que estão à sua volta. Isto leva a uma apreciação positiva, interferindo no resgate da auto-estima dos detentos. Desta forma, eles podem reconhecer seu caráter de humanidade e perceber que podem viver de outra maneira. Se conscientizam de que não precisam sair da prisão e voltar a fazer as mesmas coisas que os levaram para lá.

JC – Quais são os principais desafios de um grupo teatral formado por reeducandos?

Vânia – Existem dificuldades em relação aos atores, como a questão da baixa escolaridade, a educação social e a ética carcerária, que acabam interferindo neste processo porque a arte precisa estar livre de preconceitos. Muitas vezes, quando proponho algum exercício, prática ou jogo, preciso ter o cuidado de explicá-los bem e traçar um paralelo. Estabeleço um limite dizendo para eles que, até o portão da prisão, falam e têm o comportamento de reeducando. Mas quando eles entram na sala de teatro, os detentos têm uma disciplina que precisa ser seguida. E esta é muito mais difícil e severa.

JC – Por quê?

Vânia – É a disciplina do cidadão. Os reeducandos precisam aprender, exercitar e cumpri-la. Eles precisam deixar a ética carcerária para entender o processo, os jogos, a finalidade de cada exercício teatral e o porquê estamos desenvolvendo determinada atividade.

JC – O que busca o grupo “Enquanto Ela Não Vem”?

Vânia - “O projeto tem dois grandes objetivos. O primeiro deles é em relação ao resgate da auto-estima do reeducando, e o segundo é despertar a sociedade para o caráter de humanidade do sentenciado.

JC – Existe muito preconceito em relação ao ex-detento?

Vânia – Se eu dissesse para alguém: “Você contrataria um indivíduo que saiu do IPA hoje?” É muito complicado e isto não é culpa da sociedade ou das pessoas, e sim da época na qual vivemos. E neste sentido, gosto dos resultados que o teatro proporciona. Quando nos apresentamos em uma escola ou em qualquer outro espaço, as pessoas esquecem que os atores são presidiários e em muitos casos, conversam com eles no final da apresentação, além de cumprimentá-los e os tratá-los bem. Então fora do universo carcerário e depois das apresentações, os comentários, olhares e atitudes das pessoas demonstram que o projeto faz sentido.

JC - Qual é a visão dos sentenciados em relação à liberdade?

Vânia – A liberdade, para eles, é como se fosse algo mágico. Os reeducandos acreditam que ela é uma varinha de condão que faz com que todos os problemas sejam resolvidos. Mas a partir do momento em que os presos conquistam a liberdade, começa o grande desafio, que muito provavelmente eles não irão vencer.

JC – Quais são as principais dificuldades neste sentido?

Vânia – Os reeducandos terão que encontrar um modo de sobreviver economicamente e, grande parte deles, muito precocemente, já tem família. Alguns têm até mais de uma, e com filhos. Então, as necessidades e a atual conjuntura do Brasil e do mundo não permitirá que as coisas sejam resolvidas rapidamente. Será preciso persistência, disciplina, querer menos e tentar ser feliz com o básico.

JC – E os detentos compreendem este contexto?

Vânia - Alguns entendem. Outros não consideram o tempo que eles estão presos como vida. Encaram como um parênteses entre o dia em que foram presos e o dia da liberdade. Isto gera muita ansiedade no dia-a-dia, que se agrava muito quando o processo de liberdade já está adiantado, e muitas vezes pode dificultar trabalho teatral. Poucos têm o comedimento de saber esperar sem também causar ansiedade no grupo. É um aspecto difícil de lidar. Alguns chegam a ficar doentes e até provocar brigas para ser excluído do grupo porque eles têm que fazer alguma coisa para extravasar a ansiedade da espera pela liberdade – a qual não resolverá a situação. Neste contexto, a saída temporária é outro processo desgastante que gera muita ansiedade.

JC – Por que motivo?

Vânia – Ela é o parênteses entre a prisão e a liberdade. Costuma durar cinco dias e, no final do ano, alguns dias a mais. Os reeducandos contam os dias para a saída temporária. Esta ansiedade faz mal e contamina toda a unidade. É tão contagiante que poucos dias antes da saída o reeducando fica contaminado por uma passividade e aceitação de qualquer tipo de humilhação porque o que ele só pensa na saída. Em compensação, os agentes de segurança e corpo de funcionários ficam dez vezes mais exacerbados na exigência de disciplina.

JC – Qual é a importância de livros e filmes que mostram o cotidiano dentro do cárcere, como “Estação Carandiru”?

Vânia – Acredito que eles ajudam a despertam a atenção da sociedade. Por exemplo, no filme, de acordo com a avaliação de alguns reeducandos que já estiveram na detenção, o autor romanceou e pintou esta história de cor-de-rosa. Esta não é uma visão radiográfica da situação, é a opinião deles. Mas eu, particularmente, considero o trabalho interessante, porque as pessoas precisam refletir sobre o tema. Não é porque o “Carandiru” foi implodido, que se pode esquecer o horror vivido na unidade de detenção.

JC - Existem dificuldades em conseguir verba para a realização do trabalho?

Vânia – Não existe destinação de verba.

JC – E como são montados cenários e figurinos, por exemplo?

Vânia – Vou citar como exemplo a montagem da peça “Grades”. Como não tínhamos dinheiro, fizemos uma montagem que não precisa de adereços, cenário e nem figurino. Por exemplo, para o personagem de juiz, seria difícil paramentar um ator e criar um cenário para isto. Então trabalhamos com a estilização do símbolo da Justiça. E existem outras cenas. Em uma delas os presos estão dormindo e começam a ter pesadelos baseados em depoimentos verídicos. Muitas vezes eles não são vividos pelo ator, mas todos são fatos verdadeiros, alguns pessoais e outros referentes a motins. Há outra cena em que os presos são colocados em uma cela e, a partir daí, eles perdem seu caráter de humanidade e adquirem o de fera ao ir para a “jaula”. Para isto, os atores caminham em posição de fera, em câmera lenta, até ir para outra cena. Ela não tem muitos recursos, mas é muito forte.

JC - Em sua opinião, os integrantes do grupo podem se profissionalizar?

Vânia – Até um tempo atrás, acreditava que isto era difícil porque a arte, em geral, requer muita persistência e disciplina. E o reconhecimento, inclusive em questões financeiras, é complicado. Achava improvável que eles trabalhassem como atores, uma vez que eles vêm com uma educação formal deficiente e de um meio social bastante precário economicamente e socialmente. Mas percebi que eles poderiam atuar na área técnica do teatro, onde poderia ocorrer algo em relação à profissionalização.

JC – Existem exemplos de experiência neste sentido?

Vânia – Vou citar três casos que considero interessante. O primeiro é de um rapaz que está fazendo teatro experimental em São Paulo e paralelamente trabalha em outro setor. Isto faz três anos. Tem um detento que já ganhou prêmios em um festival de Pederneiras e foi indicado para um trabalho teatral. Existe ainda um reeducando que está há dois anos no grupo e passou por uma experiência como oficineiro de arte. Depois de uma saída temporária, ele chegou em casa, e sua filha tinha que fazer um trabalho na área cultural. Então ele ajudou a filha e suas amigas, todas na faixa dos 14 anos, a escrever, fazer a coreografia, cenografia e diálogos. Eles ensaiaram e montaram uma pequena peça para o trabalho escolar, que ganhou repercussão. A escola da filha e também outras instituições procuraram por ele e agora estou tentando conseguir que ele faça um curso profissionalizante para poder entrar no mercado de produção teatral.

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