Política

Morador pede cemitério à prefeitura

Marcelo de Souza
| Tempo de leitura: 3 min

O vigia Daniel da Silva, 58 anos, causou espanto ao fazer um pedido inusitado na Prefeitura e na Câmara Municipal. Ele solicitou aos poderes públicos a doação de um terreno para construção de um cemitério voltado à comunidade judaica de Bauru e região. De acordo com ele, o pedido visa atender as necessidades de judeus e simpatizantes do judaísmo, que não possuem em Bauru uma área destinada aos restos mortais.

Silva não vê nada de mais em um pedido como esse. Segundo ele, a religião não permite que judeus sejam enterrados em cemitérios cristãos. “Nós, que somos simpatizantes do judaísmo, temos que ter o nosso cemitério, ter nossos rituais. Então, nós não podemos ser enterrados em outros cemitérios onde há aquele monte de cruz”, diz.

O vigia alega que apesar de pequena, a comunidade judaica será muito beneficiada com a construção de um cemitério. “Sem espaço adequado, temos que enterrar nossos mortos no fundo do quintal”, salienta, lembrando que não há na região nenhum espaço apropriado.

Silva ressalta que não faz questão de localização do terreno, e também destaca que o cemitério será construído com recursos próprios dos judeus de Bauru. “Nós mesmos vamos cercar, cuidar, plantar grama. Só queremos que o terreno seja nos limites do Município”, afirma.

O principal problema no pedido do vigia é que a prefeitura não tem projeto sequer para cemitérios que atendam a população em geral. Conforme o JC noticiou no dia 2 de novembro, dois dos quatro cemitérios administrados pela Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural de Bauru (Emdurb) estão lotados.

O secretário do Meio Ambiente, Carlos Barbieri, explicou que é necessário dispor de uma área grande para instalar um cemitério, o que dificulta o processo. Ele ressalta a dificuldade de encontrar uma área adequada para cemitério, que atenda as regras ambientais. Uma delas é que os cemitérios não sejam construídos sobre lençóis freáticos, para evitar contaminação do solo e da água.

Análise

A prefeitura informou, por meio da assessoria de imprensa, que o pedido feito pelo vigia Daniel da Silva será analisado pela Secretaria Municipal de Planejamento (Seplan), que recebe esse tipo de solicitação. No entanto, não é possível, segundo a assessoria, adiantar o que poderá ser feito nesse caso. “Os técnicos da Seplan analisam o pedido e se for viável deferem; se não, rejeitam o pedido”, explicou a assessoria da prefeitura.

No caso do Legislativo, o presidente da Câmara Municipal, Toninho Garmes (PSDB), arquivou imediatamente a solicitação. “Recebi o pedido e arquivei imediatamente, porque não é de competência da Câmara”, diz Garmes. O presidente não quis se manifestar sobre a solicitação do vigia.

Divisão

Pode ser que a solicitação do vigia nem chegue ao Legislativo Municipal através de projeto de lei, já que a prefeitura pode indeferir e arquivar o pedido. No entanto, o assunto é, sem dúvida, polêmico. O Jornal da Cidade consultou dois vereadores para saber a opinião deles sobre o assunto.

Para o vereador Antônio Faria Neto (PDT), vai depender muito da legalidade da proposta. “Pelo que eu sei, a prefeitura não pode doar para instituições religiosas. Mas se for legal, eu voto favorável, independente da religião”, disse Faria, que é católico.

O vereador ressaltou que a religião não tem peso na hora de votar projetos na Câmara, o importante, para ele, é a legalidade do projeto. “Se a prefeitura mandar para lá e for legal, não tem problema”, frisa, afirmando desconhecer se já houve algum pedido semelhante na cidade.

Já o vereador Primo Mangialardo (PV) se mostrou totalmente contra a solicitação. Segundo ele, terrenos devem ser doados para quem vai realizar algum empreendimento na cidade, ou alguma obra de cunho social. “Não é nem por questão de religião. A doação de terrenos deve ser para empreendedores. E outra, a comunidade judaica é uma das mais ricas do mundo, não dá para dar terreno para quem tem dinheiro desse jeito. Nós, cristãos, entendemos que o povo judeu tem uma promessa de serem prósperos. Deus fez a eles essa promessa, e quem é próspero não pode ficar pedindo algo dessa natureza”, disse Mangialardo, incrédulo com o pedido.

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