No Museu Arqueológico de Nápoles existe uma estátua da “Vênus Calipígia”, que significa “de grandes nádegas”, atributo das mulheres muito desejado pelos romanos. O brasileiro, com certeza, também herdou essa preferência. Esse culto ao corpo é ainda mais antigo, vem dos gregos que tinham Vênus – nome latino de Afrodite - como deusa do amor e da beleza. Era uma das 12 divindades do Olimpo, nascida da espuma formada pelo sêmen de Urano (o Céu). A mulher ideal, até meados do século 20, sempre foi robusta, de ancas largas, sinal de fertilidade. Esse modelo inspirou o pintor Botticelli (O nascimento de Vênus). Foi tema de obras-primas de Ticiano e Velázquez, na Renascença. Já no impressionismo, as banhistas de Renoir são todas gordinhas e, nos tempos atuais, temos o colombiano Botero, com suas simpáticas figuras rechonchudas. Meu pai dizia que osso, só na sopa, para ajudar no sabor do caldo.
Hoje em dia o culto ao corpo tomou-se de amores pelos ossos, uma espécie de valor passado pelos estilistas da moda que querem somente cabides exibindo suas roupas. Ana Carolina, a modelo de 21 anos, não foi a primeira vítima a morrer de falência de órgãos vitais, provocada por anorexia nervosa. Muitas outras jovens, como aquela cantora de voz angelical do The Carpenters – quem viveu nos anos dourados sabe de quem estou falando – também encontrou a morte de tanto tomar anfetaminas e laxantes. Os gregos procuravam se igualar aos deuses do Olímpo, concebidos pelos artistas como figuras fortes e saudáveis. As mocinhas de hoje perseguem o êxito na realização efêmera no mundo da moda, com um padrão oposto - e idiota – de estética.
Leio que na internet existem mais de uma centena de comunidades virtuais “Pra quem é só esqueleto e não tem vergonha disso”. Existem 120 orkuts, freqüentados por meninas de 13 a 17 anos, carinhosamente chamados de Ana (pró-anorexia) e Mia (pró-bulimia). A bulimia é uma prática, igualmente fóbica, de ir ao banheiro depois da refeição para devolver tudo o que foi comido, antes que o estômago absorva as vitaminas e proteínas.
Esse estágio patológico começa a ser combatido em alguns países. A Defensoria do Menor da Espanha começou a processar organizadores de desfiles que exigem modelos com massa corporal abaixo da variação considerada normal pela Organização Mundial da Saúde. Em Milão, uma das capitais mundiais da moda, espontaneamente os estilistas estão adotando os mesmos cuidados porque não querem ser processados por expor a perigo a saúde das modelos.
Para conservar o corpinho esquelético a modelo aprende a passar uma semana à base de maçã e água. Há outras técnicas como a de passar frio para obrigar o corpo a queimar calorias ou, tomar vinagre em jejum para queimar gorduras. Além de ser um sacrifício inútil, por ineficaz, essa prática demonstra o grau de loucura endêmica que vai tomando conta das jovens, a ponto de exigir, aqui também, firme proteção das autoridades ligadas ao menor.
Anunciou-se, outro dia, que a espécie humana só tem meio por cento de carga genética que o diferencia do Homem de Neanderthal, o nosso neolítico tataravô . O DNA do chimpanzé também não difere muito do nosso. Seria, portanto, irracional, esse desejo de cultuar diferenças quando, na estrutura, somos muito iguais aos primatas que sempre privilegiaram os mais fortes.
Nesse aspecto, particularmente, meu lado macaco fala alto: adoro uma fofinha.
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC