O abandono do uso de preservativos é apontado como o principal responsável pelo avanço da aids entre os heterossexuais. Casais que normalmente usam camisinha nas primeiras relações sexuais acabam dispensando essa proteção quando o relacionamento torna-se mais estável. Com isso, tanto mulheres como homens ficam mais expostos ao contágio do vírus HIV.
Foi o que aconteceu com Elaine (nome fictício), 34 anos, que há seis meses descobriu que estava contaminada. Depois de sair de um relacionamento conturbado, ela engatou um novo romance com seu atual companheiro, no início deste ano. No começo, o preservativo era peça indispensável durante o ato sexual. Depois foi ficando em segundo plano até desaparecer completamente da vida do casal.
Quando ficou sabendo que o companheiro havia namorado uma garota com aids, já era tarde demais. Os exames comprovaram o que ela temia tanto. Chorando, ela lembra que o namorado pediu desculpas por não ter contado antes. Hoje, ambos continuam juntos. Mas Elaine ainda não se conforma com a doença. A exemplo dela, outras mulheres têm se contaminado com o vírus da aids por não exigir de seus parceiros o uso de camisinha sempre.
Pesquisa de comportamento e atitude feita pelo Ibope mostra que houve um aumento no uso de preservativo, até mesmo entre os mais jovens. Entretanto, para a coordenadora do programa municipal de DST/Aids, Eliane Monteiro, mesmo com esse avanço, a mulher ainda tem dificuldade de negociar o uso da proteção em razão da resistência que os homens ainda têm à camisinha - principalmente quando o relacionamento se torna estável. Segundo ela, esse é um dos motivos que levaram a um crescimento considerável de mulheres entre os portadores de HIV.
De acordo com Angela Tayra, diretora da Divisão de Vigilância Epidemiológica do programa estadual DST/Aids, na década de 80, quando a doença foi descoberta, havia uma predominância de homossexuais e bissexuais entre os infectados. Aos poucos, a aids foi avançando também nas relações heterossexuais (entre homens e mulheres) e a participação feminina na estatística foi crescendo sem parar.
No início, para cada 16 homens infectados havia uma mulher. Hoje, de acordo com dados da Secretaria Municipal de Saúde, essa relação caiu para três por um, e deve cair para dois por um nos próximos levantamentos, segundo adianta Eliane Monteiro.
O médico infectologista Fernando Monti também acredita que hoje em dia as pessoas estão se protegendo mais de uma possível contaminação. Mas, segundo ele, é preciso não descuidar. “Um dia que a pessoa deixa de usar o preservativo pode colocar tudo a perder”, ressalta Monti.
Tendência nacional
Segundo a coordenadora do programa DST/Aids em Bauru, a “heterossexualização” da epidemia da aids é uma tendência nacional. A cada ano, a participação desse grupo aumenta nas estatísticas oficiais.
Levantamento da Secretaria Municipal de Saúde mostra que 38% dos infectados em Bauru são heterossexuais. Homossexuais e bissexuais respondem por 13%, enquanto usuários de drogas injetáveis são 33% do total.
Seja entre heterossexuais, homossexuais ou bissexuais, o sexo sempre foi o principal responsável pela disseminação do vírus HIV.
No próximo dia 1 de dezembro será celebrado o Dia Mundial de Luta Contra a Aids. O foco este ano será a prevenção entre as pessoas que já convivem com o vírus. A idéia é mostrar que, com o tratamento, é possível ter uma melhor qualidade de vida, novas perspectivas, o desejo de relacionar-se afetivamente, trabalhar, estudar, ter filhos, enfim ter projetos de vida.
De acordo com o Ministério da Saúde, destacar isso é importante não apenas para as pessoas que possuem o vírus, mas para toda a sociedade.