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Sônia Mozer: ‘Tenho fome de mundo’

Lígia Ligabue
| Tempo de leitura: 8 min

Milhares de alunos bauruenses a conhecem das salas de aula. Centenas de milhares de brasileiros, dos livros didáticos que escreve. Sônia Maria Mozer começou a lecionar história aos 16 anos e garante que até hoje é uma estudante da matéria. Professora de engenheiros, jornalistas, de crianças, adolescentes e adultos do supletivo, ela não nega que dar aulas é o que mais gosta de fazer.

“Dar aula é uma cachaça, sabe? Quando você entra na sala de aula, você pode estar com algum problema de saúde, familiar ou emocional. Mas assim que você entra na sala, ele desaparece”, observa. “Há aula em que você tem a impressão que houve uma sintonia perfeita. Que você e os alunos trabalharam na mesma onda. É aí que está a cachaça, aí que dá o barato”, brinca.

Para os amigos, Mozer deveria investir também em outro projeto: publicar seus diários de viagem. A historiadora conhece Ásia, Europa, América do Sul e do Norte e reúne fotos, postais e recordações de cada país que conheceu, juntamente de suas experiências em cada um deles.

Professora há 30 anos, com mais de seis mil alunos no currículo, confessa uma coisa que não domina: a direção. “Quando me tornei motorista, verifiquei que era muito ruim mesmo. E resolvi parar com isso”, conta.

Em seu apartamento na Vila Universitária, Mozer conversou com o Jornal da Cidade sobre história, viagens e os desafios de ser professor no Brasil.

Jornal da Cidade – Como você começou a lecionar história?

Sônia Maria Mozer - Quando fazia o clássico, hoje ensino médio, optei por humanas. E eu já gostava de história, mas tive no clássico uma professora que me marcou muito, Maria Isabel de Carvalho. Por influência da professora Maria Isabel, eu me tornei uma estudante de história, coisa que eu sou até hoje. Porque eu acho que você não ensina história. Você ensina a pessoa a gostar dela, a aprender história. Foi isso que a Maria Isabel me ensinou, e é isso que eu procuro fazer. Sempre morei em Bauru. Fiz colegial no Ernesto Monte e estudei na Universidade do Sagrado Coração (USC). Um curso excelente de história, que a faculdade mantém. Comecei a dar aulas na rede pública em Avaí, em Bauru e na rede particular.

JC – Como foram as primeiras aulas?

SM - Eu leciono desde o primeiro ano de faculdade, com 16 anos. No início, tive problema que muitos professores têm. Você tem duas preocupações quando começa a trabalhar como professor. Você quer ser querida pelos alunos e quer manter uma disciplina de trabalho. E isso é um erro fundamental, eu acho. As duas coisas estão erradas. Você não está ali para ser amiga. Você não está ali para ser sargento. Você está ali para ensinar, essa é a sua profissão. Então, depois que eu superei esses erros, eu consegui trabalhar com mais satisfação. E provavelmente os alunos também.

JC – Como foi o colegial?

SM - Eu tive sorte de fazer um colegial muito bom na Escola Estadual Ernesto Monte. Era uma referência em escola por aqui. Para você ter uma idéia, eu já viajei muito utilizando o inglês e o francês que eu aprendi no Ernesto Monte. Francês com Diva Fleury e inglês que eu aprendi com Deise Massadi. Eram professoras maravilhosas que não falavam português na sala de aula. Nós representávamos peças nesses idiomas no colegial.

JC – E a faculdade?

SM - Eu fiz um curso muito bom aqui na USC, que já era boa naquela época. Mas uma faculdade depende muito de como você encara o curso. Eu acho que “fazer faculdade” é uma expressão muito boa. Você tem que fazê-la, transformar aqueles anos de estudo numa coisa significativa. Então eu acredito que qualquer estudante que se limite a receber as laudas e fazer os trabalhos indicados não fez faculdade. Ele passou por ela. Ele fez uma espécie de ritual de passagem. Ele passou pelo ensino superior porque isso é uma regra. E eu tive uma sorte de não ter só bons professores que me estimularam, mas de estudar. Por isso disse no início que sou uma estudante de história, continuo estudando e continuo me maravilhando.

JC - Muitos alunos não gostam de história. Como despertar o interesse do estudante?

SM - Sempre vai depender do trabalho do professor. Às vezes, eu escuto a pessoa falar que não gosta de história, ou que gosta, por ser uma matéria decorativa. Isso não existe. Você decora números de telefone. História significa você se debruçar sobre o passado com os olhos de hoje, procurar entendê-lo, porque esse passado criou o presente que a gente vive. E esse passado é extremamente interessante e apaixonante.

JC – Como a história pode ser trabalhada em classe?

SM - Eu tenho uma grande amiga, a professora da USC Vera Telles, e nós escrevemos dois livros didáticos, que foram publicados pela Editora Ática e comprados pelo Ministério da Educação (MEC). O MEC comprou 400 mil exemplares do livro! E agora nós estamos escrevendo mais quatro deles. Uma coisa que nós procuramos mostrar nesses livros é a história do homem comum, da criança, como é que viviam as crianças antigamente, como é que evoluíram seus direitos. O que as pessoas comiam, o que elas vestiam, como elas se divertiam.

JC - Saindo somente da história dos grandes personagens.

SM - Não que eles não existam, que eles não façam parte. Você não pode estudar o século 19 sem Napoleão Bonaparte. Você não pode estudar o século 20, infelizmente, sem Hitler. Mas quem faz a história, quem cria a civilização, é o homem comum. E é essa história do homem comum que a gente tenta resgatar. E uma das coisas que a gente mostra é que esse trabalho que o historiador faz parece muito o trabalho de um detetive. Então uma das propostas de trabalho que fazemos é que os professores, no início de seu trabalho, proponham um enigma ao aluno. Nós colocamos, por exemplo, uma situação de uma pessoa que foi encontrada morta. Damos a descrição do corpo, das roupas, dos objetos e papéis que ela tinha e baseados nisso, os alunos recriam os últimos dias da dita falecida e descobrem como ela morreu. Porque o historiador faz isso. Ele interroga os mortos.

JC – Como é continuar a ser professor no Brasil, com tantos problemas?

SM - Dar aula é uma cachaça, sabe? Quando você entra na sala de aula, você pode estar com algum problema de saúde, familiar, emocional. Mas assim que você entra, ele desaparece. Ele torna a aparecer depois, mas enquanto você está lá, ele some. É um trabalho envolvente, você está desenvolvendo um raciocínio histórico, que é acompanhado pelos alunos, que eles interferem, participam. Não é toda aula que é maravilhosa. Mas pelo menos uma vez por dia, você tem uma aula em que tem a impressão que houve uma sintonia perfeita. Que você e os alunos trabalharam na mesma onda. E aí que está cachaça. Aí que dá o barato.

JC – Além das aulas, quais são seus projetos?

SM - Pessoalmente eu tenho um projeto, que não é meu. É um projeto por insistência de amigos. Eles querem que eu publique os meus diários de viagens. Eu gosto muito de viajar e faço diários de toda viagem. Porque eu preciso digerir, metabolizar tudo o que vi. E é claro que é uma coisa muito íntima. Mas acontece que meus amigos começaram a viajar e utilizar os diários, copiar. Esse é um projeto que está na cabeça e que eu só não abandonei por insistência dos amigos.

JC – Quais locais a senhora já visitou?

SM – América do Sul, México, Estados Unidos, Europa, Marrocos, Egito, Turquia, Índia e China. Em julho, cheguei da Europa. Fiquei na Suíça e na França. Agora não tenho dinheiro, mas meus próximos planos são África do Sul, que eu não conheço, Malásia, Cingapura, e uma parte da Escandinávia e das repúblicas bálticas que eu também não conheço

JC – Como se planejar e preparar tantas viagens?

SM - Eu acho que uma viagem rende mais de seis meses. Primeiro você planeja, e isso não significa apenas procurar passagens, excursões e tal. Planejar para mim, significa estudar aquilo que eu pretendo ver. Então eu leio muito antes de ir. E depois aproveito cada momento. Eu não faço compras. Eu compro livros e despacho porque eles são pesados. A cada viagem, eu despacho cerca de seis a oito quilos de livro. E depois da viagem, ela fica te fazendo companhia por muito tempo. Você passa a considerar cada pedaço de terra, cada povo que você visitou. Ele não é mais um nome, um mapa. São pessoas que você passa a se interessar pelo destino. Além disso, viajar elimina de você qualquer preconceito porque você percebe que, embora as culturas sejam diferentes, nós somos demais de parecidos nas nossas expectativas, nos nossos sofrimentos, nas nossas alegrias. Geralmente quando eu chego no aeroporto, quando vejo um avião saindo para algum lugar, eu penso: que pena que eu não posso continuar. Dá fome de mundo. Eu falo que eu tenho isso: fome de mundo.

JC – Existe a cobrança por ter optado por ficar solteira e não ter filhos?

SM – A minha geração foi a primeira a ter mulheres solteiras sem sofrer rejeição. A carreira de mãe de família é maravilhosa e difícil e o grande barato é que hoje, ela é opcional. Quem tiver essa vocação, pode escolher, Mas quem não tem, não é mais rejeitada. E para a geração dos meus pais, por exemplo, isso era impossível.

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Perfil

Nome: Sônia Maria Mozer

Idade: 59 anos

Hobbies: viajar e ler

Livro: “Guerra e Paz” (Leon Toslstoi), “Odisséia” (Homero), “O Breve Século XX” (Erich Hobsbawn), obras de Guimarães Rosa e T. S. Eliot

Filme: “Central do Brasil” e obras de Sergei Eisenstein

Nota 10: Dalai Lama

Nota 0: Presidente americano George W. Bush

Personalidade histórica: Gandhi

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