Hoje é comemorado o Dia da Consciência Negra e, em Bauru, militantes do movimento negro apontam que o número de cidadãos que se declaram negros ou pardos está aumentando. Mas defendem que apenas quantificar a população não basta. É necessário investir em políticas públicas que tenham como premissa o fato que a questão racial não se limita à cor da pele, mas a um problema de exclusão social maior.
Dados do Censo 2000 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontaram que naquele ano 22,5% da população de Bauru - na época estimada em torno de 316 mil – se diziam negros ou pardos. Para Roque Ferreira, membro do Conselho Municipal da Comunidade Negra de Bauru e ativista do movimento negro, atualmente esse número poderia chegar a 38% dos bauruenses.
Ele considera essa porcentagem positiva, pois demonstraria que os trabalhos de afirmação realizados no País dão resultado. “Ao se afirmar como preta ou parda, a pessoa não aceita somente a matriz da pele, mas toda uma carga histórica de preconceito e exclusão”, observa.
Na semana passada, a Fundação Sistema de Análise de Dados do Estado de São Paulo (Seade) divulgou pesquisa informando que o Estado de São Paulo possui a maior população negra do Brasil. Utilizando números divulgados em 2005 pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), a população negra do Estado era de 12,5 milhões - 31% dos moradores de São Paulo.
Para Ferreira, a análise dos dados é importante porque demonstra o efeito de políticas de afirmação do movimento negro. “O percentual importa pelo resultado de que milhares de pessoas se reconheceram tal como elas são”, avalia. Para ele, ao se dizer negra, a pessoa assume uma situação econômica, uma posição política e isso também afeta seu equilíbrio interior.
Mas Ferreira aponta que apenas diagnosticar o número da população negra não é suficiente. “A partir daí, revelam-se outras situações. São necessárias políticas públicas capazes de atender essa população. Uma política pública universalista, não apenas para o negro”, aponta. Para ele, é fundamental debater a questão social na qual o racismo está atrelado. “Vemos que quem mais têm dificuldade de acesso aos seus direitos são moradores da periferia, os mais pobres. E majoritariamente, eles são negros”, pontua.
Salários
Outra questão levantada pelo IBGE é o abismo que ainda existe na remuneração entre brancos e negros. Os profissionais negros e pardos ganham em média 51,1% do que ganham trabalhadores brancos. Em setembro, negros e pardos recebiam R$ 660,45, na média das seis principais regiões metropolitanas do País, enquanto brancos tinham um salário médio de R$ 1.292,19.
A situação é pior na indústria, onde um trabalhador branco chega a receber 96,6% mais que um colega negro. Na área de construção civil, onde segundo dados do IBGE os negros e pardos são maioria, os brancos recebem salários 105,6% superiores.
Ferreira aponta que o único setor onde negros e brancos recebem salários equivalentes é no público. Como o ingresso no serviço público se dá através de concurso, os negros possuem as mesmas chances de acesso. “O problema é na hora de galgar postos e promoções”, critica.