A discussão em torno de possível pedido de abertura de Comissão Especial de Inquérito (CEI) pela Câmara Municipal de Bauru para apurar gastos nas áreas de Educação, Cultura e Administrações Regionais (Sear) realimentou ontem o movimento pela destituição de Paulo Sérgio Canalli da chefia de Gabinete do prefeito Tuga Angerami (sem partido). Canalli disse que não tinha conhecimento de conversação política nesse sentido até ontem à noite.
Entretanto, alguns vereadores, que não escondem o descontentamento com o relacionamento estabelecido com o homem considerado o braço direito do prefeito, estariam dispostos a aproveitar o ensejo e estabelecer apoio ao governo municipal nesta fase de denúncias contra possíveis irregularidades nas Administrações Regionais vinculado à garantia de substituição de Canalli do posto.
A troca, construída ainda sob especulação, não geraria embaraços políticos para parlamentares que não “engolem” o chefe de Gabinete, uma vez que o discurso é o de que a administração municipal conta com os procedimentos de investigação instalados desde agosto para as possíveis irregularidades, além do próprio prefeito ter enviado relatório preliminar de auditoria para a Câmara e o Ministério Público (MP).
Mas, como em boa parte dos ambientes de efervescência, a posição moderada de vereadores – o que compreenderia não assinar abertura de CEI – teria como sinal de bom relacionamento por parte do Executivo a troca de seu assessor mais próximo. Afinal, a reforma no secretariado pode ser a justificativa do dia também para este caso, como aconteceu com o esvaziamento de segmentos da Sear e demissão de assessores que, em alguns casos, depois apareceram como possíveis envolvidos em irregularidades de despesas nas Regionais.
Mas o mais difícil será costurar eventual acordo nesse sentido. Não se sabe se Angerami estaria disposto a ceder até este nível, substituindo alguns de seus homens de confiança.
De outro lado, a própria composição de eventual negociação ainda estaria distante de ser lapidada, já que nem o governo, nem a oposição, sabem onde vai dar a investigação em andamento sobre despesas da Sear. O que o prefeito tem certeza é que instalar CEI é um risco enorme, não pelo conteúdo a ser apurado, mas para o fato de que uma vez aberta, ninguém sabe onde vai dar.
‘Tesoureiro‘ e campanha
O que não ficou restrito às conversas políticas, desde o início da semana, são as relações entre os nomes que surgem nas apurações sobre despesas da Sear e a aproximação política de alguns desses personagens com a campanha eleitoral vencida por Tuga Angerami.
Ainda causa espanto, dentro e fora do governo, entender por que o homem que comandava as despesas da Sear, João Antonio Gonçalves, é o único a permanecer na pasta, contrariando argumento do próprio prefeito de que foi medida necessária dar férias até para o secretário, Nélson Fio, para que ele permanecesse distante das investigações.
Pelo mesmo raciocínio, a administração municipal não ponderou ontem sobre a permanência de João Gonçalves na pasta, ainda que agora não mais sendo ele o responsável pelas contas e cheques da área. Não se trata, evidente, de lançar suspeita sobre quem quer que seja sem fato concreto, situação que o JC, por exemplo, deixou patente apenas em relação a Farlei Henrique Lopes Ricci, porque relatório do próprio governo confirma que ele confessou ter utilizado dinheiro da secretaria para sua conta pessoal, falsificando assinaturas.
Mas onde resistem questões não respondidas, sobram questionamentos. Um deles é o de que João Antonio Gonçalves goza de prestígio junto ao prefeito há muitos anos, tendo atuado como financeiro da Cohab até antes e durante a passagem de Tuga Angerami pela presidência da companhia, ainda em 1989, e acredita tanto no governo que declarou doação de R$ 1 mil para a campanha eleitoral de 2004.
Sobre as doações, elas ainda mostram somente que ambos são próximos do grupo político do prefeito.
De outro lado, a sindicância da prefeitura apura se a compra de uniformes para a Sear, cujas notas fiscais foram emitidas pela empresa Marijós, estão regulares. A administração disse que está verificando o preço pago por cada uniforme e as quantidades entregues. Se tudo estiver certo, sobrará coincidência, uma vez que não se poderia levantar suspeita somente porque a proprietária da confecção é a esposa do então tesoureiro da Sear e colaborador financeiro da campanha eleitoral, sendo Nair Gonçalves.
Ainda assim, o que continua difícil de compreender é a permanência de João Antonio na Sear, sobre a qual residem as apurações e, pior, em sua antiga área de atuação: despesas e adiantamentos. Ou seja, João está mais próximo do governo do que apenas umcargo comissionado.
O vereador Primo Mangialardo (PV), um dos que verificam de perto esses temas, também foi o que questionou o prefeito, em audiência pública na Câmara, sobre quem foi seu tesoureiro de campanha. Angerami disse que foi seu próprio tesoureiro. Ontem, a assessoria de imprensa informou que o prefeito prefere não comentar sobre eventual pedido de CEI, por enquanto.
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Reverso
O diretor de jornalismo da Rádio Auri Verde, Márcio Miranda, iria à delegacia ontem à tarde para registrar queixa contra o titular da Secretaria das Administrações Regionais (Sear), Nélson Fio. O jornalista nega ter usado as palavras marginal e quadrilha em programa veiculado na última segunda-feira.
Os termos, relatados a Fio pela própria irmã Neusa Ribeiro da Silva, indignaram o secretário. Ele procurou um advogado e o Plantão da Polícia Civil para registrar os delitos de calúnia, difamação e injúria. Com o boletim, Fio espera ter acesso à gravação do programa, que foi ouvido na íntegra por Miranda, ontem pela manhã.
“Fiz críticas de que ele (o secretário) está sob suspeita, sob investigação. Consultei meus advogados e vamos representar contra ele e contra a irmã dele, que eu não conheço”, afirma o diretor de jornalismo da rádio.
Anteontem, ele informou que está acostumado a lidar com problemas dessa natureza, mas que nunca sofreu qualquer condenação. “Só falo aquilo que posso comprovar”, conclui.