Política

Fio atuou até como ‘contato publicitário’

Marcelo de Souza
| Tempo de leitura: 5 min

O secretário em férias das Administrações Regionais (Sear), Nelson Fio, atuou em 2005 como intermediário da veiculação de “matérias institucionais” para o jornal “Atalho”, cujo teor era sobre a administração municipal. Além de modificar o perfil de atuação da Sear durante sua gestão, o secretário se valeu de sua função para colaborar com publicação jornalística de temas da administração.

Conforme o JC publicou na coluna Entrelinhas, uma fita de vídeo mostraria o secretário e a jornalista Inês Ferreira (proprietária do “Atalho”) conversando sobre a elaboração de uma reportagem com o vice-prefeito e ex-presidente da Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural (Emdurb), Renato Purini (PMDB), e o ex-diretor de Limpeza Pública da empresa Jorge Monteiro.

Na ocasião, ambos ainda estavam na Emdurb e teriam chamado a jornalista para discutir a realização de reportagem sobre a empresa, vinculado a anúncios na mesma edição. A gravação expôs o secretário Nelson Fio, já que quem teve acesso ao conteúdo da fita afirmou que Purini discute os valores de uma possível publicação e é Fio quem, curiosamente, apresenta os preços do anúncio para o vice-prefeito.

Ainda que o conteúdo da gravação não venha a público, ele já é conhecido no meio político desde o episódio da crise do lixo. A própria Inês Ferreira confirma a história. Segundo ela, Nelson Fio já tinha atuado no jornal “Atalho” como membro do conselho editorial, antes da eleição de Tuga Angerami (sem partido). Ela lembra que o grupo “Levanta Bauru” a procurou em fevereiro de 2004, para criar um jornal com uma linha editorial de esquerda, com os membros do grupo bancando a impressão do jornal. Somente duas edições circularam com o conselho editorial.

Sem o respaldo do grupo “Levanta Bauru”, a jornalista Inês Ferreira continuou com o jornal, até que em 2005 foi novamente procurada por Nelson Fio, já nomeado secretário por Tuga Angerami.

A partir de então é que o secretário passa a confundir suas atribuições com a de um representante de veículo de imprensa, ainda que de maneira informal. “O Fio propôs que eu fizesse matérias institucionais, com várias secretarias, e algumas pessoas amigas do Fio iriam se cotizar para pagar a impressão do jornal, mas eram valores pequenos, de R$ 20,00 a R$ 30,00. Eram várias pessoas que se uniam e ajudavam a levantar o valor da publicação, dependendo do tamanho da matéria”, disse.

A jornalista também contou que não era ela que recebia o dinheiro. Segundo Inês, a vendedora do “Atalho” recebia em algumas empresas, com recibo e contrato do anúncio, e o restante era pago pelo secretário Nelson Fio. “Eu não ia receber dinheiro. Com exceção de algumas, que minha vendedora ia lá, recebia e dava recibos, a maior parte do dinheiro quem dava era o Fio. Ele pegava o dinheiro, juntava tudo e pagava”, lembrou.

Intermediação

A primeira, e única matéria publicada, foi sobre o contrato do Departamento de Água e Esgoto (DAE) de Bauru com os Correios, para a leitura de consumo de água na cidade. “Como essa matéria foi paga? Eles indicaram alguns patrocinadores para o jornal. Pessoas que até continuaram depois. O que aconteceu: minha vendedora foi lá, fez um contrato de publicidade e a pessoa investiu como propaganda, até que deu o valor da publicação da reportagem”, disse, explicando que as empresas eram indicadas pelo secretário e pessoas que o ajudavam.

O presidente do DAE, José Clemente Rezende, confirmou ter feito a reportagem no jornal “Atalho”, tendo sido Nelson Fio o intermediário entre ele e a jornalista Inês Ferreira. “O Fio me procurou, dizendo que a jornalista queria fazer uma reportagem sobre o DAE, sobre a questão dos Correios, mas ninguém falou em pagar nada”, disse.

Emdurb

De acordo com Inês, depois da matéria do DAE, ela não foi procurada para outras reportagens, até que o vice-prefeito de Bauru, Renato Purini, então presidente da Emdurb, a contatou, através do então diretor de Limpeza Pública na época, Jorge Monteiro, para que fosse feita uma matéria semelhante à do DAE, sobre a questão do lixo na cidade. “Ele (Monteiro) me ligou e marcou um horário para que eu fosse na Emdurb, porque ele queria fazer uma matéria sobre a questão do lixo. Perguntou quanto era, eu falei o valor, mas não recordo quanto foi”, frisou.

Em seguida, Inês diz que ligou para Nelson Fio, e ele resolveu ir junto. Ela lembra que ficou esperando por 40 minutos, até ser atendida por Purini e Monteiro. “Quando nós entramos, ele começou a agir como se não soubesse de nada, sendo que ele tinha pedido para a gente ir até lá. Eu só fui lá para fazer a matéria. Mas ele começou a perguntar sobre a matéria e dizer que não ia pagar para falarem bem dele. A conversa foi meio estranha, e ele perguntava muito como que era, se o prefeito sabia, essas coisas”, salientou.

Ela afirma ainda que Jorge Monteiro já tinha falado com Fio, antes de ligar para ela, e já sabia que a matéria seria paga. “Minha função era fazer a matéria, o pagamento ele ia fazer para o Fio. Eu até comentei que ele podia indicar pessoas para anunciar no jornal, como eu tinha feito com o DAE”, ressaltou, dizendo que saiu do local com a sensação de que a conversa havia sido gravada. “Comentei com o Fio: ele gravou a gente”, disse.

A jornalista faz questão de isentar Fio de qualquer irregularidade. De acordo com ela, o secretário agiu por amizade e não havia nada de ilícito no ato. “Ele é uma pessoa correta e só quis ajudar”, salientou. Inês também questionou o porquê da fita, gravada há um ano, ter vazado apenas agora, depois dos problemas na Sear. “Se o Purini desconfiava de alguma coisa, por que não denunciou na época e deixou para soltar essa gravação apenas agora?”, questionou.

Procurado pelo JC, o secretário das Administrações Regionais, Nelson Fio, não quis se manifestar sobre o assunto. “Prefiro ficar quieto”, limitou-se a dizer.

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