A prática de exercícios físicos é fundamental para a saúde de todas as pessoas. Estudos já comprovaram que aliada à uma alimentação equilibrada e sono saudável, ela podem garantir o bem-estar e boa qualidade de vida. Justamente por isto, um programa de atividades exige orientação especializada. Este é o papel do professor de educação física, único profissional que pode prescrever um treinamento adequado, explica Sandra Lia do Amaral, professora de educação física da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e pós-doutora em fisiologia pós-vascular.
“Antes de iniciar um programa de exercícios, a pessoa deve conversar com um profissional de educação física. Ele verificará a idade, peso e aptidão, e somente depois de uma análise do estado atual do indivíduo, poderá indicar os exercícios físicos. Mas sempre respeitando os princípios de treinamento”, aponta Sandra.
Em entrevista concedida ao Jornal da Cidade, ela explicou sobre a importância das atividades físicas, forma ideal de praticá-las e cuidados com dietas e uso de suplementos alimentares. Além disso, apontou algumas dicas para incluir movimentos na sua vida. No bate-papo a seguir, ela mostra que a falta de tempo não é desculpa para não se exercitar.
Jornal da Cidade - Qual a diferença entre atividade física, exercício físico e esporte?
Sandra Lia do Amaral - Quando a pessoa estiver tomando banho ou brincando de roda com seu filho, está fazendo uma atividade física. Qualquer movimento que tenha um gasto energético é considerado atividade física. Já o exercício físico é o movimento realizado continuamente e repetidamente, com um determinado objetivo. Cito como exemplo a realização de exercícios abdominais para fortalecer a musculatura da região do abdômen ou ainda caminhar três vezes por semana para diminuir a porcentagem de gordura. É um movimento programado. Tanto a atividade quanto o exercício físico visam a melhora da qualidade de vida. Já o esporte não visa saúde. Ele busca uma performance. O atleta faz qualquer esforço para atingir seus objetivos. Ele pode estar lesionado, não ter se recuperado bem ou não ter se alimentado adequadamente, mas somente depois que a competição termina, ele irá se tratar. Quando houve o advento do jogador Serginho, surgiram alguns estudos apontando que 10% dos atletas têm problemas cardiovasculares, as quais podem ser decorrentes de conseqüências genéticas ou terem sido causadas pelo esforço intenso, que disparou uma resposta geneticamente pré-determinada.
JC - Qual é a forma ideal de se praticar exercícios físicos?
Sandra - A forma ideal é aquela em que a pessoa encontra após realizar uma avaliação do seu estado físico. Ela deve conversar com um profissional de educação física antes de iniciar um programa de exercícios. Ele verificará a idade, peso e aptidão – ou seja se a pessoa já fez exercício ou não, há quanto tempo está parada ou há quanto tempo pratica. Somente depois de uma análise do estado atual do indivíduo, o profissional poderá prescrever os exercícios físicos. Mas sempre respeitando os princípios de treinamento. No caso de uma pessoa totalmente iniciante, é necessário um movimento gradual. Ela pode começar com 15 minutos e, aos poucos, aumentar para 20, 30 e 40 minutos. Não existe fórmula mágica e receita de bolo que sirvam para todos.
JC - Quem pode indicar a prática de exercícios físicos?
Sandra - Somente o professor de educação física, com respeito a todas as outras profissões. Mas ele não pode prescrever um medicamento ou uma dieta. O médico pode sugerir uma caminhada, mas ele deve orientar o paciente a procurar um profissional de educação física para saber como caminhar. A mesma coisa vale para a área de nutrição. Geralmente, a pessoa pede uma dieta, mas o professor de educação física não pode prescrevê-la. Muitas vezes, as pessoas acreditam em outros profissionais, mas temos que trabalhar para que este contexto se reverta.
JC - E há uma evolução, neste sentido?
Sandra - Hoje, com a valorização dos exercícios físicos, sim. Mas não foi sempre assim. Antigamente, era o médico que cuidava das pessoas. Havia o perfil do médico da família, o qual entendia sobre tudo. Hoje em dia, os cuidados estão cada vez mais especializados. Diversos médicos têm a idéia de que o exercício físico é bom e, neste sentido, o profissional de educação física vem ganhando uma participação grande nos congressos médicos. Mas ainda há casos em que as o médico sugere que o paciente ande de bicicleta ou hidroginástica, por exemplo, e aí ele resolve fazer por conta própria.
JC - O acompanhamento de um professor de educação física vale para a caminhada?
Sandra - Sim, principalmente para orientar sobre a intensidade do exercício. Há pessoas que caminham devagar. Outras um pouco mais rápido e outras que caminham e correm; isto depende da condição física de cada um. Às vezes, o caminhar pode não significar nada para o organismo de algumas pessoas. Outras podem caminhar durante uma hora e meia, passar por subidas e machucar o tornozelo e joelho. Há casos, por exemplo, em que a pessoa tem um pouco mais de peso, e a caminhada não é tão indicado quanto andar de bicicleta ou hidroginástica. Quanto maior informação a pessoa tiver a respeito do seu corpo e organismo, mais benefícios ela terá.
JC - A pessoa pode levar o cachorro para caminhar?
Sandra - Sim, porque na verdade ela fará exercícios e também proporcionará que o cachorro se exercite. Além disto, isto ajuda a distrair e melhorar a circulação do corpo. Porém, é preciso avaliar o tamanho do animal: se ele é um cachorro que “puxa” muito, a pessoa pode não alcançá-lo. Ou se o dono precisa andar muito rápido e o cachorro é pequeno, o animal não conseguirá acompanhá-lo.
JC - Quais são os benefícios psicológicos proporcionados pelas atividades e exercícios físicos?
Sandra - Normalmente, eles ajudam a melhorar a depressão e ansiedade porque estimulam os níveis de serotonina no organismo. Comprovadamente, eles melhoram o sono e colaboram para o aumento da auto-estima. Há exemplos de pessoas da Terceira Idade que ficavam em casa sozinhas e sem amigos, e quando entram em um grupo para praticar uma atividade física, além de ter a melhora no organismo, melhoram o convício social. Além disto, a mídia incentiva a prática de exercícios físicos regularmente, e cada vez mais são oferecidos mais serviços nesta área em clubes, entidades, organizações não-governamentais (ONGs) para a população.
JC - Qual é a melhor atividade física para quem não tem muito tempo?
Sandra - Pelo menos meia hora do dia a pessoa pode dedicar à realização de um exercício físico. Se ela faz duas horas de almoço, por exemplo, pode fazer exercício durante meia hora, tomar banho na outra e almoçar em uma hora. Sempre há um jeito. Mas o melhor exercício é aquele que dá mais prazer. A pessoa deve procurar algo que gosta e o que for mais adequado à sua condição física e aos seus objetivos.
JC - Para perder peso e modelar o corpo rapidamente, muitas pessoas recorrem ao treino rápido. Isto é indicado? Por quê?
Sandra - É possível fazer um treino mais rápido, desde que ele não infrinja nenhum princípio de treinamento, ou seja, intensidade e tempo de recuperação adequados e respeito às individualidades, como saber se ela é sedentária ou ativo, se é mais velha, mais gordinha ou se tem algum problema cardiovascular. Mas a maioria das pessoas não respeita estes princípios. Aquilo que é bom para algumas pessoas, pode ser muito ruim para outras. Em se tratando de prevenção ou auxílio no tratamento de doenças, se pode comparar o exercício físico a um remédio. Se for muito pouco, ele não fará efeito, como ocorre quando a pessoa está com enxaqueca e toma um quarto de determinado remédio. Situação contrária ocorre quando ela está com uma dorzinha de barriga e toma dez comprimidos de outro remédio; neste caso pode ter efeitos colaterais e passar mal. Com o exercício físico é a mesma coisa. Se o indivíduo praticá-lo com muita intensidade, exagero de duração e sem pausa para descanso, pode machucar sua musculatura, lesionar algum órgão ou articulação e gerar outras doenças conseqüentes do excesso de estresse.
JC - É obrigatório que todas as academias tenham professores de educação física dando aulas e orientando seus alunos?
Sandra - Sim. Antes isto não era tão fiscalizado e não haviam tantas academias. Hoje existe o Conselho de Educação Física que tem, ente outras funções, a de fiscalização. O aluno de educação física pode fazer estágio, onde ela passa por uma fase de observação e outra de atuação, mas sempre sob a supervisão de um coordenador.
JC - Qual é o papel dos suplementos, vitaminas e aminoácidos, na prática de exercícios físicos?
Sandra - Existem muitos. Em se tratando de benefícios, eles podem ajudar a melhorar força, explosão e suprir uma deficiência protéica e de carboidratos, ou melhorar o tempo durante a realização dos exercícios. Mas a grande preocupação é a de que estes alimentos podem ser substituídos por uma alimentação adequada. Muitas vezes, as pessoas preferem os suplementos porque eles estão em cápsulas e, aparentemente, há a idéia de que ele produz efeito mais rápido, mas para metabolizar um alimento e uma proteína em forma de cápsula exige que o fígado e o rim trabalhem mais. A curto prazo, pode ser que a pessoa só veja benefícios com o uso de suplementos, mas a longo prazo, pode ser que ocorra detrimento das funções normais do seu organismo, uma vez que ele precisará metabolizar produtos sintéticos antes de absorvê-los. Outro aspecto preocupante é a desinformação das pessoas. Elas acreditam na mídia, no dono da loja, no amigo ou no instrutor - que muitas vezes não é formado - e tomam os suplementos indiscriminadamente, sem saber para que eles servem.
JC - O profissional de educação física pode recomendar os suplementos?
Sandra - Na verdade, quem pode prescrevê-los é o nutricionista, porque estes suplementos fazem o papel de alimentos.
JC - A prática excessiva de exercícios pode causar dependência ou desencadear um comportamento compulsivo?
Sandra - Um comportamento compulsivo talvez não, mas já ouvi relatos de corredores que não se importam em acordar às 5h para correr. Algumas pessoas dizem que a prática de exercícios físicos estimula a liberação de endorfina, a qual poderia agir como viciante, mas acredito que ela gera um bem-estar. Mas qualquer coisa pode gerar dependência e tudo depende de cada pessoa.