A vida tem dessas coisas engraçadas e paradoxais: nós podemos falar mal de alguns parentes, criticar nosso time de futebol, atacar certos hábitos nacionais. Ai de quem, entretanto, tiver a ousadia de fazer isso. Nós, podemos. Os outros, jamais. Venha alguém me dizer que meu irmão é um desavisado, ou fazer gozação de meu time predileto, ou ainda falar mal do Brasil, especialmente se for um estrangeiro. Os pêlos do braço arrepiam-se e viramos uma fera!
Pois foi isso que aconteceu comigo, quando fui namorar os livros de minha biblioteca. Sim, namorar mesmo. De vez em quando, num verdadeiro ato de amor, faço isso: vou até as estantes, fico olhando as lombadas dos livros e torno a namorar Camus, Saramago, Borges, Neruda, Virginia, Lispector, Adélia, Lygia, Cecília, Drummond e tantos outros.
Para quebrar a magia desse reencontro, entretanto, meus olhos pousaram numa edição da Edusc (Editora da Universidade do Sagrado Coração): Eça de Queirós antibrasileiro? E me bateu uma certa raivazinha que já aflorara em 2001, ano em que li, pela primeira vez, a obra. O leitor naturalmente já percebeu o porquê. Vou explicar, no entanto, com alguns detalhes, a razão desse meu aborrecimento.
Eça de Queiroz (prefiro a grafia original do nome) durante algum tempo colaborou nas Farpas, folhetos mensais publicados em Lisboa por ele e Ramalho Ortigão. Nesses folhetos, Eça atacou a política e a cultura não só de Portugal, mas também dirigiu seus ataques a figuras importantes de outros países, como d. Pedro II.
O romancista português, nesses folhetos, desanca conosco, revelando uma fobia a tudo quanto era brasileiro, desde a alimentação, até os valores da cultura, antipatia que se foi atenuando, graças ao convívio com brasileiros ilustres como Eduardo Prado e Olavo Bilac. Chegou a afirmar, entre outras aleivosias, sermos um tipo de caricatura, cognominado de Judas infeliz de sábado de aleluia. Não recomendo a nenhum brasileiro que se tenha em boa estima, ler essa gozação “portuguesa, com certeza”. E nem sei mesmo por qual razão a rememoro. Talvez seja em virtude daquela pontinha de masoquismo que todos guardamos um pouco nos escaninhos d’alma, como diria o português lá da terrinha.
Fato é que o texto está cheio de frases desairosas, falando sobre nosso pouco asseio, sobre nossa mania de passear depois do jantar com o palito na boca e outras zombarias que, ao final do texto, são presumidamente postas em balanço – depois de Eça de Queiroz falar tudo que tinha vontade e nos desmerecer até à medula. Ele pede aos brasileiros, no caso de lerem esses seus escritos, para fazerem-no sem rancor. “Nós queremo-vos delicadamente bem”, afirma. Continua dizendo que, nós brasileiros, temos qualidades fortes, duradouras, mas, termina com mais ironia: “vós proveis-nos de papagaios! São coisas que não se esquecem!”
Não quero reavivar essa celeuma provocada pelas Farpas. Na época, os brasileiros, especialmente os recifenses e sergipanos, já se indignaram o suficiente e responderam à altura, mas, isso já faz tanto tempo, que ficou lá atrás nas dobras da memória. Ademais,não nos esqueçamos que também somos dados a engraçadinhos fazendo, sempre que possível, piadas com nossos irmãos lusos. Trata-se de uma troca de farpas, ao que parece, de longa data.
Eça era um gozador, um cáustico, com certeza. Que não é agradável, no entanto, ouvir ou ler algo desabonador a nosso respeito, disso não temos dúvida. Um pai carioca, um avô exilado em terras brasileiras, uma ama negra pernambucana, sem esquecer os colegas brasileiros em Coimbra e o fato de quase ter sido cônsul português no Brasil, não amenizaram ironias e arremetidas do romancista contra nossa gente.
Se considerarmos as dificuldades de um relacionamento cultural luso-brasileiro no século XIX, ao final de mais de sete décadas de independência brasileira em relação à nação lusa, e admitirmos o caráter de crítica social, literária e estética de as Farpas, por certo passarão esse nosso mal-estar e desapontamento. Agora é melhor voltar para minha estante de livros e continuar namorando as lombadas que só me olham com olhar de sedução. Assim, ficaremos todos “numa boa”!
Dra. Maria da Glória De Rosa