As famílias brasileiras gastam, em média, 8% de seu orçamento doméstico com despesas culturais, incluindo nesse cálculo os gastos com telefonia. Os recursos gastos nesses serviços são inferiores somente aos de habitação, alimentação e transporte e são superiores até aos de educação, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que divulgou ontem a pesquisa “Sistema de Informações e Indicadores Culturais”, com dados de 2003 e 2004.
Esse percentual em relação aos gastos domésticos, no entanto, varia muito de acordo com o nível de renda. Nas famílias mais pobres (renda inferior a R$ 400,00), ele é de apenas 4%. Nas mais ricas (mais de R$ 3 mil), chega a 9%.
Por se tratar da primeira pesquisa do instituto que tenta dimensionar o peso da cultura na economia, o IBGE optou por trabalhar com um conceito amplo do que seriam atividades ligadas direta ou indiretamente a área. Foi por essa razão que a telefonia foi incluída como integrante do grupo de atividades culturais. Se a telefonia não estivesse incluída, o percentual de gastos mensais das famílias cairia para 4,4%. Seria, ainda assim, superior ao percentual destinado à educação (3,5%).
“É fundamental saber que a cultura corresponde ao quarto item de consumo das famílias brasileiras. Certamente, essa movimentação econômica merece ser encarada como motivação para repensarmos nossas formas de investir”, disse o ministro da Cultura, Gilberto Gil, presente ao evento de divulgação da pesquisa.
Os pesquisadores do IBGE dizem que um dos fatores que levaram o instituto a incluir a telefonia como um ramo cultural foi permitir a comparação com pesquisas internacionais, que adotam o mesmo critério. Ao tentar dimensionar o peso da cultura na economia - e não somente no orçamento das famílias -, no entanto, eles encontraram algumas limitações, como a impossibilidade de separar dentro de um mesmo setor atividades usualmente consideradas culturais com outras nem tanto.
O exemplo mais claro dessa dificuldade está na telefonia. Dentro dele, há desde atividades técnicas como a manutenção operacional de redes de telecomunicação até a venda de jogos, músicas ou acesso à Internet. Também foram consideradas culturais as atividades de venda de eletrodomésticos como computadores, rádios, televisores e DVDs, que possibilitam o acesso a bens culturais. É por isso que no cálculo das despesas culturais das famílias foram incluídos também o valor médio gasto na compra desses eletrodomésticos. Esse valor representa 15% do total de gastos com cultura (incluindo telefonia).
A análise dos gastos familiares permite também detectar que as formas de acesso a bens culturais variam muito de acordo com a classe de renda. Nas famílias com renda média mensal inferior a R$ 2 mil, por exemplo, gasta-se mais com o aluguel de fitas de vídeo e DVD do que com ingressos de cinema. Essa situação se inverte nas famílias com renda superior a R$ 3 mil, cujo gasto médio é de R$ 9,40 com cinema e de R$ 6,30 com aluguel de fitas ou DVD.
Em todas as classes sociais, no entanto, as famílias informaram gastar mais indo a boates, danceterias e discotecas do que com cinemas, teatros ou shows. O gastos com festas, principalmente as de aniversário e de casamento, também foram muito superiores aos com outras atividades de lazer cultural.