Ancara - A rede terrorista Al-Qaeda no Iraque acusou ontem o papa Bento XVI de empreender uma “campanha cruzada” anti-islã com sua visita à Turquia. Em resposta, o Vaticano afirmou que os comentários refletem a necessidade de utilizar a “violência em nome de Deus”. “A visita do papa visa consolidar a campanha cruzada contra as terras do islã, após a derrota dos líderes cruzados no Iraque e no Afeganistão (...) e uma tentativa de diminuir a fé islâmica entre nossos irmãos turcos”, diz o comunicado divulgado pela rede em um site na Internet.
A rede diz, no anúncio, que a visita do papa visa garantir que a Turquia - “que já foi um bastião do islã” - continue secular e e “atire nos braços dos EUA e da União Européia”. A viagem de Bento XVI - a primeira do papa a um país de maioria islâmica - foi ofuscada pela polêmica em torno do discurso feito pelo papa em setembro último em uma universidade alemã. Na ocasião, o pontífice causou indignação entre a comunidade muçulmana ao citar um texto medieval que afirmava que o islamismo foi disseminado pelo mundo “por meio da violência”.
O comunicado não faz ameaça direta ao papa, mas diz que o grupo “está confiante da derrota de Roma em todas as partes do mundo islâmico”. A autenticidade do comunicado da Al-Qaeda não pode ser confirmada.
Religioso assassinado
No segundo dia de sua visita à Turquia, o papa Bento XVI homenageou um padre romano assassinado naquele país em fevereiro último durante uma onda de protestos no mundo islâmico pela publicação, na Dinamarca, de caricaturas do profeta Maomé. “Cantemos com alegria, mesmo quando somos submetidos à provação de perigos e dificuldades, conforme nos ensinou o testemunho do padre Andrea Santoro, a quem sinto-me feliz de evocar nessa celebração”, disse o papa em Éfeso - onde, segundo lenda, a Virgem Maria passou seus últimos anos.
Santoro foi morto a tiros por um adolescente, quando rezava, ajoelhado, em sua paróquia, na cidade de Trabson, no litoral do mar Negro. O incidente refletiu as dificuldades enfrentadas na Turquia pela minoria cristã, que não soma 2% da população. Por ela o papa disse “sentir um amor pessoal e uma proximidade espiritual” e reconhecer os “muitos desafios diários”. Mas Bento XVI, apesar de evocar o religioso assassinado, não o qualificou de “mártir”, o que deixaria incomodados seus anfitriões, e voltou a insistir, em sua homilia, no diálogo entre cristãos e muçulmanos.
O papa não tem interesse em alimentar o conflito entre essas duas fés para não reacender os protestos que despertou nos islâmicos ao citar, durante conferência na Alemanha em setembro, um imperador bizantino do século 15 que criticara Maomé por expandir “pela espada” a sua religião.
Em Éfeso, o papa evitou endossar a tese de que a Virgem Maria ali morreu, depois de supostamente fugir de Jerusalém. Essa versão é controvertida e ganhou corpo no século 19, quando um grupo de padres franceses tomou ao pé da letra as visões da freira mística alemã Anne Catherine Emmerich, em quem Mel Gibson se inspirou para seu filme “A Paixão de Cristo”. Outra versão diz que a Virgem morreu em Jerusalém.
Depois da missa, Bento XVI embarcou para Istambul, onde foi recebido no aeroporto pelo patriarca ortodoxo Bartolomeu II, com quem manteve um primeiro encontro. E que foi, segundo o Vaticano, o principal tópico da agenda, por sinalizar a superação do cisma ocorrido em 1054, permitindo, em tese, a reunificação do cristianismo.
A autoridade do patriarca se baseia bem mais na história e na tradição. Sua comunidade, a dos ortodoxos gregos, tem apenas 2 mil fiéis na Turquia. Além da islamização do século 15, quando Constantinopla foi conquistada pelos muçulmanos, os fiéis se reduziram no século passado, com os gregos da Turquia sendo repatriados voluntariamente para a Grécia, e os turcos do território grego para o território turco. Mesmo assim, o encontro do papa com o patriarca teve para os dois lados grande valor simbólico.