Internacional

Papa faz visita histórica à Mesquita Azul

Folhapress
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Istambul - Em declaração conjunta com o patriarca ortodoxo Bartolomeu I, Bento XVI afirmou ontem que o projeto de adesão à União Européia (UE) exige o respeito à liberdade religiosa. Foi a alusão mais crítica à Turquia que o papa fez desde sua chegada àquele país islâmico na terça-feira. No mesmo dia, o pontífice fez uma visita histórica à Mesquita Azul.

A minoria cristã enfrenta limitações que o governo turco deverá remover para levar adiante o processo de adesão ao bloco. Segundo a declaração, os dirigentes europeus devem “levar em consideração todos os aspectos relativos ao ser humano e a seus direitos inalienáveis, em particular a liberdade religiosa, testemunho e lastro de qualquer outra liberdade”.

O papa e o patriarca ainda pediram aos católicos e ortodoxos da Europa que unam seus esforços para preservar “as raízes, as tradições e os valores cristãos”, mesmo se abertos “a outras religiões”.

O apelo traz certa ambigüidade. Pode refletir uma tomada de posição em favor da hegemonia cristã na UE ou um apelo à tolerância dos europeus cristãos aos imigrantes muçulmanos. Na mesma declaração, os dois líderes cristãos rejeitaram o terrorismo e a idéia de matar “em nome de Deus”, presente no islamismo radical, e condenaram a violência em Israel e nos territórios palestinos.

Em homilia na igreja patriarcal de Santo André, Bento XVI disse que “a divisão que existe entre os cristãos é um escândalo para o mundo e um obstáculo na proclamação do Evangelho”. Ele se referia à cisão de católicos e ortodoxos, ocorrida em 1054. A atual reaproximação se iniciou em 1965, com o cancelamento da excomunhão e dos anátemas trocados há quase dez séculos entre o papa e o patriarca. Não há, no entanto, um projeto de reunificação das duas igrejas a curto prazo.

Horas depois, o papa alfinetaria mais uma vez a Turquia, ao se referir indiretamente ao genocídio que vitimou de 250 mil a 850 mil civis armênios desarmados, entre 1915 e 1917. Ao ser recebido por Mesrob II, patriarca armênio, agradeceu “a fé e o testemunho cristão do povo armênio, transmitidos de uma a outra geração, em meio às circunstâncias verdadeiramente trágicas, experimentadas no século passado”.

Nem em Ancara, primeiro ponto de sua visita de quatro dias à Turquia, nem em Esmirna, onde foi anteontem, foram vistos tantos policiais nas ruas. A estrada que o comboio do papa tomou para ir à igreja do Fanar - onde se encontrou com o patriarca ecumênico da Igreja Ortodoxa, Bartolomeu I - foi totalmente bloqueada por policiais que se posicionavam a cada 50 metros.

O papa visitou o museu de Santa Sofia, basílica construída pelo imperador Constantino e por 900 anos o maior templo cristão do mundo, transformado em mesquita em 1453 e em museu em 1934. Naquele mesmo momento, dezenas de nacionalistas promoviam um ato de protesto contra a visita do papa nas imediações. Um manifestante foi preso ao tentar fazer um discurso. O local foi cercado por tropas de choque da polícia.

“Ele está tentando transformar Istambul novamente em Constantinopla”, disse Bayram Karacan, dirigente local de um partido nacionalista, em referência ao atual nome da cidade e sua antiga designação como centro da fé cristã do Oriente. Outros nacionalistas e grupos islâmicos estariam atentos a Bento XVI, para saber se ele repetiria em Santa Sofia o gesto de Paulo VI, em 1967, que se ajoelhou e rezou num edifício hoje dessacralizado. Mas o atual papa seguiu o exemplo de João Paulo II, que em 1979 não se ajoelhou e nem rezou.

Em compensação - e foi um gesto amistoso para com os muçulmanos - o papa fez as duas coisas na Mesquita Azul, a mais importante de Istambul. Acompanhado por um clérigo local, Mustafá Cagrici, Bento XVI rezou por um minuto, depois de tirar os sapatos para pisar no imenso carpete e voltar a cabeça na direção da Meca, segundo a tradição islâmica. Depois se retirou em silêncio.

A visita à Mesquita Azul de Istambul é histórica e uma das mais significativas de sua viagem de quatro dias à Turquia. Bento XVI tornou-se ontem o segundo pontífice a entrar em uma mesquita. Ele segue os passos de João Paulo II, que em 2001 entrou na Mesquita Omíada de Damasco. A visita à Mesquita Azul foi incluída no último momento na agenda da viagem do papa à Turquia, como um gesto de respeito ao Islã. Este foi mais um passo do pontífice para tentar atenuar as tensões suscitadas no mundo islâmico por seu discurso na Universidade de Regensburg, na Alemanha.

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Saiba mais

Istambul - A Mesquita Azul, cartão postal de Istambul, fica na praça de Sultanahmet e foi construída no começo do século 17 pelo Sultão Ahmet I (1609-1619). O nome da mesquita vem dos mosaicos de azulejos azuis de Iznik que se encontram em seu pátio interno.

Sua construção criou grandes polêmicas no mundo muçulmano. Seus seis minaretes eram considerados um atentado sacrílego, pois rivalizavam com Meca. A resposta de Meca foi acrescentar um minarete à sua mesquita, para impor sua superioridade como local de nascimento do profeta Maomé e de peregrinação dos muçulmanos.

A mesquita, localizada em frente ao atual Museu de Santa Sofia, foi construída por Mimar Sinan (em turco, “Arquiteto Sinan”), que foi o chefe dos arquitetos imperiais e cujas idéias revolucionaram a concepção estética do Islã.

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